O desodorante

Semana passada, por acidente, eu comprei o mesmo desodorante que a minha mãe usava.

Desde os meus 18 anos, eu sempre usei o mesmo desodorante: o verde, aerosol, da Rexona. Não tem nenhum motivo especial. Alguém por acaso passou por um longo processo pra escolher o que vai comprar pra não feder no suvaco? Pois é. Tem o bamboo e tem o aloe vera, tanto faz (eu prefiro o bamboo), mas se for verde, aerosol, Rexona, eu tô feliz e compro.

O preço subiu muito nos últimos anos. Lembro de pagar sete reais nele, o que eu já achava caro, quando eu passava o mês com 300. Há dois meses, eu parei de achar o MEU desodorante. Procurei no supermercado e nas duas farmácias, nada. Cometi o sacrilégio de comprar um aerosol, verde, da Dove. Era o que tinha.

Semana passada, eu fui na farmácia. Eu vi a linha de aerosois da Rexona, nenhum verde. Vocês vão me achar morta antes de eu comprar um Rexona rosa, fedendo doce o dia inteiro. Peguei o mais próximo: um com romã e qualquer outra coisa, paguei quatorze (!!!) reais, fui pra próxima farmácia procurar um remédio que não tinha na primeira.

Nela, ahá! O verde, aerosol, Rexona, por onze reais. O bamboo, inclusive! Engoli o choro, comprei o remédio pra dormir, vim pra casa.

Quando acabou o Dove (errado de saída, infelizmente), fui usar esse vermelho, aerosol, Rexona: meu suvaco ficou limpo, fresquinho, mas o cheiro me perturbou.

Não demorou pra eu ter um momento alta literatura francesa e perceber que minha mãe usava aquele desodorante.

Eu não vou refletir sobre permanência da memória, nem sobre uma interação cruel ou carinhosa que tenhamos tido enquanto eu sentia aquele cheiro.

A questão é que, acidentalmente, eu comprei o mesmo desodorante que a minha mãe usava, e que eu ainda sou capaz de lembrar disso quando o uso, todos os dias.

A gente tinha um pé de romã em casa.

Pombos em chamas

Ninguém mais tem energia pra discutir. Meio que na esteia da ferramenta de autocompletar, assim que um argumento entra nos nossos ouvidos, junto com ele vêm todos os outros que a gente escutou por associação. Quando alguém responde a “vidas negras importam” com “todas as vidas importam”, ou, pior ainda, com “vidas brancas importam”, geralmente eu e as pessoas que compartilham das minhas visões políticas param de escutar. Vou exercitar aqui o benefício da dúvida e extrapolar que isso é, amplamente, por cansaço e pela sensação de que se está entrando em uma conversa em que se já entrou dezenas de vezes. Um amigo meu chamou a esquerda brasileira de “pombro enxadrista” hoje, e agora estou concluindo que essa metáfora é extremamente útil.

A expressão, pra quem não conhece, se refere à máxima de que você não deve jogar xadrez com um pombo, porque ele só vai acabar cagando no tabuleiro, roubando as peças e achando que venceu.

Porém, enxergar debates sectaristas dentro dos meus colegas de visão política com a ideia do pombo enxadrista ajuda a ilustrar o seguinte sentimento: quando mencionamos valores ou ditames que nem são da esquerda, por exemplo, que a terra é redonda, que vacinas previnem grandes pandemias (cof cof), que a lei deve funcionar de maneira igual para todos, que a vida é mais importante que o dinheiro, com muita frequência alguém de camisa laranja diz rapidamente que, “se puder fazer um pouquinho o advogado do diabo…”… Nesse momento, na minha cabeça, eu já vejo aquela conversa como um tabuleiro de xadrez: ele vai falar que o benefício maior na verdade sempre ocorre sobre a opressão de outros / ele vai falar que leu na internet que vacinas na verdade dão autismo ou controlam as mentes ou os fetos da pepsi; eu vou, cheia de energia e boa vontade, dizer que a situação não é exatamente essa, vou falar do problema da confiabilidade de fontes; em seguida ele vai dizer que: se eu devo desconfiar de fontes, por que eu não desconfio das minhas? Logo, vou ouvir que a ciência é tão fé quanto religião. Vou ouvir que racismo é horrível, mas que nada justifica vandalismo porque o pai dele trabalhou muito a vida toda pra ele poder estudar e ter ido pra universidade.

