Mercado de Trabalho, meu novo monstro

Um dos desafios aos quais eu me propus nos últimos seis meses foi trabalhar para entrar finalmente no mercado de trabalho.

Sim, o temiiiido mercado de trabalho. Aquele do qual quase todo bacharelando tem horror. Todo concursando tem horror.

Na verdade, eu não conheço ninguém que ache o mercado de trabalho a coisa mais divertida.

Desde antes do vestibular, a escola particular, pra me preparar para o mercado de trabalho. Eu tinha que saber coisas que não tem nada a ver hoje com a minha profissão, como química, física e biologia. Me disseram que eu ia precisar de tudo que eu conseguisse lembrar no mercado de trabalho, mas até hoje esses conhecimentos só tiveram duas utilidades: ganhar várias vezes todos os programas tipo Show do Milhão repetidas vezes, sentada no meu sofá e impressionando meus pais, e vomitando conhecimento inútil depois de algumas cervejas, o que acaba gerando nas pessoas à minha volta a impressão errônea de que eu sou uma pessoa mais interessante do que pareço.

Na universidade, a gente descobre que se conseguir ser nerd o suficiente, não vai precisar passar pelo mercado de trabalho. Vamos formar, fazer mestrado e doutorado com bolsas, olha que simples. Esse sempre foi o meu plano desde uma tentativa ridícula de ser monitora do que eu depois descobri ser uma horrível escola de inglês do centro de BH, em 2008.

O que a gente de fora sabe do mercado de trabalho? Que ele é a quintessência do capitalismo. A qualidade do serviço nem sempre importa. Os resultados nem sempre importam. O que importa é o quanto você consegue demonstrar gratitude e admiração pelo dono de qualquer que seja o estabelecimento onde você trabalha. Resultados e competência são secundários. Outra coisa muito comum no mercado de trabalho: entrevistas de emprego.

Entrevistas de emprego são uma amostra nojenta do que você está enfrentando. É o que faz você perceber que você está sinceramente se esforçando pra vender a sua dignidade. Aquela pessoa senta na sua frente, com uma prancheta, um papel em branco, uma caneta e uma poker face. É aqui que elas testam a única coisa que elas realmente querem testar para assinar ou seu contrato ou a sua carteira:

“Por que você quer trabalhar pra gente?”

E gostaria de informar, que por mais que eu queira, por mais que eu tenha me prometido nos últimos anos, ainda não consegui ter as bolas pra responder “Pra ganhar dinheiro”. Porque é isso que você quer responder, mas você tem que dizer que a empresa é muito respeitada, tem um grande know-how, é indicada pelos seus colegas de profissão, bla bla bla.

Algumas são menos imbecis; menos imbecis porque nelas, pelo menos, a pessoa que te entrevista leu seu currículo. E, mais impressionantemente, porque às vezes eles querem mesmo discutir seu currículo. Aí é lindo. Mas quase nunca é assim. Por exemplo, recentemente eu fiz uma entrevista na qual me pediram para dizer o que eu faria em uma série de situações vagas e sem nenhuma restrição. “quando você ensinou algo novo a alguém”, “quando você lidou com alguém que estava sendo anti-ético” (ainda tem hífen?), “quando você resolveu que precisava seguir adiante”. E juraram que só queriam que eu respondesse com sinceridade.

Sinceramente? BULLSHIT.

Algumas pessoas tem facilidade de fazer elogios que não foram merecidos. Por mais eu condene, não deveria, porque isso faz com que elas tenham um emprego e eu não (não que eu esteja desempregada, vocês entenderam).

E mesmo que você passe pela grande análise de puxa-saquismo, você segue para um primeiro mês no qual todos os olhos estão em você, te esperando fazer cagada. Pra quem trabalha no ensino de língua como eu, isso te coloca muitas vezes em situações ridículas, porque no Brasil os alunos tem uma grande dificuldade de te enxergar como uma autoridade acima deles. Já que eles pagam, eles acham que mandam em você. As escolas de inglês no Brasil – e aqui eu não faço exceções, porque ainda não conheci uma – não só não combatem essa idéia, como incentivam. Reclame sim, por favor. Seu professor falou muito inglês em sala de aula? Pois é, imagina só, um professor de inglês que realmente fala inglês!

