Sobre os managers

Quando eu fiz o treinamento, teve muitas poucas coisas que eu não levei a sério. Toda empresa tem, eu imagino, aquele papo besta sobre o tanto que eles são relevantes na atividade que performam, e sobre como têm clientes importantes, tudo pra fazer você se sentir importante no fundinho do seu coração, como parte de alguma coisa importante, mesmo que você não ganhe nem um terço por hora do que aquela pessoa na sua frente. Mesmo que muitas vezes você vai ter que trabalhar usando sapatos cuja sola já descolou (parcialmente pela porcaria do material, parcialmente por tanto andar), mesmo que você muita vezes acabe encalhado em setores de eventos que nem mesmo tem aquecimento – eu sei, parece absurdo, mas aqui é crucial – você se sente parte do funcionamento tranquilo de algo maior. Então, quando no meu treinamento de garçonete, em dezembro, me disseram que eu estaria trabalhando muitas vezes pra pessoas importantes, ou em lugares icônicos e mimimi, eu imaginei que isso não chegaria a acontecer comigo porque só ia trabalhar seis meses.

Acabou que não, e mesmo sendo iniciante, já estive em alguns lugares de certo prestígio, reconhecimento, fama, sei lá, chame o que quiser. Lugares que você não precisa dizer perto de qual estação que é. Tipo Westminster Abbey, é, issaí. Mas por causa de ontem, a figura que mais me intrigou foi a do manager.

Eu não queria usar o termo em inglês, e veja bem, não quero usá-lo aqui por pretensão. É só que, muitas vezes, equivalentes textuais de tradução são carregados de outros significados. Então não dá pra chamar de chefe – porque pelo menos eu quando digo chefe penso no dono da merda toda – e não dá pra chamar de, erm, administrador, porque essa palavra em português tem outra conotação. Pra resumir, quando você está na base da cadeia alimentar da área de hospitalidade, o manager é o cara com quem você fala. Ele é quem vai dizer qual a sua função aquela noite, o que pode e o que não pode. O manager está alto o suficiente pra ter respeito por todas as gradações de organizadores e baixo o suficiente para que a gente possa falar com ele diretamente.

Como quase todo dia que eu trabalho, conheço um manager diferente, em dois meses deu pra perceber os dois extremos. Um extremamente companheiro, raríssimo, procura eliminar a distância hierárquica entre ele e você. Te dá liberdade de fazer piadinhas, enquanto o evento não começa pergunta da sua vida, talvez até de onde você é. No fim do evento come as sobras dos canapés com a gente, passa pra galera as garrafas de vinho que foram abertas e iriam pro ralo de qualquer jeito. Tem um particularmente que abriu uma garrafa de prosecco e adora ficar batendo papo sobre religião – ateu – , ou música – eletrônica – ou sobre diferentes tipos de vinho. Mais importante do que escutar as nossas sugestões, ele se mostra disposto a ouvi-las, o que não acontece com tanta frequência.

Bom, com essa descrição já dá pra imaginar o extremo oposto; quando você chega, ele te olha de cima a baixo, diz que seu sapato não tá brilhando e que você esqueceu de tirar os brincos. Geralmente são a personificação do estresse. Alguns pra mim são tão caricatas que você se percebe espiando eles pelo canto do olho procurando qualquer sinal de humanidade. Essa semana trabalhei pra um que só faltou matar um cara que pediu pra não ficar no caixa, e sim lidando com o estoque num jogo de futebol. Sério. Ele começou a gritar na frente da gente, perguntando por que o cara queria trocar e se ele não desconfiava que muita gente tinha planejado aquilo pra ele sair pedindo pra mudar no último instante. Me considerei feliz por ele ter fingido que eu era invisível, até porque eu era a única mulher ali, e confesso que por isso acabei me extra esforçando – a atmosfera não estava muito positiva. Ah, e esses caras sempre tem um radinho com fone de ouvido, pregado na calça, então do nada faz um RRRR e ele começa a falar sozinho muito rápido.

Ainda entre os estressados, tem os que fingem fazer piadas. Mas piada de manager estressado é sempre variação do mesmo tema. “E esse cabelo mal amarrado, hein?hahahaha brincadeira”. “E essas mãos no bolsos, tá achando que é caubói?hahahah”, com aquela risadinha que ecoa no fundo da sua orelha, te trazendo o verdadeiro significado da piadinha. “Estou te lembrando que mando em você, mas olha só como eu sou bem humorado!”

