7 Opiniões pra perder os amigos

Já faz um mês que eu estou aqui em Londres – coisa demais pra mencionar no meu blog, coisa demais pra comentar no vlog – por isso quero pedir desculpas a quem espera que meu blog passe a ser um diário de viagem – quem relata muito vive menos. Ou seja, vou continuar opinando sobre coisas que eu vejo por aí, que é a idéia dele desde janeiro, quando começou.

Às vezes eu vejo alguém que discorda de mim. Tá que não é às vezes, é bastante, mas é normal alguém discordar de você quando você diz que Heinecken é a melhor cerveja Lager. Mas tem opiniões – eu não sei vocês, mas eu tenho isso – que eu considero no alto da minha arrogância pseudo racional como verdades absolutas que ninguém devia discordar. Algumas delas tão aí nessa polêmica do segundo turno das eleições.

(mais de uma vez eu disse a mim mesma: vou postar sobre as eleições! Vou falar sobre como me interesso pela Marina mas tenho ressalvas, sobre como Serra nem fudendo, sobre como… ah! Aí percebi que um post sobre as eleições seria chover no molhado igual explicar por A + B porque Crepúsculo será provavelmente a pior série de todos os tempos, desnecessário)

Pois muito bem. Pensei comigo mesma: nessa valsa repetitiva de Dilma e Serra se esquivando de tantas questões na esperança de ter o apoio do público da Marina, vou eu deixar claro o que eu apóio e foda-se. Eis os tópicos:

1. Casamento gay. De verdade, gente? A essa altura da humanidade cês ainda querem meter o bedelho na vida de quem só quer casar e ficar de boa? O que você tem a ver com isso, cidadão?

2.Aborto. Sou a favor da legalização do aborto sem restrições. Esses dias li uns argumentos muito doidões contra o aborto e fui tomada da acima mencionada arrogância de quem talvez tenha certeza demais que está certo. Não aceito feto como um ser vivo, do mesmo jeito que um vírus não é aceito como ser vivo na Biologia porque não vive sozinho, somente dentro e dependente de outro organismo. Quem tá viva nessa história é a mulher. E de novo: sério, gente? Ainda é tão difícil assim lembrar que mulher existe e é gente? Pleno 2010?

3. Votar em tucano. Me explica de verdade porque alguém que não é das classes A e B vota no Serra? Eles estão tão claramente interessados em defender somente os mais ricos à custa de promover uma população alienada sob um ensino de merda cheio de maquiagem que só não dá pra entender. Não sei sinceramente porque o Serra ameaça a candidatura da Dilma.

4. Beber Skol. Quando alguém me diz que a cerveja favorita é skol, a pessoa cai no meu conceito quase que instantaneamente. Em alguns poucos eu vejo um pouco de potencial, respiro fundo e falo: poxa, mas pelo mesmo preço cê podia beber cerveja de verdade… Tem Brahma, Itaipava por aí…

5.Legalização de drogas. Por mim todo mundo ingere o que quiser. Não é como se já não o fizessem, só é mais difícil. É bom que legalizando as drogas, vai rolar um darwinismo generalizado: quem for burro o suficiente pra usar de forma indiscriminada já morre e fica menos gente burra no mundo, pronto falei. No fim as coisas se equilibram.

6.Comunismo. Gente, vai dormir, já deu a hora de vocês, de verdade. Resumindo: aham, cláudia, senta lá.

7.Divisão em partidos de forma geral. Outro dia me disseram que ser contra a organização da “democracia” em partidos me fazia anarquista e achei graça. Acho horrível ter que ser filiado a um partido pra se candidatar a um cargo, acho que só leva ao que levou: esvaziamento da noção de unidade ideológica em detrimento de alianças temporárias que se provem mais interessantes.

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Sobre a terra natal

Comece a ler esse post ouvindo esta música: Family Tree, Belle e Sebastian

I’ve been feeling down

I’ve looking around the town

For somebody just like me

But the only ones I see

Are the dummies in the window, they spend their money on clothes,

It saddens me to think

That the only ones I see are manequins

Looking stupid, being used and being thin

And I don’t know why I hang around with them

Como você sabe que não pertence à algum lugar? Algumas coisas a gente tem que sentir. Eu passei muito tempo querendo sair daqui. Desde criança, quando eu escrevia/lia histórias de fantasia, as minhas favoritas eram aquelas em que o personagem principal escapava para um mundo novo, totalmente diferente, mas, principalmente, um outro mundo num qual ele era aceito e tinha até companheiros semelhantes.