Toda essa conversa se projeta, pra além de onde o olho enxerga, bem depois de onde Mufasa mostra pra Simba os limites de seu reino; em segundos, eu olho a pessoa nos olhos e desisto. Fecho a boca, arrumo o cabelo, vou reclamar no twitter. Eu olho praquele tabuleiro, e mesmo se enxergo a vitória (que seria no caso convencer a pessoa a reavaliar o jeito de pensar, pelo menos), decido que o exercício não merece o esforço, porque no final ele vai continuar achando que uma vidraça quebrada equivale a um homem tomar joelho no pescoço, uma criança tiro nas costas, uma vereadora uma rajada de balas. Aí, não tem conversa nenhuma.

Mas calma que se você reparar, eu peguei a afirmação desse meu amigo, de que a esquerda é um pombo enxadrista, e joguei você pra uma perspectiva em que a direita ou o brasileiro médio isentão é o pombo. Eu fiz isso por dois motivos: primeiro, porque a situação acima já aconteceu vezes demais (uma delas culminou com bater o copo vazio na mesa depois de virar a cerveja, levantar e ir pra casa, com “tá vendo, não aguenta conversar” resmungado às minhas costas); segundo, porque a sensação de superioridade intelectual faz muito parte das opiniões dos meus colegas de opinião política. O problema disso é que, como não existe uma esquerda, acabamos entrando nesse sistema de economia de energia em conversas com pessoas que essencialmente têm a mesma opinião da gente; vemos a conversa toda se descortinando, cansamos por antecipação, passamos raiva em silêncio e nós mesmos tiramos as peças da mesa.

Vale lembrar que eu não sou nenhum bastião do diálogo, muito pelo contrário. Nos últimos anos, a exaustão me fez ter exatamente esse comportamento que eu estou acusando agora. Pra ser sincera, eu só estou falando disso porque não consigo dormir e cansei de encarar o computador, a cabeça cheia, e não elaborar a respeito (e a gente sabe que sempre são vocês quatro lendo toda vez, né?).

O conceito da semana que fez a esquerda brasileira virar uma grande praça da sé de pombos com peões no bico foi o debate sobre quem podia fazer o quê com os ícones do movimento antifascista, que se espalha pelo mundo com mais força essa semana (excelente, por sinal). Se você é do passado, durante o domingo e essa segunda-feira, pessoas apoiando as revoltas contra violência policial passaram a usar ícones, principalmente a bandeira, associados ao antifascismo.

Vou fazer um corte rápido aqui e dizer que eu acho que essa manipulação de imagem é perigosa e esvaziante, mas não pelos motivos que eu vi principalmente nomeados.

As alterações às cores, à bandeira e aos dizerem dos antifa foram indiscriminados, e a princípio correram alegremente pelas redes. Essa disseminação foi rapidamente contrariada por pombos dizendo que quem faz essas alterações não tem consciência da história do antifascismo (SEGUE O FIO); que aquilo era pra despolitizar; que era pra levar a sério. Eu vou adiantar que não gosto dessa disseminação, mas não é por esses motivos.

De outro lado, os pombos que quase me fizeram mudar de ideia: desde quando alguém tem que ter lido pelo menos dez volumes de história/filosofia/política pra poder dizer que é contra qualquer forma de fascismo? Eu, hein. Outra: qual é o problema de incluir alguma afirmação junto do apoio ao antifascimo? Foi aí que ouvi o sino da representatividade: é importante se apresentar como minoria. E é mesmo. Além do mais, esse policiamento de símbolos é um dos motivos pelos quais a esquerda sempre acaba alienando quem simpatiza com ela – o que é totalmente verdade e se alinha com o cenário de desistir de conversar que eu mencionei ali em cima.

Pra expor meu desagrado com o “médico/antifascista” “virgem antifascista” “maconheiro antifascista”, vou remeter a um francês cuja filosofia eu usei bastante na minha tese de doutorado, então infelizmente vou puxar do academicismo, mas vamo comigo (ou fecha a janela e vai fazer outra coisa, não sou sua mãe).

Vamos partir do pressuposto que a bandeira antifascista, do jeito que ela explodiu no domingo à tarde (com as cores preto e vermelha, as setas, apenas os dizeres antifascistas) é um símbolo. Como símbolo, a gente vai supor que ele tem um significado original e que esse símbolo seja, pura e simplesmente, ser contra as práticas fascistas. O movimento é uma resistência a outro movimento que ele enxerga como um ataque à humanidade como um todo. Aqui entra a parte em que existe uma história, um contexto, mas nós vamos passar por cima dele nesse momento.

Quando um símbolo se replica muito rápido, alguns fatores devem ser considerados. Primeiro, um símbolo replicado muito rapidamente vai ser alterado, necessariamente, como parte do processo que temos neste século de estabelecer identidade. Eu me identifico como antifascista? Claro, mas eu sou muito mais que isso. Sou uma professora, sou uma pesquisadora, uma revisora, uma mulher, latina, etc. etc. Quando considero trazer mais uma identidade pra mim, é difícil não lembrar das outras identidades que eu já carrego. Isso não é um problema por si só; é um processo natural que todos passam pra entender quem são; precisamos nos diferenciar dos outros para entender quem nós somos.