Algo que todos eles têm em comum, estressados ou não, é que mais de uma vez por dia eu percebo os managers manageando gente sobre a qual eles não têm poder. Acho que é o hábito. Muitas vezes é engraçado, você só ri do estresse da pessoa, ou da mania, mas ontem teve um incidente que me deixou muito envergonhada do meu manager e me fez pensar um pouco mais afundo sobre essa posição intermediária deles na empresa.

O evento no qual eu trabalhei ontem acabou às duas da manhã e era no meio do nada, o que resultou na companhia nos dando um táxi. Seis pessoas moravam bem mais ou menos na mesma área, então fomos colocados no mesmo carro. Ouvimos que a viagem ia ficar 75 libras. O manager, por coincidência geográfica, ficou no meu táxi. Acontece que o motorista era mais perdido que cego em tiroteio, falava um inglês muito ruim e ainda por cima tinha um bafo que eu conseguia sentir do banco de trás. Percebi que aqui em Londres eles podem colocar qualquer um pra dirigir táxi, porque o GPS fala exatamente o que ele tem que fazer pra chegar a todos os lugares, então acabou aquela idéia minha dos taxistas de BH que conhecem a cidade onde estão dirigindo.

Bem, como o cara deu bem umas duas voltas no bairro de Greenwich – estávamos no norte, fomos parar no sul, e quando vimos, tinha placa pro lugar do evento na pista de novo – o manager foi ficando nervoso porque primeiro o taxista tentou convencer a gente de que o táxi ia na verdade custar 80. Já de cara o manager: “eu reservei 75. Vocês taxistas de madrugada tentam sempre se aproveitar. Eu vou ligar na sua agência e dizer pra eles que vou pagar 75. Qual o número da sua agência?”

Eu e meus outros três colegas prendemos a respiração, mas era só o começo; deixamos a primeira em casa, a segunda, a terceira; quando era finalmente a vez do meu endereço ir pro GPS, eis que o manager tem um rompante de ódio: “olha aqui, você vai fazer o que eu tô dizendo. pode colocar o meu cep aí e não fale mais comigo, que eu não aguento mais esse bafo, vê se escova os dentes, pelamor”.

Congelei no meu banco de trás. O meu último colega fez o favor de inventar q morava naquele pedaço pra descer logo e eu fui no trem da alegria até o endereço do manager, chocada com o tratamento que ele estava dando ao taxista, que, apesar de fedido e meio incompetente, estava só tentando fazer o trabalho dele, e em nenhum momento encorajou o manager a falar com ele naquele tom de voz. Se a gente entende o tanto que isso é uma quebra de, sei lá, respeito e costume social, imagina por aqui, onde todo mundo é duro e apegado a essas regras distantes de tratamento pessoal.

Quando o taxista saiu pra abrir a porta pro último dos meus colegas, o manager soltou um “odeio esse cara”. Eu, que já tava cansada daquela atmosfera, respirei fundo, e falei, em português (pois eis que o manager dessa noite era brasileiro): “você acha que isso era realmente necessário?” e fechei o olho, esperando ele me destruir, mas sabe! Tem horas que não dá. Que você tem que correr o risco e se posicionar. Pra minha surpresa, ele não disse nada. O taxista voltou, sentou, continuou dirigindo. Quando chegamos no endereço do manager, ele usou “por favor” e “com licença” pra dizer qual era a casa dele certinha. Não sei se ele tinha usado a última MEIA HORA em silêncio no táxi pra se acalmar ou se eu realmente o chamei à razão, mas pro meu próprio conforto gosto de pensar que ele me ouviu, seja verdade ou não.

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7 Opiniões pra perder os amigos

Já faz um mês que eu estou aqui em Londres – coisa demais pra mencionar no meu blog, coisa demais pra comentar no vlog – por isso quero pedir desculpas a quem espera que meu blog passe a ser um diário de viagem – quem relata muito vive menos. Ou seja, vou continuar opinando sobre coisas que eu vejo por aí, que é a idéia dele desde janeiro, quando começou.

Às vezes eu vejo alguém que discorda de mim. Tá que não é às vezes, é bastante, mas é normal alguém discordar de você quando você diz que Heinecken é a melhor cerveja Lager. Mas tem opiniões – eu não sei vocês, mas eu tenho isso – que eu considero no alto da minha arrogância pseudo racional como verdades absolutas que ninguém devia discordar. Algumas delas tão aí nessa polêmica do segundo turno das eleições.