Eu não me encaixava muito bem. Talvez isso seja racionalmente devido a eu ter mudado pra escola particular no finzinho da infância, mas independente das análises psicológicas, cá estou eu, incapaz mesmo de convencer ex colegas de colégio a tomar uma comigo quando estou prestes a viajar para a Inglaterra. E como a gente cresce – graças! – não foi importante, na verdade, porque de qualquer maneira estou completando o que eu chamaria de um ritual de encerramento.

Essa primeira estrofe me encheu de identificação, logo na primeira vez em que ouvi. Palmeiras sempre foi uma espécie de entreposto, meu armário embaixo da escada. A metáfora termina quando cortam o meu cabelo errado e eu não consigo crescer ele da noite pro dia.

De qualquer forma, com ou sem armário embaixo da escada, em exatos sete dias eu já estarei (com sorte) no meu novo quarto da Inglaterra, ou melhor dizendo, talvez até num bar, conhecendo pessoas loucamente!

Ao mesmo tempo, nesses momentos fica muito mais evidente o que está ficando pra trás. Já faz três anos que eu não moro mais com os meus pais, mas ainda até hoje sempre foi pra cá que eu corri quando alguma coisa grave acontecia, quando eu precisava recarregar as baterias, quando eu não conseguia mais suportar a solidão. Quando eu precisava que alguém soubesse que eu estava mal sem eu ter que falar, ou mesmo pra coisas banais… Ter um motivo pra acordar antes de uma da tarde – pra almoçar com os meus pais, no horário de almoço do trabalho deles. Pra ver o Lucky ficar doidão quando eu gritava do portão, pra buscar pão com meu pai imediatamente depois de chegar em Palmeiras e comer pão com manteiga falando desesperadamente até minha mãe gritar e me mandar calar a boca, falando que eu tava fedendo e que não ia dormir sem tomar banho antes.

De tudo que eu faço quando venho pra Palmeiras, o meu momento favorito sempre foi a chegada, afinal é o único lugar onde eu sou “recebida”, ou mesmo, onde eu sou esperada de qualquer forma. Já fiquei, no máximo, dois meses sem vir pra cá… E agora, de uma só porrada, vão-se dez meses, do outro lado do mundo, falando outro idioma com gente que nunca me viu nem nunca pensou que fosse me conhecer.

Eu sinto muito medo. Tá misturado com a emoção de pensar que vou pro coração da Europa, que referências de livros de história e literatura de repente vão se tornar concretos, e, principalmente, com a dificuldade enorme que foi conseguir realmente concretizar essa viagem. Afinal, Santa Cruz das Palmeiras não é o único lugar que estou deixando pra trás. Belo Horizonte me acolheu como poucos lugares.

Teve um momento em que parecia que eu não ia conseguir verba da assistência pra viajar, e sem ela estaria tudo cancelado. Eu me lembro do apoio da Gil, da Fabiana, da Renata. Lembro do meu medo louco de contar pro Cléber que eu não ia mais pra não ver a cara de decepção dele. E da correria, e da papelada, das infinitas reuniões com o Lucas, a Adriana e o Daniel pra todos os quatrocentos mil problemas que a coisa toda deu. Da festa de despedida do Quito, agora matando a gente de saudade lá dá Alemanha, da despedida do Douglas e do Igor, ambos agora lá em Portugal, e de todo o pessoal que também viajou e já está lá. Parece que eu já corri tanto, e mais do que isso, parece inacreditável que os meus planos estejam de fato se concretizando.

Aqui a trilha sonora já tem que mudar:

É gente demais pra sentir saudade, então a gente engole em seco e segue o caminho. Tchau Palmeiras, e até ano que vem.

(foda-se de ficou um texto melado, tô no meu direito! Fuck yeah!)

Camafeu

“Pierre e Aretha finalmente chegaram ao lugar combinado para ficarem escondidos, até voltarem para a Corte; os fundos de uma casa de atividades suspeitas, a julgar pelos risos jovens e o som. Dali podiam ouvir a música, de modo que não seria totalmente ruim ficarem escondidos.

