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Filme: Swedish Auto

janeiro 29, 2012

Antes de falar do filme em si, gostaria só de dar uma dica: caso vocês ainda não conheçam o Netflix, bem, vocês deviam conhecer. Basicamente, você paga quinze reais por mês, debitados na maior simplicidade do seu cartão de crédito, sem documento nenhum, e tem acesso a todo o tipo de filme e série, até documentários, pra assistir online, todos devidamente dublados e/ou legendados. Ele te mostra na página inicial sugestões de filmes conforme você marca suas preferências de gênero e tal. O carregamento é super rápido. A única desvantagem é que ele não tem material muito novo. Algumas séries não tem as temporadas mais recentes, é só. Mas o acervo é grande o suficiente pra te manter entretido até eles conseguirem o material mais novo, sem dúvida.

Bom, vamos ao filme!

Swedish auto se passa principalmente no espaço da oficina mecânica, que leva o nome do filme, onde trabalha um rapaz que, pra resumir bem, é um stalker. Ele é muito solitário, mora sozinho e seus passatempos principais são observar a rotina de uma violinista. Ele almoça todos os dias no mesmo lugar com o dono da oficina e o palhaço do filho dele. Carter assusta no começo.

Mas o motivo principal que eu dou pra vocês verem o filme é a excelente reviravolta que ele dá ainda no começo. Outros temas inesperados são incluídos na trama, os personagens são aprofundados e você se percebe entrando em desespero com as situações, sentindo emoções muito fortes. É um filme de muita empatia, pelo menos pra mim.

A trilha sonora é excelente. Tão boa quanto ela, só os silêncios. Quando os personagens estão em silêncio e a cabeça da gente ferve com tudo que eles devem estar pensando naquele momento. É muito intenso. Ao ler o resumo, fica só parecendo um elogio ao stalkerismo, numa onda meio série tosca de “vampiros”, mas o filme é sem dúvida, um tapa na cara das suas expectativas.

Recomendo.

PS. – Aline, eu sei que você quer a morte do negrito, mas eu não resisti.

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Comentário: Grey’s Anatomy

janeiro 7, 2012

Grey’s Anatomy, vou resumir aqui, é uma história ruim.

Sendo assim, por que ela é tão viciante?

A minha hipótese, que vou tentar elaborar um pouco aqui, é de que ela se vale de um elemento fácil de conseguir identificação pra que a gente se transfira pros personagens. Feito isso, os responsáveis pelos roteiros colocam os personagens em todo tipo possível de carrossel de emoções, e nós nos deixamos ir, por causa daquele sentimento nostálgico de quando você começou a ver a primeira temporada.

Pra quem não sabe, Grey’s Anatomy é uma série médica, com um subtema que eu gosto de chamar de “putaria”. O nome tem a ver com a personagem principal, Meredith Grey, que termina o curso de medicina e vai fazer internato em um hospital de Seattle, onde sua mãe, também cirurgiã, trabalhou. Como essa mãe é uma lenda, os desafios iniciais se resumem a não fazer merda e não desgraçar o nome da mãe. O problema é que ela não é muito carismática. Ela é meio seca, e dura, e os primeiros episódios são meio desagradáveis porque nós observamos enquanto cada personagem que possui um pênis quer ela loucamente. Entretanto, desde o primeiro episódio ela tem um romance tórrido com um dos médicos atendentes, um neurocirurgião.  Ou seja, na primeira temporada já vemos pessoas se pegando em todo lugar do hospital.

Então você me pergunta, onde está aquele elemento de empatia? No fato de Meredith e outros quatro personagens estarem começando a carreira na medicina. Os outros personagens, a início todos muito mais interessantes do que ela, são George, Cristina, Izzie e Alex. Quando alguém se forma na medicina, é claro que as pessoas não são simplesmente jogadas numa sala de operação pra cortar gente, então eles tem três anos de internato antes de poderem chegar perto dos pacientes. Esse começo, o medo de falhar, e a alegria que a gente compartilha com os personagens, especialmente com o George, quando eles fazem algo certo, é realmente sensacional. No meio tempo, o romance vai ficando bagunçado. Na segunda temporada, quando aparece uma das minhas personagens favoritas, Addison Montgomery, você começa a se perguntar se não está na hora de parar de ver aquela pegação disfarçada de série médica. Mas aí aparece Denny Duquete, que cria toda a tensão da segunda temporada. Antes que você perceba, aqueles internos estão fazendo coisas muito loucas e eticamente questionáveis. Os cliffhangers às vezes são óbvios, mas mesmo assim você se percebe correndo pra baixar o próximo episódio.

Christina e Meredith

No começo da terceira você ainda está sem fôlego por causa do final da segunda. É quando o foco muda mais pra questão Cristina e Burke… Estou tentando não dar spoilers, mas comece a ver como a história começa a deixar de ser sobre a carreira médica deles, e sobre as estripulias de uma galerinha da pesada num hospital pra lá de maluco. O problema é que a essa altura do campeonato, já é difícil não querer saber se a Meredith e o Derek vão ficar juntos, se a Cristina vai se casar ou não, depois você fica torcendo pelo casório… Nessa série, você acaba interessado nos personagens, e acaba que o enredo é ruim, mas mesmo assim você assiste. É que o personagem te prendeu. A história é péssima, mas aquele personagem te tem nas mãos. No caso de Grey’s Anatomy, vários personagens te tem nas mãos. Eu particularmente sempre fui entusiasta da Bailey, da Addison e da Cristina. Quando mexiam com elas eram os momentos de maior vício. Você continua se perguntando por quê, afinal, a série leva o nome da Meredith…

A terceira temporada termina, com oh-meu-deus-drama-drama-drama. E a quarta, mais curta, tenta repuxar a simpatia original, porque aqueles médicos agora são residentes! Mandam em novos internos, sobem na cadeira alimentar, e começam a pôr a mão na massa. Além disso, agora os personagens já tem muita bagagem emocional, o que significa que o expectador tem uma idéia muito mais clara de como eles vão reagir a determinadas situações, o que transfere pra gente uma nítida sensação de que aquele personagem realmente existe, está ali no nosso dia a dia. Não num nível Goku de ser, eles não precisam que você erga as mãos para o céu nem nada, mas vocês entendem o que eu quero dizer.

Depois da quarta temporada as coisas melhoram. O enredo não fica mais criativo, mas os personagens já atingiram um nível bem avançado de profundidade… Alguns deles. Por isso o drama fica mais intenso, o que com certeza era a idéia inicial, mas o melhor de tudo é que eles podem ser vistos crescendo como seres humanos. Entre a quinta e a oitava temporada, temos casamentos (eu consigo pensar em uns 4…), filhos, perda de filhos, gente morando junto…

Sem dúvida a melhor season finale é a da sexta pra sétima, porque simplesmente você não enxerga uma forma daquelas coisas darem certo. A tensão é grande e eu gosto das atuações, especialmente da atriz da Meredith. Inclusive, a essa altura você gosta dela. Porque ela já cometeu muitos erros, e ela se torna mais humana, mas mesmo assim continua competente, e o número de homens interessados nela acaba caindo de  36458369456834 pra um. O contraste com o subtema “putaria” das primeiras temporadas se consolida como “relacionamentos”. Ou seja, gente tentando viver junto, lidando com família e trabalho, tendo filhos, tendo problemas sérios, e ocasionalmente sendo super heróis com os pacientes.