(mais de uma vez eu disse a mim mesma: vou postar sobre as eleições! Vou falar sobre como me interesso pela Marina mas tenho ressalvas, sobre como Serra nem fudendo, sobre como… ah! Aí percebi que um post sobre as eleições seria chover no molhado igual explicar por A + B porque Crepúsculo será provavelmente a pior série de todos os tempos, desnecessário)

Pois muito bem. Pensei comigo mesma: nessa valsa repetitiva de Dilma e Serra se esquivando de tantas questões na esperança de ter o apoio do público da Marina, vou eu deixar claro o que eu apóio e foda-se. Eis os tópicos:

1. Casamento gay. De verdade, gente? A essa altura da humanidade cês ainda querem meter o bedelho na vida de quem só quer casar e ficar de boa? O que você tem a ver com isso, cidadão?

2.Aborto. Sou a favor da legalização do aborto sem restrições. Esses dias li uns argumentos muito doidões contra o aborto e fui tomada da acima mencionada arrogância de quem talvez tenha certeza demais que está certo. Não aceito feto como um ser vivo, do mesmo jeito que um vírus não é aceito como ser vivo na Biologia porque não vive sozinho, somente dentro e dependente de outro organismo. Quem tá viva nessa história é a mulher. E de novo: sério, gente? Ainda é tão difícil assim lembrar que mulher existe e é gente? Pleno 2010?

3. Votar em tucano. Me explica de verdade porque alguém que não é das classes A e B vota no Serra? Eles estão tão claramente interessados em defender somente os mais ricos à custa de promover uma população alienada sob um ensino de merda cheio de maquiagem que só não dá pra entender. Não sei sinceramente porque o Serra ameaça a candidatura da Dilma.

4. Beber Skol. Quando alguém me diz que a cerveja favorita é skol, a pessoa cai no meu conceito quase que instantaneamente. Em alguns poucos eu vejo um pouco de potencial, respiro fundo e falo: poxa, mas pelo mesmo preço cê podia beber cerveja de verdade… Tem Brahma, Itaipava por aí…

5.Legalização de drogas. Por mim todo mundo ingere o que quiser. Não é como se já não o fizessem, só é mais difícil. É bom que legalizando as drogas, vai rolar um darwinismo generalizado: quem for burro o suficiente pra usar de forma indiscriminada já morre e fica menos gente burra no mundo, pronto falei. No fim as coisas se equilibram.

6.Comunismo. Gente, vai dormir, já deu a hora de vocês, de verdade. Resumindo: aham, cláudia, senta lá.

7.Divisão em partidos de forma geral. Outro dia me disseram que ser contra a organização da “democracia” em partidos me fazia anarquista e achei graça. Acho horrível ter que ser filiado a um partido pra se candidatar a um cargo, acho que só leva ao que levou: esvaziamento da noção de unidade ideológica em detrimento de alianças temporárias que se provem mais interessantes.

Quem é a piada: o Tiririca ou você?

O assunto é recorrente, eu sei. Mas acho que tem merda demais jogada no ventilador pra eu não tentar me orientar escrevendo aqui.

Nas eleições desse ano, vislumbramos de novo o mesmo cenário de basicamente todas as eleições: todos os candidatos, a todos os cargos, são escolhas lamentáveis pra se votar. Os defeitos deles passam pela mais variada gama lexical.

Que os políticos se divertem ganhando votos nossos com atitudes como essas não é novidade:

O que pra mim é novidade, mais do que nos outros anos, é o apoio massivo e inexplicável que esses candidatos acabam ganhando. Eu ouvi uma variedade de comentários acerca, por exemplo, do candidato mais famoso, o Tiririca:

-Vou votar nele pra saber o que faz, afinal, um deputado federal.

MEU FILHO, NA ERA DO GOOGLE VOCÊ VAI VOTAR NUM IMBECIL PRA SABER SOBRE O TRABALHO DELE? EM PLENA ERA DO GOOGLE????