Ele estava sentado nos degraus logo abaixo da porta dos fundos, sem se importar em sujar as roupas. Já Aretha tateava o cabelo, à procura dos grampos para poder desfazer o penteado. Até o momento, ao invés de encontrar, constatou a perda de três ou quatro presilhas. Todo o volume do penteado diminuíra durante o trajeto a cavalo; Pierre olhou de relance para os cordões soltos do colete, cortados.

-Está uma figura e tanto, Princesa. O cabelo desarrumado, o colete cortado, essa espada na cintura… E ainda os sapatos nas mãos. – acrescentou, ao vê-la tirando os sapatos.

-Estou me sentindo ótima agora. Poderia passar dias assim. – suspirou ela, satisfeita.

Dizendo isso, ela juntou as saias do lado de trás e sentou-se sobre elas. Respirou fundo e desembainhou a espada, lentamente.

-Você provavelmente me deu a pior arma que tinham na Corte. – reclamou ela. – É pesada demais para mim, está toda enferrujada.

-Então coloque-a de novo no cinto e a carregue de enfeite. Depois torça para que não precise usá-la.

-Ei, moleque – ouviram uma voz rústica arranhar sob a sombra da esquina. – Acho que é muito tarde para torcer por qualquer coisa.”

Nessas férias, eu reencontrei alguns dos milhares de cadernos que eu enchi durante infância e adolescência. O trecho acima é do capítulo dois da minha história favorita acima de todas as outras, que tem o título provisório de Camafeu.

Quando eu tinha 13 anos, tive o sonho mais legal e talvez mais vívido de toda a minha vida. Eu estava num vestido de festa enorme, numa festa em um castelo, e as pessoas estavam se curvando a mim por algum motivo. Um criado me serviu, mas me tratava muito bem, eu o convenci a se sentar comigo e conversamos durante uma refeição. Eu não me lembro exatamente sobre o quê conversamos, mas quando ele foi tirado por uma tia pra dançar com ela, me disse que se chamava Pierre. Depois de algum tempo, apontaram pra mim do trono, e no momento em que eu entendia que estavam me confundindo com a princesa, a verdadeira aparecia, e éramos iguais.

Com essa cena em mente, construí uma história em volta. Nada além disso, uma história. Mas não na época. Cozinhei a idéia e quando eu tinha uns 15, 16 anos finalmente a escrevi. Nesse trecho participam o moço do meu sonho e a verdadeira princesa.

Quando reencontrei os meus cadernos, reli tudo vorazmente e decidi fazer o que já planejava há algum tempo: revisar a história, fechar o enredo, tirar os exageros românticos ao longo da história (bom, eu era adolescente quando escrevi!) e talvez concluir o que tinha sido idealizado para três “livros”. Nesse tempo aqui em Palmeiras eu só revisei dois capítulos, mas repensei coisas e enfim… Tenho passado grande parte dos meus dias pensando nessa história – que está toda manuscrita, ou seja, passá-la para o computador é ainda outro desafio.

Eu sempre escrevi histórias de fantasia. Passei muito tempo lendo Harry Potter, Senhor dos Anéis, Nárnia (apesar de não gostar muito), Crônicas de Prydein, Artemis Fowl, entre outras séries, e quando eu fosse escrever teria que ser isso. Recentemente eu parei de querer me forçar a escrever algo “pós moderno, fragmentado e sem utopia”, como diria um amigo muito querido, e mantive em mente uma idéia da Toni Morrison. Ela é uma escritora afro-americana e falou:

“Stop thinking about saving your face. Think of our lives and tell us your particularized world. Make up a story. Narrative is radical, creating us at the very moment it is being created. We will not blame you if your reach exceeds your grasp; if love so ignites your words they go down in flames and nothing is left but their scald. Or if, with the reticence of a surgeon’s hands, your words suture only the places where blood might flow. We know you can never do it properly – once and for all. Passion is never enough; neither is skill. But try. For our sake and yours forget your name in the street; tell us what the world has been to you in the dark places and in the light. Don’t tell us what to believe, what to fear.” Fonte

Numa tradução minha e quase improvisada, “Pare de pensar em livrar a sua cara. Pensem nas nossas vidas e nos fale do seu mundo particular. Invente uma história. A narrativa é radical, nos criando no exato momento em que é criada. Nós não te culparemos de seu alcance for menor do que sua ambição; se o amor insuflar suas palavras de tal forma que elas caiam em chamas e nada reste além da sua ferida. Ou se com a reticência das mãos de um cirurgião, suas palavras apenas costurem os lugares onde o sangue possa correr. Nós sabemos que você nunca poderá fazê-lo adequadamente – de uma vez por todas. A paixão nunca é suficiente; tampouco a habilidade. Mas tente. Pelo nosso bem e pelo seu esqueça seu nome pelas ruas; diga-nos o como o mundo te tratou nos lugares sombrios e nos iluminados. Não nos diga em quê devemos acreditar, ou o que temer.”