Só pra concluir esse comentário, eu sempre escolho um personagem favorito e pra mim é Miranda Bailey, sem dúvida. Ela começa como uma residente, chefe dos internos que estrelam a série. Durona, super competente, se faz ouvir, mas mais importante, não se mete em rolos sexuais pelo hospital. Ela é focada no trabalho, mas luta o tempo todo pra manter a sua família. E putz, ela é engraçadíssima.

Desculpa, mas só mais uma coisinha: o que foi aquele episódio HORROROSO, que parece que saiu do Glee, na sétima temporada, com todos os personagens cantando? A vergonha alheia foi tão grande que eu precisei pular, e olha que naquele episódio a Addison vinha de Los Angeles.

Vou deixar vocês com essa entrevista da Sandra Oh, que faz a Cristina:

E da Bailey:

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Ars Bloguetica

janeiro 2, 2012

Esse mês o ThePavania completa dois anos de existência. É meio patético que eu esteja contando, mas achei que o primeiro post de 2012 deveria ser sobre como esse é o terceiro janeiro em que posto aqui.

Claro, se você tiver a infelicidade de olhar os registros anteriores, aviso já que não pertencem originalmente a esse endereço: eu tive pena de perder os posts em um blog vergonhoso da adolescência – porque, afinal, todos os blogs da adolescência são vergonhosos.

A coisa mais importante que eu aprendi mantendo o ThePavania foi que eu não quero, decididamente, ter muitas visitas, nem ter popularidade online. A princípio, eu sei que isso parece paradoxal, mas é porque a gente acaba pensando que se alguém publica alguma coisa na internet, é porque ela deve ser lida. Bom, eu não nego que eu quero que os textos sejam lidos, mas acho que visibilidade mataria todo o propósito.

Até porque, para abarcar uma grande população de leitores, eu teria que ter pelo menos alguma constância na escolha dos meus temas. Isso foi um problema quando eu comecei e não sabia bem o que estava fazendo. Deveria escrever só sobre feminismo, ou só sobre literatura, ou só sobre fantasia, ou só sobre política, ou só sobre viagens… E acabou tudo virando uma miscelânea.

Quando você tem muitas visualizações, você adquire uma responsabilidade com relação aos seus leitores. Os interesses deles devem ser considerados. Você tem uma platéia. Isso não é ruim, porque é poder pra comunicar muitas coisas importantes, mas uma abordagem dessa significaria diminuir o conteúdo pessoal do meu blog. E sempre que eu penso sobre o que colocar aqui e tenho dúvidas por ser sobre mim mesma, acabo lembrando do dia em que eu postei a história da Lara. A velha história do “o blog é meu e eu escrevo o que quiser”, pra minha alegria, se aplica a mim, mas não a pessoas como, sei lá, a Lola. Aqui eu puxo um Homem Aranha e lembro vocês de que com grande poder vem grandes responsabilidades. Aqui, estou escrevendo pra amigos e pra poucos conhecidos. Se eu quiser colocar um fluxo de consciência xingando todos os homens que já deram mancada comigo, ninguém liga, sou só mais uma voz falando quase sozinha na internet. Mas quando se tem visibilidade, há consequências. As pessoas formam opinião a partir do seu surto de reclamação de homens. E acho que prefiro o sossego daqui do jeito que está.

Houve um começo em que eu me sentia tentada a postar sobre discussões da internet. Coisas que davam ibope, como postar alguns motivos pelos quais Justin Bieber é um péssimo cantor ou pelos quais a série crepúsculo envergonha todo um gênero literário, sem falar de vários arquétipos. Aprendi a tentar sempre ter uma das duas abordagens: ou falar por crer que eu realmente tinha algo a acrescentar, ou porque eu precisava mais era discutir o assunto comigo mesma pra consolidar a minha própria opinião.

Isso tem muito a ver com um hábito passado de escrever em diários. Escrevi dos 9 aos 19 anos, tudo com uma riqueza humilhante de detalhes. Ainda que eu tenha parado, sempre precisei de algumas outras formas mais brandas de gravar a minha existência, o que no meu subconsciente deve ser uma tentativa patética de me imortalizar. Mas sem análise hoje: isso tudo foi só pra dizer que eu acho que escrevo bastante em blogs porque sou ligeiramente viciada em escrever em primeira pessoa.

Um último motivo é que eu não quero parar de escrever completamente. Quando leio uns textos de uns 4, 5 anos atrás percebo que eu escrevia muito bem, e seria muito triste só deixar de escrever.

Muitas reflexões pra esse começo de ano. Evitem os traumas, as más lembranças, tomem gin tônica e sejam felizes que ano bissexto é mais legal.

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Viciados em Opiniões

dezembro 29, 2011

É possível que alguém tenha opiniões demais?

Antes que você me diga que isso é uma pegadinha, porque parece, mantenha a calma. Sei bem que só de discutir o fato de que “opiniões demais” existem, já estaremos sendo muito paradoxais. Mas vamos tentar ignorar um dos dois únicos traços estilísticos da minha escrita nesse blog (o outro é falta de planejamento de texto).

Esse problema é muito comum nas humanas. A verdade é que nós nunca queremos estar errados. Nós nos damos bem com as palavras, e não nos cansamos de usá-las, mesmo que seja em situações nas quais elas são inúteis, repetitivas ou redundantes. Na verdade, esse traço de personalidade é que o nos faz perceber que pertencemos a essa área, antes mesmo de fazer o vestibular. Enquanto os professores de Geografia, de História e de Literatura insistentemente nos dizem pra questionar o que está em torno da gente, pra sempre suspeitar das fontes de informação, aprender a fazer as perguntas certas, é bem verdade que pouca gente acaba carregando isso. No caso particular dos alunos da UFMG, as pessoas que acabam criando esse vício em crítica e dissecação de argumentos acaba indo pra FALE, pra FAFICH e alguns pro IGC.

Mas a verdade é, opinião demais às vezes é uma coisa que enche o saco. Eu e meus amigos mais próximos temos esse problema. Ninguém nunca está errado. Nunca. Mesmo se eu quiser comprar um sutiã preto e a Aline achar melhor eu comprar um, sei lá, azul. Quem ouve conversas entre seres como nós deve pensar que estamos tentando salvar alguém do corredor da morte.

Eu não me lembro sempre de fazer isso, mas às vezes, em conversas, eu apenas me sento, apoiada no encosto – outro traço dos que tem opinião pra tudo: quem se inclina pra frente, põe os cotovelos na mesa de bar, pode ser um de nós – , respirando fundo. Sabe por quê? Às vezes é impossível conseguir uma brecha de meio segundo pra começar sua frase. É engraçado como o processo de turn-taking, essa coisa de quem fala depois de quem, pode ficar complicada quando seres das humanas estão discutindo algum assunto. Todos nós, veja bem, todos nós temos uma perspectiva. Mesmo se não tivermos opinião formada, vamos dizer: “Ah, mas uma vez alguém me disse que achava isso assim e assim”, só pra contribuir pra conversa e tentar validar (ou não) aquela opinião que você conhece, mas ainda não sabe se concorda. Às vezes nós ficamos bravos uns com os outros, porque não nos deixamos falar.