-Vou votar nele pra protestar, pra ver se as pessoas percebem que os humoristas (BURROS) tomam o lugar dos políticos. Revoluçãããããão! *gritos histéricos*

Já que mencionei as eras acima, gostaria de apontar outra característica dessa era nossa: todo mundo quer protestar do jeito mais sedentário possível. A gente faz uma pesquisa de opinião da internet pra dizer depois que a nossa participação motivou uma empresa a plantar não sei quantas árvores. A gente coloca nosso nome e identidade nos abaixo-assinados virtuais da vida, passando por e-mail. E o cúmulo: a gente tuita um tema até ele chegar aos Trending Topics no Twitter. De novo, QUE MERDA É ESSA?

Não tô te dizendo pra protestar com tochas incendiárias, palavras de ordem e pulão do bandejão, esporte favorito dos comunistas retrógrados da UFMG. Quer uma demonstração do que é um protesto organizado, não violento e presente? Olha aqui o movimento Praça BH. Pelo amor, postar #contraacorrupção não manda o Maluf pra cadeia se chegar no Trending Topics Worldwide!

A próxima foi de verdade.

-Meu voto é do Tiririca, pior que tá num fica, e vou votar nulo em tudo o mais, porque ninguém presta e porque eu detesto política.

Esse tipo de frase de mentalidade eu-leio-a-veja-e-daí me faz querer dar um tiro na cabeça e me mudar pra Terra Média, onde as coisas são resolvidas do jeito certo: jornadas por um anel envolvendo magos e anões e hobbits.

Dois vídeos de dois vlogueiros de quem eu gosto já abarcaram os meus principais argumentos: o Felipe Neto e o Francis Leech, ambos já citados aqui no meu post sobre brigas e vida alheia.

O voto só não tem valor se você o trata como um direito sem valor. O voto só não presta se você vota no Tiririca, se vota nulo, se vota em branco. Não pense que você não tem culpa, por exemplo, do Mensalão, (lembra?) só porque VOCÊ não votou naqueles caras. Porque votou em branco, nulo, ou porque votou no Ey-Ey-Eymael, o democrata cristão de zueira. Quem fez a merda foram eles sim, mas a população insistentemente treinada pra não gostar de política continua abrindo mão de um direito secular. A galera da classe média não quer votar porque é revoltizinha. Você que é pai ou mãe de classe média, que trabalhou tanto pra educar o seu filho numa escola particular, deveria pedir o dinheiro de todas as aulas de História de volta. Os modos de governo sofreram drásticas mudanças nos últimos anos pra abarcar a democracia. Não digo que democracia é necessariamente a melhor maneira, mas é a melhor idéia que deu pra concretizar até agora. Não faz nem 60 que mulheres podem votar no Brasil. Desde os velhos tempos nas aulas sobre civilizações antigas, a gente via que quem votava era o HOMEM, maior de 21 anos, dono de terras. Não foi fácil fazer com que qualquer pessoa pudesse votar. É uma arma poderosa demais pra você jogar fora com o Tiririca, o Romário ou a Mulher Pera.

Eu sei, você continua reclamando que não tem em quem votar. Será que não tem mesmo? A cada mil palavras da candidata do PSTU ao governo de Minas, Vanessa Portugal, novecentas são babaquices vermelhas revolucionárias, mas uma coisa é verdade: nós não temos acesso igual a todas as propostas de governo. E imagina só, nem é necessário fazer um movimento bem estruturado e presente. De novo, o Google a seu favor! Toda a informação que você precisa está aí, pra quem busca.

Cuidado com outra armadilha, já apontada pelo Francis: ninguém mais tem pressa em falar do plano de governo. De repente todo mundo nasceu no interior, trabalhou na adolescência, lutou na ditadura, tralalalalalala. Busque informações e opiniões concretas. Algumas perguntas pra mim, pessoalmente, são vitais: como o candidato pretende se movimentar pra auxiliar a educação? E com relação à inclusão das pessoas na universidade, número ou qualidade, como harmonizar os dois? E os direitos gays, e a lei do aborto, cadê?

Votar não dói não.

Só pra concluir: é claro que o voto forçado no Brasil é triste. Mas essa configuração só favorece a vida de quem acha que um trabalho de administração de um fucking PAÍS é brincadeira, veja o que pode acontecer se mesmo depois disso tudo você ainda vê o Tiririca e os amigos dele como opções viáveis de voto: Aqui.