Quem dá aula em escolas, não cursos livres, passa por um inferno todo deles. Porque além de serem subordinados de grupos de 20 a 30 adolescentes mimados, ainda recebem outra responsabilidade que não lhes pertence, que é a de educar os filhos dos outros. De gente que tem filhos, mas que acha que o único lugar onde eles precisam aprender qualquer coisa, inclusive humanidade, é dentro dos quatro muros da escola.

Esse post todo zangado é pra dizer que sim, eu detesto o mercado de trabalho. E provavelmente um dia, algum contratante meu vai jogar meu nome no google, descobrir esse texto exatamente e me descartar de qualquer que seja a seleção. E me fará um favor, porque poxa, que tipo de gerente doente de RH joga nomes de candidatos no google?

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Sobre os managers

Quando eu fiz o treinamento, teve muitas poucas coisas que eu não levei a sério. Toda empresa tem, eu imagino, aquele papo besta sobre o tanto que eles são relevantes na atividade que performam, e sobre como têm clientes importantes, tudo pra fazer você se sentir importante no fundinho do seu coração, como parte de alguma coisa importante, mesmo que você não ganhe nem um terço por hora do que aquela pessoa na sua frente. Mesmo que muitas vezes você vai ter que trabalhar usando sapatos cuja sola já descolou (parcialmente pela porcaria do material, parcialmente por tanto andar), mesmo que você muita vezes acabe encalhado em setores de eventos que nem mesmo tem aquecimento – eu sei, parece absurdo, mas aqui é crucial – você se sente parte do funcionamento tranquilo de algo maior. Então, quando no meu treinamento de garçonete, em dezembro, me disseram que eu estaria trabalhando muitas vezes pra pessoas importantes, ou em lugares icônicos e mimimi, eu imaginei que isso não chegaria a acontecer comigo porque só ia trabalhar seis meses.

Acabou que não, e mesmo sendo iniciante, já estive em alguns lugares de certo prestígio, reconhecimento, fama, sei lá, chame o que quiser. Lugares que você não precisa dizer perto de qual estação que é. Tipo Westminster Abbey, é, issaí. Mas por causa de ontem, a figura que mais me intrigou foi a do manager.

Eu não queria usar o termo em inglês, e veja bem, não quero usá-lo aqui por pretensão. É só que, muitas vezes, equivalentes textuais de tradução são carregados de outros significados. Então não dá pra chamar de chefe – porque pelo menos eu quando digo chefe penso no dono da merda toda – e não dá pra chamar de, erm, administrador, porque essa palavra em português tem outra conotação. Pra resumir, quando você está na base da cadeia alimentar da área de hospitalidade, o manager é o cara com quem você fala. Ele é quem vai dizer qual a sua função aquela noite, o que pode e o que não pode. O manager está alto o suficiente pra ter respeito por todas as gradações de organizadores e baixo o suficiente para que a gente possa falar com ele diretamente.

Como quase todo dia que eu trabalho, conheço um manager diferente, em dois meses deu pra perceber os dois extremos. Um extremamente companheiro, raríssimo, procura eliminar a distância hierárquica entre ele e você. Te dá liberdade de fazer piadinhas, enquanto o evento não começa pergunta da sua vida, talvez até de onde você é. No fim do evento come as sobras dos canapés com a gente, passa pra galera as garrafas de vinho que foram abertas e iriam pro ralo de qualquer jeito. Tem um particularmente que abriu uma garrafa de prosecco e adora ficar batendo papo sobre religião – ateu – , ou música – eletrônica – ou sobre diferentes tipos de vinho. Mais importante do que escutar as nossas sugestões, ele se mostra disposto a ouvi-las, o que não acontece com tanta frequência.