Estar errado é… ARGH! Impensável.

E olha que até agora eu apenas me ative a conversas de bar. Quando você está lidando com seres que compartilham o seu funcionamento, mas não são seus amigos… Ah, aí é guerra. Em discussões em sala de aula. Quando alguém com dificuldades cognitivas (momento eufemismo) ergue a mão numa aula de literatura inglesa e diz: “I think it’s ironic…”, em discussões políticas. Em reuniões! Nós nos sentimos compelidos a fazer algum pronunciamento. Mesmo que não seja a melhor opinião na mesa, queremos por tudo que ela não seja a pior.

Eu, particularmente, tenho esse sintoma agravado porque tenho problemas com ansiedade. Problemas sérios. Tá, não tão sérios. Mas digamos que eu PRECISO ser a primeira pessoa a entrar num ônibus, então quando ele se aproxima, eu faço mil contas e me posiciono sempre de forma que as portas abram bem na minha frente. Não consigo atrasar, me sinto mal, é quase físico. Quando tenho que acordar cedo pra um compromisso, como trabalhar, eu não durmo, porque minha cabeça continua a mil na escuridão, calculando todas as possibilidades de eu dormir demais e me atrasar, ou de tudo dar errado. Quando vou viajar, compro passagens com antecedência que varia entre dois meses a uma semana, mesmo quando há muitos voos, ou ônibus. É doentio.

Resumindo, pra gente é ainda mais difícil. Existem forças, plural, em ação para que você tente por tudo estar certo. Estar certo é uma droga. Deixa você preso numa nuvem de conforto, felicidade e arrogância, pra poder rir das opiniões ridículas dos outros. É um lado negro nosso.

Nas redes sociais, somos facilmente identificáveis. Na verdade, nas redes sociais um olhar aguçado pode até detectar gradações do vício. Sabe aquelas pessoas que sempre estão entrando em grandes argumentos? Que sempre estão em uma polêmica, mais ou menos entre a segunda ou terceira página do seu news feed? Gente que posta comentários com dois, três parágrafos, quando qualquer pessoa sã simplesmente pensa consigo mesma, “tl;dr”? Pois é. Somos alvos frequentes de trolls.

Agora, essa é particularmente pra quem compartilha desse meu problema: crianças, isso é desgastante. Respirem fundo. Tomem mais dois goles de cerveja, ponham as pernas pra cima. NÃO responda a trolls. Não responda a qualquer pessoa. Conheço gente que passa horas inteiras pesquisando perfis online de desafetos e entrando no tipo de discussão que eu acabei de descrever no parágrafo acima. Isso envelhece, viu? Eu sei que fomos treinados pra fazer isso por anos. Nós debatemos em sala de aula. Somos treinados durante a graduação e todos os níveis da pós pra criar teses que não tenham falhas. Mas pelamor, uma discussão sobre o se o estilo do Neymar é ridículo não precisa desse tipo de entusiasmo. Tenhamos calma.

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Mercado de Trabalho, meu novo monstro

dezembro 23, 2011

Um dos desafios aos quais eu me propus nos últimos seis meses foi trabalhar para entrar finalmente no mercado de trabalho.

Sim, o temiiiido mercado de trabalho. Aquele do qual quase todo bacharelando tem horror. Todo concursando tem horror.

Na verdade, eu não conheço ninguém que ache o mercado de trabalho a coisa mais divertida.

Desde antes do vestibular, a escola particular, pra me preparar para o mercado de trabalho. Eu tinha que saber coisas que não tem nada a ver hoje com a minha profissão, como química, física e biologia. Me disseram que eu ia precisar de tudo que eu conseguisse lembrar no mercado de trabalho, mas até hoje esses conhecimentos só tiveram duas utilidades: ganhar várias vezes todos os programas tipo Show do Milhão repetidas vezes, sentada no meu sofá e impressionando meus pais, e vomitando conhecimento inútil depois de algumas cervejas, o que acaba gerando nas pessoas à minha volta a impressão errônea de que eu sou uma pessoa mais interessante do que pareço.

Na universidade, a gente descobre que se conseguir ser nerd o suficiente, não vai precisar passar pelo mercado de trabalho. Vamos formar, fazer mestrado e doutorado com bolsas, olha que simples. Esse sempre foi o meu plano desde uma tentativa ridícula de ser monitora do que eu depois descobri ser uma horrível escola de inglês do centro de BH, em 2008.

O que a gente de fora sabe do mercado de trabalho? Que ele é a quintessência do capitalismo. A qualidade do serviço nem sempre importa. Os resultados nem sempre importam. O que importa é o quanto você consegue demonstrar gratitude e admiração pelo dono de qualquer que seja o estabelecimento onde você trabalha. Resultados e competência são secundários. Outra coisa muito comum no mercado de trabalho: entrevistas de emprego.

Entrevistas de emprego são uma amostra nojenta do que você está enfrentando. É o que faz você perceber que você está sinceramente se esforçando pra vender a sua dignidade. Aquela pessoa senta na sua frente, com uma prancheta, um papel em branco, uma caneta e uma poker face. É aqui que elas testam a única coisa que elas realmente querem testar para assinar ou seu contrato ou a sua carteira:

“Por que você quer trabalhar pra gente?”

E gostaria de informar, que por mais que eu queira, por mais que eu tenha me prometido nos últimos anos, ainda não consegui ter as bolas pra responder “Pra ganhar dinheiro”. Porque é isso que você quer responder, mas você tem que dizer que a empresa é muito respeitada, tem um grande know-how, é indicada pelos seus colegas de profissão, bla bla bla.

Algumas são menos imbecis; menos imbecis porque nelas, pelo menos, a pessoa que te entrevista leu seu currículo. E, mais impressionantemente, porque às vezes eles querem mesmo discutir seu currículo. Aí é lindo. Mas quase nunca é assim. Por exemplo, recentemente eu fiz uma entrevista na qual me pediram para dizer o que eu faria em uma série de situações vagas e sem nenhuma restrição. “quando você ensinou algo novo a alguém”, “quando você lidou com alguém que estava sendo anti-ético” (ainda tem hífen?), “quando você resolveu que precisava seguir adiante”. E juraram que só queriam que eu respondesse com sinceridade.

Sinceramente? BULLSHIT.

Algumas pessoas tem facilidade de fazer elogios que não foram merecidos. Por mais eu condene, não deveria, porque isso faz com que elas tenham um emprego e eu não (não que eu esteja desempregada, vocês entenderam).

E mesmo que você passe pela grande análise de puxa-saquismo, você segue para um primeiro mês no qual todos os olhos estão em você, te esperando fazer cagada. Pra quem trabalha no ensino de língua como eu, isso te coloca muitas vezes em situações ridículas, porque no Brasil os alunos tem uma grande dificuldade de te enxergar como uma autoridade acima deles. Já que eles pagam, eles acham que mandam em você. As escolas de inglês no Brasil – e aqui eu não faço exceções, porque ainda não conheci uma – não só não combatem essa idéia, como incentivam. Reclame sim, por favor. Seu professor falou muito inglês em sala de aula? Pois é, imagina só, um professor de inglês que realmente fala inglês!