Sobre como eu virei antagonista da maconha

Eu sempre tive um histórico de certa indiferença a drogas ilícitas. Sou asmática, o que exclui a maioria das coisas de fumar, principalmente o cigarro comum. Gosto de beber coisas alcoólicas, especialmente cerveja, que na minha opinião é sinceramente saborosa e estimula conversas em mesas de buteco por aí.

Desde que entrei na faculdade, vi que muitos dos meus amigos fumam/fumavam maconha. E também descobri que ela tem muito mais apelidos e nomes do que é realmente necessário. Vai ser o nome maconha tem alguma carga negativa que faz eles se sentirem culpados. Aí tem jonfa, craw(não sei bem a grafia desse), umzinho, beck, ad infinitum. Pois bem, isso nunca fez muita diferença na minha vida. Não costumava condenar ninguém que fumasse maconha, seguindo o maravilhoso princípio “a vida é sua e com ela você faz o que quiser”. Sempre vi drogas e qualquer outro “desvio” de comportamento como um problema apenas quando isso prejudica a vida das pessoas. Sempre costumei até simpatizar com o cheiro e tal, e ainda na filosofia do se vira, eu sempre apoiei a legalização das drogas.

Bom, essa minha última opinião não mudou. Quer matar seus neurônios? Antes os seus que os meus, sabe? Pois é.

Fato é que acabou que eu nunca formei opinião sobre a mais popular droga entre os universitários, porque ela nunca tinha me afetado, até o dia em que me afetou. Começou no dia em que eu finalmente me dispus a provar a coisa, porque acho que certas experiências são que nem 3D: não dá pra falar mal de você não deu a cara a tapa, foi lá no cinema e colocou os óculos. Foi numa festa aí, os detalhes pra onde eu quero chegar aqui são irrelevantes. Problema que surgiu: falta de memória. EU NÃO CURTO PERDER MEMÓRIA. Não curto ficar no piloto automático. Gosto muito das minhas sinapses pra abrir mão delas só pra sentir minhas pernas mais leves, sentir o mundo mais engraçado quando ele não é. Não porque eu não confie nas coisas que eu posso fazer quando eu estou no piloto automático, mas porque eu NÃO gosto mesmo. Como é que a gente fala o motivo de um gosto? Não curto e ponto, eu libero endorfinas quando estou no controle – e estar no controle das ações do meu próprio corpo é legal e eu gosto. Resolvi que não provaria mais e no fim do estágio um achei que já tinha minha linda opinião meia boca formada sobre maconha.

Eu estava enganada. O meu sentimento se tornou antagonismo declarado num dia em que eu ia sair com uns amigos. Eles disseram assim: nós vamos ali fumar um e depois a gente vai lá. E eu: beleza, espero aqui, porque não gosto de ficar junto com vocês fumando. OK, lá foram eles, eu fiquei vendo bobagens no youtube.

Quarenta minutos se passaram, não tinha mais criatividade que me ajudasse a achar coisas na internet pra ver. Até pro FailBlog eu já tinha apelado. Sendo assim, peguei minha mochilinha, dei uma espiada, e lá estavam eles, ainda com jeito de que o “um” não estava nem perto de acabar. Fui embora. Fiquei puta dum tanto sem tamanho, mas não disse nada – porque o que eu teria pra dizer? Eu detesto DR de amizade ainda mais do que maconha. Mas observei que esse comportamento era na verdade um padrão, eu é que nunca tinha me dado conta. Tinha sempre o “um” antes da aula, no intervalo… e sei lá quantas vezes. Das outras vezes que me chamaram pra sair depois do “beck” eu fui embora e depois só via como no final não virou nada, só a maconha mesmo.

E é por esse motivo totalmente pessoal e não-generalizável que eu detesto maconha. Acho um atraso de vida, sinceramente, e ressalto, como eu gosto muito das minhas sinapses, não gosto da lerdeza subsequente à maconha. É algo que tem ficar sendo feito às escondidas, na graminha; não dá pra tentar na mesa do Cabral e acender um cigarro de maconha. E mesmo que desse, a pessoa estaria ocupada demais pra conversar. Também detesto o modo como os olhos ficam vermelhos. Detesto como o pessoal que fuma age como se tivessem uma visão mais clara do mundo do que quem não fuma, como se a onda trouxesse insights maravilhosos sobre a condição humana. Como se eu fosse quadrada ou reprimida por não gostar.