Então quando penso, bem, como o mundo me trata? Agora é difícil, mas há alguns anos me tratava como se a melhor idéia que eu pudesse ter era virar fumaça e desaparecer numa outra existência. Coincidentemente, tema principal da minha pequena história de fantasia… Então foda-se, devo a mim mesma concluir aquilo.

Só uma observação: semestre passado eu fiz uma matéria sobre prêmio Nobel em Literatura, e esse discurso foi a coisa mais bonita e inspiradora que eu li. =]

Mais uma da Amanda

Eu jurei que não postaria mais histórias das minhas humilhações públicas, mas essa merece… Tá, eu sempre digo isso, paciência.

Aniversário de pessoa querida no Mulan. Pra quem não é tão íntimo de BH, restaurante oriental com rodízio liberado e, mais importante, karaokê a noite toda. A coleguinha aqui tinha se vestido bonitinha, maquiagem e tudo… Arrumou um bolerinho das antigas pra esconder que tava com preguiça de usar sutiã normal por baixo do vestido tomara-que-caia.

Bom, sabe o nome do vestido, né? Pois então, José.

Estávamos no palco eu e três amigos, cantando apaixonadamente “Man, I Feel Like a Woman” – sim, a música dá todo um contexto, eu concordo – e estou eu lá… Best thing about being a womaaaaaaan… E quando vejo a cara de um amigo meu meio espantado, olhei pra baixo…

OI SUTIÃ.

Lá estava ele, feliz e pequeno, o vestido todo pra baixo. Bem que as pessoas tavam aplaudindo demais.

Bom, fiz a diva, conjurei uma cara de pin-up, fiz “OH!” dramático e puxei o vestido pra cima sem cerimônia. Antes que a pergunta venha, sim, não havia uma só cadeira vazia naquele maldito Mulan.

Como sustentar uma vida sem dignidade

Bom, esses dias eu percebi – mentira, foi ontem mesmo – que a minha vida é na verdade uma sucessão de coisas ridículas, que muitas vezes acontecem bem rápido. Por exemplo.

1.Ontem, por algum motivo, eu falei que sou um cara operado pra sala de inglês básico 1. E sim, tinha contexto. Prometo. A sala me apelidou de “pardalzin de igreja”, porque eu saio pulando pela aula.

2.Semana passada, uma centopéia do tamanho de um bonde surgiu no meu quarto. Eu dei um ataque menininha e fiquei sapateando tentando acertar o bicho, gritando histericamente. A Aline, que mora comigo, tá rindo até hoje.

3.Num continuum, eu stalkeio amores platônicos – mas disso quem lê o blog com frequência já sabe né. Lembram do C-C-C-Combo de Micos? Pois é. Eu já passei cantando “Fagocita meu amor, fagocita” perto dele sem tê-lo visto. Gritando. Dançando. Eu caí sentada na salinha de estagiários. A lista dessa categoria é longa. (Não conhece “Fagocita”? Assista!)

4.Eu disse pra mulher do caixa no Epa que o cartão Fácil não é negócio pra mim, porque pra compensar aquele desconto de dez centavos eu teria que viver até os 80, o que não vai acontecer – e aqui apontei pras minhas compras: requeijão de cheddar, cheddar, cheetos requeijão, macarrão…  – porque eu não vou chegar nem na metade.

5.Na primeira aula do meu intermediário 2 esse semestre, eu fiz um moonwalk from hell.

6. Essa foto realmente está no meu orkut.

7.Essa é em tempo real: baixei o primeiro CD das Chiquititas. Estou ouvindo, cantando alto – e liguei o “o que estou ouvindo no msn”. E o scroll do LastFM.

É.