Quem dá aula em escolas, não cursos livres, passa por um inferno todo deles. Porque além de serem subordinados de grupos de 20 a 30 adolescentes mimados, ainda recebem outra responsabilidade que não lhes pertence, que é a de educar os filhos dos outros. De gente que tem filhos, mas que acha que o único lugar onde eles precisam aprender qualquer coisa, inclusive humanidade, é dentro dos quatro muros da escola.

Esse post todo zangado é pra dizer que sim, eu detesto o mercado de trabalho. E provavelmente um dia, algum contratante meu vai jogar meu nome no google, descobrir esse texto exatamente e me descartar de qualquer que seja a seleção. E me fará um favor, porque poxa, que tipo de gerente doente de RH joga nomes de candidatos no google?

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Solteira sim, sozinha sempre

dezembro 18, 2011

Aqui estamos, caros leitores: eu, uma garrafa de água com gás e meu ventilador apontado pras costas, madrugada adentro.

E hoje em dia quero soliloquar (GASTEI, HEIN) sobre as pessoas que namoram, esses seres alienígenas que convivem comigo diariamente, mas que guardam diversos segredos inatingíveis para pessoas, como eu, que se identificam um pouco demais com a imagem ao lado.

Como solteira há mais de dois anos, sem qualquer tipo de relacionamento exceto por um ou dois amores platônicos (acho que dois), da minha perspectiva os namorados tem acesso a algum tipo de felicidade que pra mim é simplesmente impossível de acessar. Não sei qual dos fatores tem um apelo maior: o sexo regular e muito bom (em longos relacionamentos, o casal se conhece bem e sabe o que o outro gosta, em tese), a segurança de aceitação sobre qualquer circunstância, o apoio incondicional naqueles dias ruins em que o ônibus atrasa, reclamam de você no trabalho e seu chefe é mais burro que você. E tem também o sexo.

Não que solteiros não façam sexo, ou que não façam quando bem quiserem. O que eu quero dizer é diferente: não só vai ser bom, como se não tiver sexo nenhum, dormir junto vai ser muito bom. Ver filme ruim também. Olhar o 9gag até ter que recorrer à página do vote também. O conforto dessa situação é totalmente diferente da tal da adrenalina dos one night stands.

Então, como todos os meus amigos mais próximos (quase) estão em relacionamentos de longa data, não só eu acabo ficando com preguiça de frequentar ambientes de solteiros “pra caçar” como acabo ficando com esse imaginário idealizado do solteiro, que só lembra dos namoros pelas suas coisas boas.

Esse é o ponto número um.

O dois: conheço umas três pessoas, pelo menos, que consistentemente pulam de namoro em namoro, com intervalos de um mês ou dois entre um relacionamento e outro, sendo que ela nunca passa muito tempo sozinha. Essas namoradoras profissionais (conheço mais homens que mulheres que aderem à prática) me rodeiam desde que sou adolescente. Eu achava que eu não era assim porque não era bonita, olha que bobagem. Que bom que a gente cresce, né?

Quando eu decidi falar sobre isso, eu tinha planejado falar do modo menos impositivo possível, mas afinal de contas, eu estarei mentindo se disser que eu aprecio esse tipo de atitude. As pessoas que conheço e aderem a essa necessidade de estar em um relacionamento, ao meu ver que pode perfeitamente estar errado, são mais fracas.

Pronto falei. Julguei, generalizei, fiz tudo que sempre prego contra. Me denunciem na safernet.

Existe vício em romance? Eu não sei se é pra mim que isso é mais ofensivo, porque sempre tento (e falho em) pagar de durona, de independente, etc. Talvez. Mas sempre que eu conheço essa pessoa, e num espaço de cinco anos ela não passou mais de dois meses solteira tendo estado, digamos, em três relacionamentos, eu acabo abstraindo que essa pessoa é fraca e dependente. Que a vida dela vive sendo desviada pra assuntos bobos relacionados com namoros jovens e que duram até seis meses, sempre desgastantes e sempre responsáveis por repercussões negativas em estudos e trabalho. Sob a minha perspectiva, eu acabo vendo essas pessoas namoradeiras como instáveis, nada confiáveis e ligeiramente necessitadas de atenção.

É claro que você pode pegar tudo que eu escrevi aqui e fazer outro texto sobre como a gente joga valores e preconceitos numa pessoa segundos depois de conhecê-la num bar, se ela te disser: “Eu namoro bastante, nunca fico sozinha”.

Ficar sozinho tem seus prazeres. É uma vida de menos adrenalina, mas não é como se conhecer um namorado pra mim seja uma mera questão de vestir algo bonito e sair. Não é qualquer pessoa que é namorável. Na verdade, quase ninguém é! Eu sempre me choco com o número de casais existentes, porque conhecer alguém que te atraia, que você atraia, que tenha interesses em comum e ao mesmo tempo tensão sexual, horários compatíveis, idéias políticas que não sejam dissonantes (isso pra mim é importante), etc, etc, etc é um evento tão raro que não deveria acontecer nunca!

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Graduação – Loading 90%

dezembro 4, 2011

São três da manhã e eu estou num ciclo de surtação interior que começou ontem à noite, quando saiu a oferta de matérias da Letras para o próximo semestre.

Estava eu, olhando e sentindo a vontade costumeira de me matricular em dez matérias, quando de repente percebi… que daquelas matérias, três apenas são as que eu devo fazer pra me formar no próximo semestre. Só de pensar nisso, meu sangue ainda gela embaixo da pele. E por mais que eu faça a matemática, eu sempre estou certa nas contas, sempre o mesmo resultado. Concluí as matérias de linguística, de literatura. Deprimente ou não, faltam duas matérias de ênfase da monografia e… gramática tradicional.

Ou seja, de quebra, no meu último semestre vou fazer matéria com calouros. Acho que vou até mudar o nome do meu blog pra “estudando com calouros”.

Quero dizer. Eu vou me formar. Me formar. Serei uma bacharel em inglês. Pela FALE. Faz cinco anos que levo essa vida, por que essa sensação é tão estranha? Por que esse frio na barriga afinal? Faz anos que eu vejo meus amigos se formarem, porque boa parte deles é mais velha ou mais avançada academicamente. Eles concluem, entregam uns relatórios, defendem uma monografia, tiram cem, vestem aquela beca ridícula no dia da colação, tem uma dezena de discursos piegas sobre a vocação do profissional de letras (blah) e, inevitavelmente, o pesadelo da breguice: um power point com música e foto dos formandos. Tudo isso é horrível até mandar parar. Eu já fiquei na platéia inúmeras vezes, e ficarei na próxima pra ver alguns amigos se formarem, mas na colação de, sei lá, agosto, serei eu. E se tem uma lição aprendida nesse blog, é que o tempo passa, e assim como há um ano exato eu estava ficando sem dinheiro em Londres, trabalhando e me sentindo horrivelmente sozinha, sei que daqui a um ano tudo vai ser ainda mais radicalmente diferente.

Na verdade, eu mudei de assunto por vergonha. Eu tenho uma secreta paixão por colações de grau. Sabe como dizem que pra muitas mulheres o casamento é a cerimônia da vida dela? E casamento é piegas, ridículo, brega, com discurso, talvez até power point… Pois é, sabe? (ah, o powerpoint, que custa a sair de moda!)Então… digamos que a colação de grau será o meu casamento. A mera idéia já me assusta tanto que eu tenho medo de ficar chorando igual uma retardada durante o negócio todo. Mas como não? Vão me chamar lá pra receber meu canudo lilás, vão falar meu nome inteiro, meus pais vão estar explodindo de orgulho e meus amigos vão provavelmente ficar me chamando de cachaceira.