Esse post é mais difícil de postar do que quase todos os outros, porque esses amigos que eu amo tanto devem ficar chateados. Essa opinião minha tá martelando há muito tempo e eu queria que eles – e qualquer um que fuma maconha – entendam que a ofensa não é pessoal. Não acho meus amigos X, Y e Z mais burros porque fumam maconha. Quero dizer que EU não gosto porque EU tenho essas impressões aqui especificadas. Às vezes, eu acredito que a gente tem que encarar as nossas opiniões. Não adianta se relacionar se for pra fingir que acha tudo bonito. Concordo quando o PC Siqueira fala das pessoas que se ofendem quando você fala mal de alguma coisa, porque elas entendem essa coisa como sua identidade. Galera, isso não existe. Eu amo cada um dos meus amigos pelas pessoas que são. E por mais honesta que eu tente ser comigo mesma e com as pessoas à minha volta, não posso esquecer que posso estar errada, a qualquer momento.

Bom, é isso.

Pra descontrair, esse papo todo me fez lembrar da Punky, A Levada da Breca – cês lembram? Tinha aquele episódio que as Chiqueletes tentam convencer a Punky e a Kátia a fumar maconha, e termina naquela coisa brega de “Aprenda a dizer não”. Hhaahahaha. Momento nostalgia!!!

Avatar e entretenimento

Antes de tudo, eu queria falar sobre a tamanha tentação que é não criar um vlog, seguindo o que eu fiz na semana passada. É cansativo, mas divertido. Enjoei de olhar pra minha cara durante as horas de edição, mas valeu pra ouvir a minha mãe dizer no telefone domingo: “Amaaaaaanda, você tá linda no youtube”. Hahaha. Mãe é uma coisa muito doida.

Mas o assunto de hoje: assisti Avatar, finalmente. Como o post não se chama “Comentário: Avatar”, só digo por cima que ele é estupidamente longo (duas horas e trinta e cinco minutos? Oi, Senhor dos Anéis?), mas MUITO legal. Sério mesmo, eu curti cada um dos trezentos e cinquenta mil minutos do filme. E nem senti tanta falta dos efeitos especiais. Uma coisa que tem me incomodado muito a respeito dos filmes que tão sendo lançados ultimamente é o fato de que TUDO agora é lançado na merda do 3D. Gente, que chatura! Só pra eu ter que pagar o dobro pra ir no cinema e usar um óculos com duas cores? Triste, mas vou ter que assistir algum filme em 3D pra falar mal com propriedade, agora. Olha que tristeza. Alguém quer ir ver Alice comigo?

Como eu digo aos meus alunos: focus…

Como ia dizendo, Avatar é muito legal. Apesar de ter exatamente o mesmo enredo de Pocahontas – e eu já tinha sido alertada disso, motivo de eu ter demorado tanto pra ver, além do 3D – , é muito divertido. Você realmente se apega aos personagens, e fica puto com os vilões, tudo. Passa o filme todo achando que vai acabar em tragédia, achando que seria impossível o Sully ficar com a… a mocinha azul. Neytiri?

Hoje de noite contei prum amigo meu que finalmente tinha visto Avatar e tinha adorado. Daí ele me perguntou diretamente “E é bom mesmo?”, daí eu parei. “Bom, ele é um grande entretenimento. É divertidíssimo, não é tempo perdido assistir, de jeito nenhum. Dá até pra abstrair um tiquinho nessa coisa de colonizar civilizações, mas isso é muito raso, obviamente, por isso foi um blockbuster. Eu gostei, mas não é um filme intelectual. É legal apesar de ser tão cheio de grana.”

Bom,

claro que eu não fui tão articulada na hora. Vocês viram no vídeo que eu sou um ser que não consegue elaborar uma coisa dessas sem pensar muito antes, apertar o backspace na cabeça e tal.