UPDATE: Esqueci de uma das melhores histórias ever. Na festa da posse da nova diretoria da Letras, meus amigos e eu resolvemos tirar uma foto com o ex-diretor, Jacyntho. Enquanto fazia pose, ele comentou que não gosta de fotos porque se sente velho. Fiz uma pausa, tentei manter minha boca fechada, mas não deu. Eu tentei, prometo! “Mas… ó, Jacyntho… Uma gestão como vice reitor… Duas como diretor da FALE… Jovem não dá pra ser, né?”

Em tempo: hoje pesquei do corredor um irmão de uma aluna minha, DURANTE  a aula, e coloquei ele sentado na sala, dei o papel da música pra ele. Ele ficou sendo meu aluno durante 30 longos segundos. Esse vai ser o último update, porque senão nunca vai existir uma versão definitiva desse post.

Sobre a faxina semestral

Gentem, socorro. Faz dois dias que eu cheguei em BH e que dia que eu fui animar de desfazer a mala? Hoje, Brasil!

E ainda por cima, só porque a moradia estava (de novo) sem energia elétrica. Depois de ler e fazer tarefa de italiano, só o que restava era o fato de que eu estava indo pro campus só pra não ficar nessa sujeira… Aiai. Foi bom também porque eu vi mais do que gostaria de ter visto na minha desnecessária incursão pelo campus de hoje, comi um McDonald’s e vim faxinar. [/clichê]

Eu sempre acredito nas faxinas como uma espécie de conquista do espaço. Na primeira vez em que vim pra moradia, trazendo todas as minhas coisas pra me mudar, abri a porta do meu novo quarto e encarei o vazio imundo. Limpei chão, prateleiras, armário, etc… E quando você termina uma faxina, parece que algo em você também está mais limpo; parece, ao mesmo tempo, que você conquistou aquele espaço, marcou-o com a sua presença, e agora pode se instalar. Não sei explicar bem essa sensação.

Ontem, fui ajudar na mudança do pessoal do Projeto D pra uma casa nova, (assistam!) e tive uma sensação parecida. Limpar, encerar, passar pano, vassoura, espirrar, esfregar paredes com vassoura… Tem limpezas que possuem um quê de auto limpeza também. No caso dos meus amigos, é o que a gente chama de fresh new start – sensação de casa nova, de prováveis festas… Limpar meu quarto no começo do semestre sempre me faz sentir melhor sobre o que está por vir, e também a pensar que apesar das merdas que algumas pessoas fazem comigo, eu continuo de pé. =]

Flashback

Achei esse texto na internet, por acaso. Está num blog antigo da Melissa, mas é meu.

O que me preocupa é que eu me lembro do dia, lembro da dor, mas tenho medo que aquela Amanda de 2007 simplesmente tenha deixado de existir.

“Acabei de fazer uma coisa muito bonita.

Porém, ao mesmo tempo, acabo de descobrir que caridade dói, e dói uma dor física que sufoca.

Estava eu indo à FUMP (o prédio onde é gerida uma fundação de assistência estudantil, ou seja, um lugar que ajuda alunos pobres), quando o ônibus virou uma esquina e eu não pude deixar de olhar pra um mendigo, sentado sob o sol forte, com roupas escuras, todas rasgadas. O cabelo dele estava despenteado, parecia meio branco, meio cheio de poeira, e ele empurrava-o pra trás de quando em quando. Pensei que ele estava no começo da Augusto de Lima. Observei enquanto o sinal continuava fechado o modo como as pessoas passavam direto por ele e senti pena. Lembrei-me então de um desejo que eu guardava desde antes de me mudar, e prometi-me mentalmente que, depois de resolver meus assuntos na FUMP, compraria uma daquelas esfihas de carne do Habib’s, que são baratinhas, e levaria pra ele. Aquilo ia requerer uma caminhada enorme, mas eu decidi que não ia doer sair um pouco do meu caminho pra dar algo praquele homem comer.

Só que o 5102, pra quem não conhece, é um ônibus que dá voltas e voltas na Praça Raul Soares, e quando olhei para o começo da Augusto de Lima antes mesmo de descer do ônibus, vi que não era lá que ele estava. Desanimei, pensando que ele poderia estar em qualquer esquina no entorno da praça, e ficar rodando lá poderia ser perigoso. Daí surgiu a segunda promessa mental: se eu encontrasse outro mendigo no caminho, faria a caridade, mas sabia que era uma promessa vazia, porque o caminho do ponto de ônibus até a FUMP é curto e não costuma ter mendigos.