Cerimônias são importantes, sabe. A idéia de passar por essa cerimônia específica, a colação de grau da Letras, sinceramente me apavora. Vou ter 23 anos e um diploma de Letras! Eu estou repetindo isso vezes demais, né? Muitas vezes? Bem, desculpe. Blog é blog.

Bom, agora são três e quinze da manhã e eu ainda me sinto desorientada. E, ainda que falte pouco, parece que é tanto! E tem o D.A.! Aliás, minha chapa ganhou a eleição, obrigada a todos!

Acho que a sensação de medo que estou tendo agora me lembra muito uma situação que me aconteceu em julho.

Eu tinha voltado pra Belo Horizonte depois de chegar no Brasil e passar um mês com meus pais. Daí meu pai veio comigo no fim de julho, e minha amiga Nádia veio comigo. O dia foi corrido, assistimos o último filme de Harry Potter com a Melissa e a família dela, foi épico. Quando fomos dormir, eu estava um pouco decepcionada porque meu pai e a Nádia iam embora dali a pouco, e eu tinha a sensação de que não tinha sido uma boa hostess. Não estava conseguindo dormir de jeito nenhum, e eu achava que era por isso.

Finalmente eu me levantei, saí do quarto da moradia, fiquei sentada na sala um bom tempo. Era mais ou menos a hora que é agora. Eu percebi que estava é com medo. Porque quando eles saíssem na manhã seguinte, quando o carro arrancasse e eu ficasse aqui na Avenida Fleming, eu estaria sozinha de novo. E depois de oito meses sozinha em Londres, eu tinha me agarrado aos meus pais, e sinceramente eu tinha um medo quase paralisante de retomar a minha vida no Brasil. De não ser tão boa quanto antes. Nessas horas, qualquer bobagem faz você se sentir pior. Eu me senti menos bonita, por causa da engorda que sofri lá fora. Me senti inútil, porque meu último emprego consistia de três dias humilhantes sendo garçonete no Hilton Heathrow. Eu tinha sonhado tanto, e agora que tinha voltado, estava com medo da vida real não condizer com as minhas expectativas.

E bem, eu estava errada, pra meu alívio.

Inclusive eu escrevi pouco aqui, ainda que tenha pensado em diversas pautas, mas porque durante boa parte do semestre eu surtei achando defeitos fatais na minha monografia, ou lidando com empregos em três lugares diferentes + aulas particulares + legendagem (entrei prum grupo desses de legendagem de séries) + matérias da faculdade (acabei trancando duas das cinco, e só depois descobri q elas eram desnecessárias mesmo…). E agora, no fim do ano tudo se acresce ao D.A. Letras, meu xodó. É tanta coisa pra pensar que não dá pra se desligar, aí de repente sai essa oferta…

E nós voltamos ao começo do post.

O texto cíclico foi acidental. Mas talvez seja assim pra eu descobrir que esse meu medo de não dar conta é saudável. É o que mantém a gente na ponta do pé.

*respirando fundo*

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Ao Pé da Letras

novembro 6, 2011

Eu tenho poucos leitores regulares aqui, mas esses poucos sabem o quanto eu já me envolvi com movimento estudantil na UFMG. Desde que eu sou caloura, já participei de DCE, de eleição pra Congresso da UNE, de gestão de D.A., de comissão eleitoral pra eleição da diretoria da Letras, de representação estudantil na Câmara de Extensão da FALE e na Congregação. Ou seja, ao longo desses quatro anos de Letras, eu já mexi com bastante coisa.

Principalmente, eu sempre tive uma relação muito pessoal com o D.A. Em 2007, quando me mudei pra cá, naquela salinha laranja com tocador de vinil, eu encontrei amigos que até hoje fazem a minha vida em BH ótima. Lá eu encontrei apoio nos meus momentos mais difíceis. Quando me mudei, quando minha avó morreu, quando me vi sem um real pra ir pra Inglaterra. Por causa disso, sempre me mantive a par das gestões, participei de uma, a Gestão 42, 2007/2008, e mesmo que depois eu tenha perdido a eleição seguinte, nunca consegui deixar de me importar.

Por isso, depois de muitos acontecimentos lamentáveis no D.A. Letras desse ano, algo muito singular aconteceu: devido ao absurdo dos acontecimentos, pessoas com quem eu discordei não uma, mas várias vezes no passado, se juntaram comigo pra construir uma chapa que se preocupe primariamente com o D.A. e com a Letras, ao invés dos favores do seu partido, sem a prolixidade patética do que está lá no momento, e sem as risadas sarcásticas diante das críticas. Quanto você ocupa um cargo público – e a gestão de um simples D.A. se encaixa nessa categoria, você deve satisfações e deve respeito a quem te critica, porque você trabalha pra eles. Eu não quero gastar muito tempo falando da decepção que eu tive com a gestão atual, mas só vou deixar bem claro que ela foi suficiente pra que eu me juntasse com outras pessoas que se sentiram tão ultrajadas quanto eu na chapa que leva o nome desse post.

Nessa terça-feira, teremos dois debates, e eu vou estar lá pra responder a perguntas durante a manhã, mas à noite eu trabalho. Vou colocar aqui a carta-programa, e peço que vocês leiam com calma, me tragam perguntas na terça, e me ajudem a colocar uma chapa no D.A. que não recebe dinheiro de nenhum partido e que é feita de uma miscelânea de pessoas novas e antigas na FALE.

“Olá, estudante de Letras!
É chegada a hora de mais uma eleição para o Diretório Acadêmico Carlos Drummond de Andrade, o DA-Letras. Esse é um momento em que refletimos muito sobre nossa faculdade: qual modelo de educação nós defendemos? Quais problemas sentimos em nossa unidade e quais são seus motivos? Como devem nos representar aqueles que elegemos e o que eles devem defender? Como deve se organizar o movimento estudantil da Letras?
Nós somos uma chapa que defende um novo modelo para o DA: queremos construir uma relação Ao Pé da Letras – aproximar cada estudante na sala de aula, construir um DA com democracia, interesse pelo debate e respeito à diversidade. Somos estudantes de ambos os turnos e diversas habilitações, que achamos necessário ter um DA aberto e democrático para poder responder a todas as demandas que tanto sentimos na Letras.

Qual é a FALE que queremos? 