Bom, com essa descrição já dá pra imaginar o extremo oposto; quando você chega, ele te olha de cima a baixo, diz que seu sapato não tá brilhando e que você esqueceu de tirar os brincos. Geralmente são a personificação do estresse. Alguns pra mim são tão caricatas que você se percebe espiando eles pelo canto do olho procurando qualquer sinal de humanidade. Essa semana trabalhei pra um que só faltou matar um cara que pediu pra não ficar no caixa, e sim lidando com o estoque num jogo de futebol. Sério. Ele começou a gritar na frente da gente, perguntando por que o cara queria trocar e se ele não desconfiava que muita gente tinha planejado aquilo pra ele sair pedindo pra mudar no último instante. Me considerei feliz por ele ter fingido que eu era invisível, até porque eu era a única mulher ali, e confesso que por isso acabei me extra esforçando – a atmosfera não estava muito positiva. Ah, e esses caras sempre tem um radinho com fone de ouvido, pregado na calça, então do nada faz um RRRR e ele começa a falar sozinho muito rápido.

Ainda entre os estressados, tem os que fingem fazer piadas. Mas piada de manager estressado é sempre variação do mesmo tema. “E esse cabelo mal amarrado, hein?hahahaha brincadeira”. “E essas mãos no bolsos, tá achando que é caubói?hahahah”, com aquela risadinha que ecoa no fundo da sua orelha, te trazendo o verdadeiro significado da piadinha. “Estou te lembrando que mando em você, mas olha só como eu sou bem humorado!”

Algo que todos eles têm em comum, estressados ou não, é que mais de uma vez por dia eu percebo os managers manageando gente sobre a qual eles não têm poder. Acho que é o hábito. Muitas vezes é engraçado, você só ri do estresse da pessoa, ou da mania, mas ontem teve um incidente que me deixou muito envergonhada do meu manager e me fez pensar um pouco mais afundo sobre essa posição intermediária deles na empresa.

O evento no qual eu trabalhei ontem acabou às duas da manhã e era no meio do nada, o que resultou na companhia nos dando um táxi. Seis pessoas moravam bem mais ou menos na mesma área, então fomos colocados no mesmo carro. Ouvimos que a viagem ia ficar 75 libras. O manager, por coincidência geográfica, ficou no meu táxi. Acontece que o motorista era mais perdido que cego em tiroteio, falava um inglês muito ruim e ainda por cima tinha um bafo que eu conseguia sentir do banco de trás. Percebi que aqui em Londres eles podem colocar qualquer um pra dirigir táxi, porque o GPS fala exatamente o que ele tem que fazer pra chegar a todos os lugares, então acabou aquela idéia minha dos taxistas de BH que conhecem a cidade onde estão dirigindo.

Bem, como o cara deu bem umas duas voltas no bairro de Greenwich – estávamos no norte, fomos parar no sul, e quando vimos, tinha placa pro lugar do evento na pista de novo – o manager foi ficando nervoso porque primeiro o taxista tentou convencer a gente de que o táxi ia na verdade custar 80. Já de cara o manager: “eu reservei 75. Vocês taxistas de madrugada tentam sempre se aproveitar. Eu vou ligar na sua agência e dizer pra eles que vou pagar 75. Qual o número da sua agência?”

Eu e meus outros três colegas prendemos a respiração, mas era só o começo; deixamos a primeira em casa, a segunda, a terceira; quando era finalmente a vez do meu endereço ir pro GPS, eis que o manager tem um rompante de ódio: “olha aqui, você vai fazer o que eu tô dizendo. pode colocar o meu cep aí e não fale mais comigo, que eu não aguento mais esse bafo, vê se escova os dentes, pelamor”.