O que eu quero dizer com tudo isso é na verdade bem simples: eu costumo separar o fato de uma coisa ser bem feita ou intelectualmente profunda do fato de eu ter gostado dela ou não. Odeio essa gente que só tem gostos intelectuais. Que só lê crássicos. Gente, hoje eu recebi por e-mail o primeiro capítulo do sétimo livro do Artemis Fowl e fiquei que foi pura felicidade. Adoro Harry Potter. Adoro… que mais intelectualmente condenado que eu adoro? *procurando nas pastas de músicas* Taí, Lady GaGa. Até Avril Lavigne tem. Evanescence. Mas eu gosto de umas coisas que são consagradas, tipo Placebo. Que todo mundo diz que é bem feito musicalmente, etc etc. Eu sei lá. Sei que eu gosto. Pra eu gostar, não é realmente importante ser cabeçudo. É claro que isso não significa gostar de porcaria unanimemente. Mas se alguém me diz que só ouve Chico Buarque, Death Cab for Cutie, Bob Dylan e coisas do naipe, eu desconfio. Exceto pelo Chico, gosto dos outros mencionados, mas…

Por outro lado, outros grandes cabeçudos consagrados me dão urticária. Eu geralmente defino como “É muito bem feito, mas eu detesto”. Aí nessa lista eu coloco Machado de Assis, o último filme do Lars von Trier, o Chico Buarque… Tem algo neles que me irrita, algo de talvez intelectual demais? De fake? Eu não sei te explicar. Não acho o Machadão fake, não sei porque não gosto dele. Não gosto do Anticristo porque acho que ele é muito bem feito esteticamente, mas é vazio de sentido e dá voltas sobre um mesmo tema. O Chico é só chato mesmo. Mas sabe, gente?

O que eu tô me desesperando pra deixar claro aqui é que eu muitas vezes gosto de coisas pelas quais me condenam, porque aparentemente são vazios, mainstream ou mal feitos. Outras vezes, odeio coisas alternativas, de cafés e mostras culturais que todo mundo idolatra. Eu não gosto de ter vergonha do meu lado pop, não tenho vergonha de me identificar com coisas que são contemporâneas à minha existência – a mera idéia de se esforçar pra ter influências de vinte anos atrás é bizarra, não é? Pois é, muita gente é assim. Quer que a gente acredite que são assim. Bom, eu não sou.

Pra me entreter, não precisa muito: é só passar Ela é Demais na Sessão da Tarde! É evidente que eu também piro o cabeção lendo um Kafka, acho o Gus van Sant um cineasta do caralho. Eu sou normal! Sou a pessoa mais normal do mundo, como sempre digo.

Sobre ser mulherzinha

No ano novo, eu fiz uma promessa: escutar as encheções da minha mãe e ser menos relaxada com a minha aparência. A minha pouca vaidade – ou a ausência total dela, como queiram preferir – já tinha feito todas as minhas coleguinhas acharem que eu era lésbica desde a sexta série até… bem, eu ainda não sei se elas hoje acreditam que eu sou hetero.

meu esmalte feliz ^^

Isso não vem ao caso; fato é que eu tenho ÓDIO  de salão de beleza. Ao longo do tempo, aprendi a fazer minhas unhas. Só as minhas unhas, inclusive. Pintar de trás pra frente é quase impossível pra mim.

Ao longo do tempo, desenvolvi um apego ao meu cabelo, apesar de raramente fazer qualquer coisa ousada nele. Maquiagem era quase palavrão na minha vida; sempre usei no máximo uma vez a cada dois meses. A promessa no ano novo fez o mundo mudar: todos os dias – exceto quando estou aqui na roça – passo alguma maquiagem, sombra, base, rímel, etc.

Mas a verdade é uma só: por mais eu faça bons progressos, permaneço macho. A verdade caiu em mim hoje, quando minha mãe e eu resolvemos fazer umas compras. Ir nessas Pernambucanas da vida, farmácia especializada em tintura de cabelo… Concluo, já no fim do dia, que só posso ter uma falha genética.

Sinceramente: quantas cores de verdade existem pra cabelo? Qual é, afinal, a diferença entre o marrom dourado e o chocolate? E qual a diferença do café intenso pro castanho claro? QUANTAS CORES DE CABELO DIFERENTES TEM DE VERDADE NESSA IMAGEM?? ->

Pode rir, mas isso pra mim é sério. Tudo que mulherzinhas fazem, exceto fofocar, pra mim é um eterno sofrimento. Usar salto alto, depilação… Mas o que mais me choca é a abrangência do expectro de cores feminino; é de desafiar qualquer designer. Como elas podem ver 27 tons entre castanho claro e castanho médio?