Resolvi meus problemas, fiz meu lindo orçamento de gramática e dicionário de inglês, e fui saindo do prédio. Assim que pus os pés do lado de fora, ali estavam elas. Três mulheres, parecendo tão miseráveis quando o mendigo da idéia original, estavam sentadas ao lado do prédio, com carinhas sonhadoras, uma delas só com os dentes de cima da frente, espaçados e protuberantes; outra parecia mais velha, com os cabelos cinzentos iguaizinhos aos do homem, e uma menina encostada nela. As três estavam pedindo esmolas com duas caixas de sapatos. Eu hesitei em passar no meio delas, dei a volta, fiquei parada na calçada, olhando pra elas, sem ser percebida.
Pensei: são três! Eu não tenho tanto dinheiro assim pra comprar esfiha pras três, e não posso dar de comer só pra uma. Vou embora…

Dei um passo à frente, parei de novo, e entrei na fila do Habib’s que fica ao lado da FUMP. Comprei três esfihas de carne pra viagem e saí do prédio.

Primeiro eu me aproximei daquela com poucos dentes. Nem lembro direito as palavras que eu usei. Algo sobre perguntar se ela estava com fome e se gostava de carne. Entreguei uma esfiha, ela me olhou toda feliz, disse: “Deus te abençoe”, e eu respondi “Amém”, mesmo sem ser mais católica, que é o que eu sempre faço, pra não magoar os sentimentos religiosos das pessoas. Só que quando eu me virei pras outras duas, que já estavam alegrinhas por antecipação, eu não aguentei e comecei a chorar. Balbuciei de leve que tinha comprado uma esfiha pra cada uma. Entreguei as esfihas pra elas, depois os guardanapos. Voltei e entreguei guardanapos de papel pra primeira mendiga também, porque eu tinha esquecido.

Respondi aos agradecimentos delas de novo e me joguei na faixa, onde o sinal estava aberto pros pedestres. Estava chorando que nem criança, não consegui aguentar. Estava também com essa dor de que eu falei no começo, que pareceu fazer o meu coração inchar, ficar imenso, e me apertar por dentro; não tinha espaço pra mais nada, só coração.

Fiquei triste, porque aquilo era tudo que eu podia fazer por elas. Fiquei puta, porque todo mundo passa reto, todos os dias. Fiquei com vergonha, porque era a primeira vez que fazia isso, quando isso deveria ser um ato rotineiro, não só meu como de todas as pessoas. Fiquei me sentindo uma espécie de Cinderella Man, mas isso não me deixou tão feliz comigo mesma quanto achei que me deixaria, porque, de certa forma, eu estava sentindo dor. Era tão forte que eu fiquei assustada, enquanto subia a Espírito Santo. Achei que não ia conseguir chegar ao ponto de ônibus, passei direto por um hotel rico, com engravatados conversando educadamente à porta, passei por dois moleques com camisetas de Medicina da UFMG. E aquela dor não passava. Eu subi no ônibus, me sentei e continuei chorando, com todos esses pensamentos piegas que a caridade gratuita envolve, como “por que as pessoas deixam outras sofrerem desse jeito?” ou “por que ninguém faz nada?”.

Não podia deixar de lembrar, também, do Machado de Assis, que é sempre essa droga dessa nuvem negra em cima da cabeça da gente, falando que nunca se faz nada gratuitamente. Se eu dei um pouquinho de comer pras mendigas, queria reconhecimento, seja por quem estava passando pela calçada, seja por quem vai ler essa postagem, ou qualquer pessoa que consiga ouvir essa história de mim. Mas tá doendo tanto, que eu queria abraçar a minha mãe. Nada que eu faça agora faz essa sensação passar, apesar de eu ter certeza que fiz não só uma coisa certa, como uma coisa admirável, mesmo que o meu subconsciente tivesse me jogado dentro do Habib’s só pra aumentar minha auto estima, ou a estima de vocês sobre mim. Muita gente condena esses atos aleatórios de alimentação dos pobres, porque é apenas um modo de ilusão. Bom, não seria, se vossas senhorias fizessem o mesmo, de vez em quanto. As três esfihas me custaram 1,70. Não dói não. O que dói é o que vem depois.

Outra vontade que me tomou conta foi de gritar com alguém, de cuspir na cara dos revolucionários que agora enchem o campus da UFMG. Me deu vontade de quebrar alguma coisa cara de alguém importante. Deu vontade de me esconder.”