Congelei no meu banco de trás. O meu último colega fez o favor de inventar q morava naquele pedaço pra descer logo e eu fui no trem da alegria até o endereço do manager, chocada com o tratamento que ele estava dando ao taxista, que, apesar de fedido e meio incompetente, estava só tentando fazer o trabalho dele, e em nenhum momento encorajou o manager a falar com ele naquele tom de voz. Se a gente entende o tanto que isso é uma quebra de, sei lá, respeito e costume social, imagina por aqui, onde todo mundo é duro e apegado a essas regras distantes de tratamento pessoal.

Quando o taxista saiu pra abrir a porta pro último dos meus colegas, o manager soltou um “odeio esse cara”. Eu, que já tava cansada daquela atmosfera, respirei fundo, e falei, em português (pois eis que o manager dessa noite era brasileiro): “você acha que isso era realmente necessário?” e fechei o olho, esperando ele me destruir, mas sabe! Tem horas que não dá. Que você tem que correr o risco e se posicionar. Pra minha surpresa, ele não disse nada. O taxista voltou, sentou, continuou dirigindo. Quando chegamos no endereço do manager, ele usou “por favor” e “com licença” pra dizer qual era a casa dele certinha. Não sei se ele tinha usado a última MEIA HORA em silêncio no táxi pra se acalmar ou se eu realmente o chamei à razão, mas pro meu próprio conforto gosto de pensar que ele me ouviu, seja verdade ou não.

Sobre trabalhar

Trabalho desde o meu segundo período da faculdade, o que quer dizer desde os 18. Cumpri o plano dos meus pais, que era começar a trabalhar quando ficasse maior de idade. Fui estagiária de biblioteca, no IGC, durante seis meses; depois consegui uma bolsa de pesquisa no Laboratório de Tradução, e depois entrei pro CENEX, onde dou aula de inglês até hoje.

Não foi assim tão de boa. Fui rejeitada na minha primeira entrevista, atrás de estágios da FUMP, não passei de primeira na seleção da pesquisa, e fui demitida depois de duas semanas trabalhando numa escola duvidosa do centro.

Mas eis o cenário: tirei esse semestre pra trabalhar, fazer bem feitas as poucas matérias da faculdade nas quais me matriculei, e juntar dinheiro. Ao mesmo tempo, já me peguei negando aula particular (por insegurança sobre a minha eficiência), e hesitando em colocar cartaz oferecendo tradução. Olho pra várias propostas de estágio e fico achando sempre que é mau negócio. Bom, eu deveria ficar mais ocupada, né? Pegar o máximo de trabalho, porque estou precisando.

Então por que não fazer isso? A verdade é que eu acho que é defeito meu mesmo, porque dou muito valor ao tempo livre. Não conheço nada além da idéia básica do conceito de ócio criativo, e nem crio nada no meu ócio não, mas acho que fazer nada é muito importante pra sanidade mental. Sério mesmo! É claro que existem períodos nos quais você não pára. E é bom mesmo não parar pra não sair do ritmo; mas ainda assim, né?

A minha demissão da referida escola de inglês foi ao mesmo tempo muito ruim e muito boa. Ruim pelos motivos óbvios, era um bom dinheiro, e tal, eu poderia fazer um bom currículo, etc, etc, perder o medo de dar aula. Mas acho que acabei achando bom. Eles não me davam nenhum suporte, só me jogavam com o aluno e falavam ‘se vira’, quando eu deixei bem claro que nunca tinha dado aula, e apesar de saber inglês muito bem ([/modéstia]), não tinha didática nenhuma. A orientação foi zero. O amparo zero. A correria era absurda.

Então sabe? Existem lugares e lugares pra se trabalhar. Apesar de ter só um ano de experiência, e apesar de ainda não estar formada, faço o máximo pra não entrar mais em roubada. O Cenex tem seus viés, (viéses???) mas continua sendo o melhor trabalho possível, e me fez crescer muito em pouco tempo. Trabalhos assim fazem a gente querer voltar.