Estudamos em uma faculdade que é uma referência nacional, numa das maiores Universidades federais do país. Porém, sabemos que nem tudo são rosas na FALE. Todos temos muito orgulho de estar aqui e, por isso, achamos que temos que defender com unhas e dentes o nosso curso. Viemos de um processo de expansão que não veio acompanhado de investimentos adequados. Assim, nossos calouros se deparam com salas lotadas e todos nós vemos os professores sobrecarregados com muitos orientandos e disciplinas para lidar. A oferta de disciplinas se torna pobre e temos filas cada vez maiores para o acerto de matrícula… E nossa cantina, então? Para os alunos do noturno, a situação beira o insustentável: temos 10 minutos de intervalo para comer – tempo que passamos, normalmente, todo na fila. Os preços aumentam a cada semestre – o pão de queijo com café, que antes custava 1,20, teve um reajuste de 25%! Mas e nossas bolsas, foram reajustadas também? 
Ainda há problemas de estrutura como o nosso elevador, que data da década de 80, o CAD que deveria ter ficado pronto em 2009 ainda está em obras, nosso xerox, cujas filas constantemente nos fazem chegar atrasados na aula… Exemplos não faltam! Cada um de nós sabe bem o que passamos em cada habilitação, em cada sala. 
A Chapa Ao Pé da Letras defende um DA que aponte alternativas e soluções pra esses problemas. Temos que reivindicar mais contratação de professores, a presença de todas as habilitações para os dois turnos, um novo modelo de acerto de matrículas, uma nova grade que respeite a realidade dos estudantes que chegam à Letras… Mas que, principalmente, esteja presente no dia a dia de cada estudante para saber as demandas de cada habilitação. E é com um DA de todos que podemos nos organizar para poder conquistar as melhorias de que tanto precisamos em nossa faculdade.

Cultura e Lazer: o estudante quer seu espaço!
A Letras é famosa por sua pluralidade de ideias, produções e manifestações: temos músicos, poetas, artistas plásticos, esportistas, produtores culturais, editores… Cada vez mais, nossos colegas avançam em esforços de auto-organização para poder se manifestar na faculdade: temos saraus independentes puxados por estudantes, o Drummônios, nosso time de futebol, a proposta de algumas estudantes de conformar o time feminino, estudantes de graduação que organizam mesas de debates acadêmicos sozinhos… Achamos essas iniciativas essenciais; cada vez mais nosso espaço de expressão é tolhido na faculdade. Nossas festas foram proibidas, muito pouco fala-se sobre a produção literária de nossos alunos, o Drummônios se articula praticamente sozinho… A nossa chapa acha que essas iniciativas têm que ter todo o apoio político, financeiro ou organizacional do DA. Queremos que nosso Diretório Acadêmico ajude na construção de Saraus mensais na faculdade, acompanhe e apoie mais de perto o trabalho do Drummônios, impulsione a formação do time feminino… O estudante de Letras deve ocupar o espaço da faculdade para sua livre expressão e desenvolvimento, e achamos que o DA deve ser um grande ator nesse processo!

Damos um viva à diversidade na FALE!
Nossa faculdade foi palco, neste ano, de dois casos lamentáveis de agressão contra homossexuais: no primeiro semestre, numa festa promovida pelo DA-Letras, um casal de lésbicas foi alvo de insultos e agressões verbais por parte de uma pessoa que foi ao evento. Já no segundo semestre, um outro casal foi constrangido pela segurança da faculdade, a pedido da diretoria da Letras, por se beijarem em público dentro da FALE. Sabemos que casos de homofobia como esses acontecem o tempo todo.
Também sabemos que estudantes não raramente dentro e fora da Universidade são alvo de situações constrangedoras pelo simples fato de serem negros. O racismo, por mais que as elites e a mídia digam que está superado, ainda é sentido muito fortemente pelos negros do nosso país. Nosso curso reflete isso: apesar de haver uma lei federal determinando o ensino de literatura afro nas escolas de ensino fundamental e médio, nós, futuros professores, até hoje não temos disciplinas em nossa faculdade voltadas para a herança cultural do povo negro. 
Outra ideologia vastamente difundida na sociedade é o machismo. As mulheres são tratadas como objetos seja nos veículos de comunicação ou em situações bastante comuns nas universidades, como nos trotes machistas em que quase sempre estudantes são expostas a situações opressoras e humilhantes. O machismo se reproduz também na FALE: a nossa graduação é majoritariamente composta por mulheres, mas nossos professores são em sua maioria homens. Muitas de nossas alunas são mães e não têm uma assistência estudantil diferenciada que as permita conciliar seus estudos com a maternidade e por isso muitas abandonam o curso.
Precisamos de um DA que combata cotidianamente as opressões em nossa faculdade. Nós da chapa Ao Pé da Letras nos propomos a atuar no sentido de promover eventos e debates sobre os temas relativos às questões de gênero, raça e sexualidade. Apoiaremos iniciativas acadêmicas, culturais e políticas de combate ao preconceito e desenvolveremos campanhas em defesa dos direitos dos negros, mulheres e LGBTs.

A Educação no Brasil vai mal
Por que temos de estudar em salas lotadas? Por quer sofremos com falta de professores, ofertas de disciplinas ruins, um elevador que sempre estraga e um CAD que nunca fica pronto? A verdade é que falta investimento em nossa faculdade. Porém o problema não se restringe ao curso de Letras: todos sabemos que a educação no Brasil não é prioridade. Acompanhamos esse ano em nosso estado a heroica luta dos professores Estaduais em greve, reivindicando o simples cumprimento de uma lei nacional que determinava o piso salarial; greve esta que foi duramente reprimida pelo governador Anastasia, mas que, ainda assim, durou 112 dias, sendo a maior greve de professores da história de Minas. Mas por que não se investe em educação? Se olharmos os dados do orçamento da União de 2010, vemos que apenas 2,89% foram destinados à educação, enquanto 44,93% são destinados aos juros e amortização da dívida, além dos bilhões de reais de dinheiro público que são perdidos todos os anos em escândalos de corrupção. A Chapa Ao Pé da Letras acha necessário defender a educação como prioridade, e por isso escolhemos construir a campanha e o plebiscito nacional em defesa do investimento de 10% do PIB para a Educação Pública Já! A Educação não pode esperar!

Democracia e abertura para construir um novo DA Letras
Só é possível construir um movimento estudantil na Letras que represente e inclua os estudantes se tivermos democracia interna e abertura ao debate. 
Infelizmente, não foi o que vimos nesses últimos dois anos de gestão Travessia. Não podemos tomar as principais decisões em reuniões secretas e de portas fechadas. Não podemos decidir sozinhos para onde vai todo o dinheiro e não prestar contas aos estudantes! Para estar ao pé da Letras, nós defendemos:
- Que TODAS as reuniões sejam abertas e divulgadas, para que qualquer estudante possa participar e opinar no cotidiano do D.A.
- Gestão democrática e horizontal, na qual a divisão de cargos não determine nenhum poder maior. 
- Boletins periódicos (impressos ou virtuais) para criar um ambiente de comunicação e troca
- Conselho de representantes de cada habilitação, para fortalecer a representação estudantil
- Eleição aberta para nossos representantes nos órgãos colegiados para que qualquer um possa se candidatar e para que todos conheçam quem nos representa 
- Prestação de contas periódicas para que todo estudante saiba para onde vai o dinheiro
- Revisão do estatuto do D.A., por meio de uma assembleia estudantil. 

Enfim, somos uma chapa que defende abertura e democracia no nosso DA-Letras para conseguirmos as mudanças que defendemos e conquistarmos a FALE que queremos!

Estão ao Pé da Letras:
Aline Sobreira, Amanda Barbosa, Amanda Bruno, Amanda Pavani, Ana Beatriz Fonseca, Bruno Reis, Carolina Arantes, Cristiano Vieira, Daniela França Chagas, Daniel Dalsecco, Érico Colen, Fábio Castro, Francisco Danilo (Chicão), Franz Galvão, Gabriel Gil, Gabriel Prado, George Vallestero, Isadora Manna, Lais Alves, Lívia de Melo, Mara Silva, Mariah Mello, Melina Rocha, Moisés Borges, Paula Tamiris, Rayana Almeida, Rebeca Buarque, Ricardo Malagoli, Stela Ferreira, Tavos Mata Machado”

Essa é a versão mais recente. Uma mais afinada deve sair amanhã, ou antes dos debates de qualquer forma. Peço que vocês analisem nossas propostas, conversem com a gente e façam todas as perguntas que desejarem, e também que, por favor, divulguem pra todos os colegas letreros.