Depois de derrotada pela minha mãe, escolhi um “tonalizante” loiro escuro – mas o cabelo na caixinha era CASTANHO – sob a alegação de que ele, claro, não vai pegar (porque nenhuma cor pega) mas vai dar um ótimo brilho. ¬¬

Passei então pelos esmaltes, depois pela maquiagem. Fiquei lembrando dum tanto de roupa que eu vi hoje nas lojas de Pirassununga… Sério mesmo, essa variedade é só ilusória. Não é possível! Não estamos escolhendo realmente uma cor de cabelo, e sim um tom com sobretom e outro bilho invisível, todos já pelo ralo em um mês. Eu não sei lidar bem com isso. Fato.

“]meu vestido novo

meu vestido novo =

Roupa, cabelo, unha, maquiagem, sapato, bolsa, acessório. É de enlouquecer qualquer um! É impossível balancear tudo, alguém me ajuda! Quero dizer, até que ponto TANTA personalização é realmente uma espécie de construção de identidade? Como é que o fato de eu usar sempre esmaltes roxos, azuis, laranjas e ocasionalmente vermelhos me define?

E poxa, qual é diabos a diferença entre o marrom dourado e o chocolate????

C-C-C-Combo de Micos!

Não sei se tem algum recorde pra mais vexação em pouco tempo. Hoje, em menos de 100 minutos, eu fiz coisas inacreditáveis.

Primeiro: Faz um bom tempo que eu tenho uma quedinha por um professor que dá aula de italiano no mesmo lugar que eu, mas ele é serião e vai embora logo depois de dar aula. Descobri que ele tá aula ao lado da salinha dos estagiários, então hoje, dez minutos antes da aula, fui pra lá estrategicamente. O mocinho estava lá, mal notou minha existência como sempre, não me abalei. Amor platônico é pra isso mesmo. Uma vez que ele saiu, resolvi que era hora também de ir pra minha literatura. Quando saí, dei aquela olhada significativa pra sala dele, e quando me virei de volta pro corredor, vi uma moça que achei que fosse uma amiga minha, cansada de saber da minha paixonite.

Pois bem: quando vi que era ela, fiz uma firula depois de passar pela sala dele, me joguei na parece e fiz uns gestos ridículos de paixão. Abri a boca pra dizer: “Fulaaaana… como esse homem é bonito!”, mas antes que eu falasse qualquer coisa, vi que não era ninguém que eu conhecesse.

O que fazer? Balbuciei, morrendo de vergonha, um ‘nossa! achei que você fosse outra pessoa! heheh…’. Mas não satisfeita em não ser amiga minha, ela ENTROU NA SALA dele! É aluna do dito cujo!!

Segundo: Resistindo a pular do quarto andar, insisti e fui pra aula. Depois de meia hora vendo a professora clicando em reiniciar quando o botão certo era cancelar, não sabendo abrir um vídeo – baixado em .flv, diga-se de passagem! Nem pra baixar vídeo do youtube direto em AVI! – estressei e fui comprar um sanduíche. Voltei com meu sanduíche pra sala de estagiários, fiquei conversando com um pessoal do alemão, depois de passar de novo pela sala do homem e conferir que ele estava falando com a turma, fazendo qualquer coisa. Contei aos três do alemão que lá estavam meu primeiro mico, com minha linda voz retumbante de descendente de italianos. No fim, um deles virou pra mim: ‘Que bom que você contou aqui, Amanda… A turma dele tá fazendo prova, num silêncio mortal, e ele deve ter acabado de ouvir cada palavra sua.”

Terceiro: engoli a vergonha mais uma vez e voltei pra aula, já esquecida dos problemas de inclusão digital da professora. Hoje e na próxima aula vamos falar de um romance, Lord of the Flies, e eu li quase nada hoje dele, ainda que desse pra acompanhar a aula de forma minimamente satisfatória. Em determinado momento, todos começaram a discutir alegorias, e o que cada personagem representava nessa interpretação; foi quando a professora disse: “Por exemplo, o Roger, lembram? Aquele que mata o Piggy…”

Do fundo da minha alma, antes que eu pudesse controlar meu impulso doidão de expressividade: “óóóóóóunnnnn”, gemi, tão alto que a sala INTEIRA morreu de rir de mim. Não foi pouco não,foi muito. Eu não conseguia parar de rir, seja de humilhação, de remorso, nervoso, qualquer coisa. Já que tá no inferno, abraça o capeta, ainda acrescentei, no meio da cascata de risos. “Mas o Piggy era o melhor…”

Sim, Brasil, humilhação não tem limite. Não achei uma imagem que expresse adequadamente minha derrota. Aceito sugestões.