Eu disse que a chapa é apartidária, mas quero lembrar que nela tem pessoas pertencentes a partidos. Isso não significa que os interesses partidários serão em qualquer momento colocados acima dos interesses dos alunos da FALE e da UFMG em geral. Peço apoio e ajuda para que a representação dos alunos seja de fato representativa, o que quase nunca acontece, já que todo ano é o mesmo sofrimento para atingir o número mínimo de votos.

Não temos também a intenção de cortar quaisquer que sejam as práticas que foram acertadas da gestão atual, e não queremos animosidade. Só cuidar do D.A. e fazer com que ele volte a ser um lugar receptivo como já foi, sem puritanismo e sem julgamentos, aberto ao diálogo.

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Jane Eyre

novembro 5, 2011

Esse livro me escravizou por um mês. Comecei a ler Jane Eyre, de Charlotte Brontë, porque estava fazendo uma matéria (frustrante) sobre literatura feminina em inglês. Acabou que eu comecei a ler o livro e não consegui mais largar. Quando eu disse à Melissa que estava lendo Jane Eyre, ela me contou que esse livro é aparentemente a grande obra feminista da época, e no começo eu não tinha essa impressão. Só o que eu sabia era que sempre que eu tinha tempo livre, eu lia. Sacudindo no ônibus, quando tinha tempo livre no trabalho, às vezes até lendo à luz de velas tarde da noite, bem dramaticamente.

Vamos aos spoilers: Jane Eyre nos é apresentada no começo como uma órfã vivendo de favor com a tia rica e seus três filhos mimados e patéticos. Ela sofre bullying na mão do filho mais velho até revidar, bater nele até ele correr no melhor estilo Draco Malfoy (“ela está me mataaaaando!”). Acusada de ser irrascível e violenta, Jane é mandada pra uma escola, longe dos parentes, onde ela tem um começo difícil e faz poucas amizades, entre elas Helen Burns, que acaba morrendo tristemente de febre tifóide numa epidemia que deixa Jane intacta. Helen é uma personagem importante porque ela é que vai iniciar Jane em idéias de religião. À beira da morte, ela não demonstra medo, mas diz a Jane que está em paz, porque vai conhecer seu criador muito em breve.

Depois da morte de Helen, a narradora em primeira pessoa que é ninguém menos que a própria Jane explica como ali seria necessário dar um pulo na narrativa, porque depois da morte da amiga tudo que se seguiu foi a adaptação dela à escola, junto da descoberta de desvio de fundos pelo pároco que era responsável pela contabilidade. Jane estuda até se tornar a primeira aluna, e se torna professora aos dezesseis. Continua trabalhando na escola até os 18, quando sua mentora se casa e ela percebe que está livre para fazer o que quiser com sua vida. Desejosa de uma existência mais interessante do que a de um colégio interno pra meninas, Jane põe um anúncio no jornal procurando uma família onde pudesse ser governanta.

Quem responde é a Sra. Fairfax. É bonito ver a empolgação de Jane com a vida nova, temendo que essa Sra. Fairfax fosse tão perversa quanto sua tia. Ela aceita a proposta, e ao chegar em Thornfield Hall, descobre que a Sra. Fairfax não é apenas muito simpática, como também não é a dona da coisa toda. Quem é dono é o (delicioso) Sr. Rochester, que sempre fica longe, mas precisava de alguém pra educar uma menina que ele tinha adotado, Adele.

Bem, quando finalmente Rochester aparece na propriedade, ele e Jane se apaixonam. Mas aí começa a quebra de paradigma. Quem já leu pelo menos uma Jane Austen aprendeu mais ou menos o padrão de comportamento das pessoas da Inglaterra do século XVIII, e meio que já espera que certas coisas aconteçam. Pois é. Jane salva Rochester de um incêndio, o naquele momento eu tive certeza que ele já estava apaixonado por ela! Mas por que, logo em seguida, ele desaparece e volta com um mundo de gente rica como hóspedes, e fica flertando com uma menina, descaradamente, sem sequer olhar pra Jane?

Veja bem, se eu como leitora fiquei incomodada, imagine a personagem. Aí é que a história começa a virar de forma muito incomum pra literatura da época: chega uma cigana que deseja ver a sorte dos hóspedes de Rochester, separadamente. Por último, ela pede pra ver Jane, e depois de fazer algumas perguntas a Jane muito acertadas, inclusive se ela não nutria qualquer sentimento especial por seu mestre, Jane fica confusa, treme e disfarça, quando a cigana desmonta a fantasia… E era Rochester o tempo todo! Em nenhum livro da época, ou mesmo antes, você vê um homem se dar a tal trabalho. E a coisa não pára por aí. Tudo continua dando a entender que Rochester vai se casar com uma moça chamada Ingram, ele até mesmo chega a perguntar a Jane o que ela acha de sua noiva. Tudo isso ferve na cabeça da personagem, que então só tem 18 ou 19 anos, até que ela explode, declara o seu amor por ele e afirma que assim que ele se casar, ela irá embora da casa e ainda pede que Adele seja colocada numa escola, porque Ingram trata a menina muito mal.

Rochester ri e simplesmente revela que ele planejou todos os rumores de casamento para provocar ciúme em Jane.

Quer dizer, OI? Numa cena maravilhosa, ele revela todo o plano que ele arquitetou pra ver Jane se afetar com ele tanto quanto ele era constantemente afetado por ela, e a pede em casamento. Depois do choque, é claro, ela aceita, e a gente fica se sentindo muito bem de finalmente ver as coisas dando certo pra Jane. Em seguida, ele tenta comprar jóias e vestidos pra ela, ao que Jane se recusa, dizendo que não só preferia continuar com seus vestidos, como depois do casamento ainda gostaria de trabalhar como governanta de Adele.

Se eu contar toda a história eu vou pirar de escrever aqui, mas pelo menos até esse pedaço eu acho importante contar, primeiro porque todos os livros da época sempre terminam no pedido de casamento, enquanto aqui nós continuamos acompanhando uma Jane muito teimosa, com um desejo de independência completamente novo para qualquer leitor desse período. Quando um impedimento fatal para o casamento aparece, ela é forte a um ponto que nem eu seria, nessa sociedade nossa que, ainda que seja muito machista, é melhor do que na Inglaterra do século XVIII. Jane vai embora sozinha de Thornfield Hall, vai pra longe com suas últimas moedas, passa fome, desconforto e frio, dorme ao relento, e é salva por uma pequena família, os Rivers, aos quais ela se nega a dar seu nome verdadeiro e apenas pede emprego e uma chance de se sustentar.

Eu sinceramente, no lugar da Jane, teria ignorado completamente os impedimentos para o casamento. Teria ouvido quando Rochester implora que ela ignore umas meras leis dos homens pelo amor deles, que era real. Não consegui acreditar na teimosia dela, mas quando é revelado que um tio de Jane, residente em Madeira que mal sabia que ela existia, tinha deixado todo o seu dinheiro pra ela, não tem como não se chocar com como as coisas se encaixam. Não só ela herda vinte mil libras, como ela descobre que aquela família que a acolheu é também a família dela, primos de primeiro grau!

Charlotte Brontë expõe todas essas reviravoltas com uma linguagem brilhante, linda, e comovente. É difícil não se apaixonar por Jane Eyre, especialmente pra mim, que sinto que tenho tanto em comum com ela. O desejo constante de aprender, a falta de vaidade, mas principalmente, o valor maior da vida sendo a independência. Quando ela finalmente volta pra Rochester, – e aqui eu estou ocultando alguns fatos vitais, então não pense que estou resumindo o livro todo – ela volta como uma mulher educada, com seu próprio dinheiro e sem a necessidade de ser amante de ninguém. Ela é um indivíduo e não uma mera extensão de seu marido.

Jane Eyre é um livro que inverte tudo, e mesmo assim é romântico, emocionante e cativante. Eu me lembro de carregar ele no ônibus, e quando não conseguia mais ler por causa da tremedeira, ficar olhando pra capa com cara de apaixonada. Esse livro sem dúvida é um dos melhores que eu já li e me fez pensar em muita coisa.

LOL

Também assisti o filme, por curiosidade lançado esse ano. Eu acho engraçado assistir filme inglês, porque eles parecem ter mais ou menos o mesmo número de atores da Globo, então são sempre os mesmos atores fazendo papéis parecidos ou similares. Por exemplo, a atriz principal, Mia Wasikowska é a atriz principal do remake de Alice no País das Maravilhas do Tim Burton (que eu acho só mais ou menos bom), a prima dela é a mesma atriz que faz a Georgiana em Orgulho e Preconceito, etc, etc. O filme é legal, como a maioria das adaptações dos livros daquela época, ele é só ilustrativo e perde a força se você não leu o livro. A cena do Rochester fantasiado de cigana não existe, e nem é relevado no filme que Jane é prima de primeiro grau dos Rivers. Mas a essência do casal é capturada, ainda que não haja modo possível de representar as longuíssimas conversas entre Jane e Rochester, que criam toda a tensão romântica e fazem a gente gostar tanto de Rochester, por ser também um par romântico tão diferente dos que compartilham o gênero literário com ele.

Próximo livro a ser lido: Duna!

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Carta aos pedreiros-espírito de porco

outubro 28, 2011

Não pra todos os pedreiros que erguem casas e prédios. Mas pra todos aqueles pedreiros, às vezes almas torturadas escondidas dentro de um playboy bombado, que insistem em falar gracinhas no meio da rua pra qualquer pessoa portadora de vagina. Pra quem foi ensinado desde pequeno que a mulher gosta de ouvir “elogios” de estranhos. Pra quem acha bonito gritar coisas pra uma mulher de dentro de um carro.

Quando eu estava voltando pra BH com meu pai há duas semanas, eu perguntei pra ele o que ele achava desses homens que gritam na rua quando uma mulher está passando sozinha, ou que chamam uma desavisada de gostosa, não importa a idade, não importa o real fator gostosura, não importa nada. Bem, ele me respondeu: “quem faz isso não é homem, é moleque”.

Vamos pegar essa máxima de sabedoria do meu pai e aplicar na vida real. Eu comecei a ouvir essas “gracinhas” na rua desde os doze anos. Hoje quando me lembro disso confesso que me assusta ainda mais. Com doze anos eu mal tinha começado a me desenvolver. Ainda não tinha seios, ainda não tinha nada. Era uma criança. Hoje, quando eu dou aula pra uma menina de doze anos, percebo como elas são pequenas. Vou repetir, são crianças. Agora, imagine que já faz um bom tempo que crianças são chamadas indiscriminadamente de “gostosa”, “princesa”, “ah lá em casa”, etc. Você pede pra sua filha comprar um pão ali a dois quarteirões de distância e isso acontece. Eu queria dizer que é exagero, mas é real e eu sou só um exemplo disso.

Bem, estou prestes a completar 23 anos, então veja bem, já são mais de dez anos disso. Já faz mais de dez anos que, não importa aonde eu vá e o que eu esteja vestindo, se eu estiver na rua e for passar pela mesma calçada onde um homem – geralmente mais velho – estiver, vou ter que ouvir julgamentos gratuitos sobre a minha aparência e sobre como eu provavelmente sou na cama. Ouvi isso por sete anos inteiros antes mesmo de perder a virgindade. Muitas mulheres podem te contar uma história parecida.

Acho que ninguém ainda acredita sinceramente no mito de que as mulheres gostam desse tipo de tratamento. Eu nunca conheci nenhuma. E também não tem efeito nenhum sobre a auto estima. Se você está indo pra casa à noite depois de um bar, vai pro ponto de ônibus e os carros começam a passar, buzinando e gritando – repito, não importa a roupa – a sensação não é “nossa, como eu sou gostosa”. É de medo. Como é que eu não sei que aqueles palhaços não vão fazer alguma coisa comigo? Afinal, eu estou ali, completamente indefesa, não é?

Não quero falar dos mesmos fatores que a Lola falou no post dela sobre esse hábito horrível do espírito de porco pedreiro style, mas sobre como agir nesse tipo de situação. A atitude da mulher quase 100% das vezes é ignorar. E é isso mesmo que meu pai me disse que eu deveria fazer nessas situações. Mas veja bem. Já faz dez anos que eu faço isso. E não parou. Nem vai parar. Isso de “se dar ao respeito” não tem nada a ver com ficar em silêncio.

Oras, caros pedreiros-espírito de porco, se eu ficar calada todas as vezes que vocês gratuitamente avaliarem a minha aparência, como vocês vão saber que não só eu, mas ninguém aprecia o seu julgamento? Como o meu silêncio vai ser mais eficaz do que toda uma vida ouvindo que a gente gosta disso?

Pois bem. Como eu não posso e nem quero sempre parar para dar uma aula sobre direitos humanos pra todo pedreiro-espírito de porco que encontro – ou que me encontra, né – e como não recebo pra dar uma lição tão detalhada quanto as lições de inglês que dou diariamente, mantenho um tratamento de choque: mandar tomar no cu. Seja falando, seja com gesto. Algumas vezes, senhores pedreiros-espírito de porco, vocês me chamam de mal-educada. Ora, respondo às vezes (só quando tenho paciência), eu preciso de educação? Sou eu que estou incomodando gente na rua que só está passando? Bem, então acho que só respondi à sua má educação com má educação, não? Se você tivesse me deixado passar em paz e em segurança, todo mundo estaria feliz.

Então, veja bem, ninguém gosta disso. Você não afirma sua macheza me chamando, ou qualquer outra, de gostosa. Você só prova que tem dois neurônios com dificuldades de comunicação entre si. Seus colegas não vão te achar viado se você me deixar em paz. Afinal de contas, você não está trabalhando? Vê se eu fico chamando aluno meu de gostoso. Por que eu deveria ser demitida por justa causa caso faça isso e você toma uns tapinhas nas costas dos seus colegas?  Essa história está mal contada, não acha? Pois é.

O pacto que fica: você me respeita, eu te respeito. Falou?

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