Existem, contudo, duas características do símbolo que ganha status de meme neste século: a deturpação (a perda total de relação com o símbolo “original”) e a exaustão muito rápida. Sim, eu estou falando do simulacro como discutido pelo Jean Baudrillard. O simulacro seria uma cópia que se desprende de um “original”. Ele seria um fenômeno que resulta de a gente replicar um símbolo tantas vezes, de maneira tão frenética, que ele perde contato com o original que teria causado essas fórmulas. A replicação rápida e descontrolada gerou:

Aqui você tem elementos suficientes pra reconhecer a bandeira antifascista. Porém, as cores foram mudadas, o tema foi alterado, o conteúdo da mensagem foi alterado, com um toque de ironia. Esse ícone não conversa mais com a bandeira ou com qualquer valor antifascista: ele apenas conversa com outros memes que comentam sobre a presença massiva dessa imagem nas mídias. A replicação leva às alterações pra processar identificação, que por sua vez aumentam de tal ponto que as imagens alteradas viram um fato social por si só; por fim, comenta-se a presença da imagem, fazendo piada com ela, e as ideias associadas à bandeira, quando não se perdem, são subvertidas ou esquecidas. O simulacro é a “cópia” que só dialoga com outras cópias, retendo alguma lembrança do “original”, mas não conversando mais com ele.

Memetizar esse ícone, então, gera esgotamento e alienação. A gente fabrica mais e mais pombos mantendo esse círculo de explosão, identificação e memetização, dia após o outro, símbolo atrás de símbolo. Esse é o motivo principal pra eu ter reagido mal ao estágio de identificação das pessoas com o símbolo.

Uma observação: quando eu digo ‘original’, vale lembrar que buscar um Original (além da cerveja) é total perda de tempo. Eu escolhi um original que convencionamos para essa discussão específica, que é a memetização de domingo até hoje, noite de quarta para quinta. Porém, pesquisadores vão te dizer que originalmente as cores eram outras, as ideias eram outras, na verdade ninguém concorda, há muito debate, etc. Tudo isso é verdade. É aí que reside, eu acho, uma dificuldade de desmontar essa grande praça da sé de bandeiras coloridas: na esquerda, estamos enxadrezando atrás de um original.

Olha, é o seguinte, nós não vamos achar. Porque isso não existe.

AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA

Então o que fazer?

A resposta curta é: nem ideia.

A longa envolve duas coisas:

  1. Desconfiar dos nossos processos de identificação. Para participar de um coletivo, nós vamos precisar colocar algumas particularidades de lado. Isso não quer dizer que, ao protestar que o fascismo é ruim, eu deixei de ser mulher, hetero, cis, latina, professora, o caralho. Quer dizer que, nesse momento, eu sou antifascista. Minhas outras identidades estão ali, que nem emoções em Divertidamente, e vão me influenciar. Mas isso não é sobre elas.
  2. Desenvolver, com muito respirar fundo e conversar, concensos dos nossos “originais”. Evitar que um símbolo se esgote envolve não necessariamente parcimônia, mas um uso consciente de como símbolos funcionam. O esvaziamento de símbolos por memes é uma estratégia muito funcional da direita, muito efetiva, mas geralmente, quando o terremoto de um simulacro passa, fica muito transparente que ele não significava nada. É mais interessante endossar símbolos que sejam mais duradouros, mas maleáveis.

Vou tentar dormir de novo.

This is the bad place

Quem ainda escreve blog? É um formato tão arcaico. Meu primeiro blog foi sobre teorias da série Harry Potter, feito num template do Terra. Mesmo tendo passado uns 15 anos desde a primeira vez em que eu postei em um blog, eu ainda entendo o apelo – de escrever, não de ler.

Com a dominação da maioria dos blogs pela maldição do marketing de conteúdo, uma vez que você aprende onde eles comandam que você use determinada palavra-chave, onde você deve escrever algo para fisgar o leitor, e onde realmente vai estar a informação ou a opinião – quando houver uma –, a graça dos blogs se esvaziou. Ainda existe, porém, uma graça em escrever algo que não busque cliques e que siga minimamente o caos que habita qualquer mente durante essa época de isolamento devido à quarentena.

Antes de abrir a janela pra escrever isso aqui, eu reli meus dois últimos posts. O último era sobre a vida que eu tinha consolidado na Irlanda – e agora a maluca que dança e estuda na UL deixou de existir. Se eu tivesse apostado, não acho que eu acertaria a quantidade de coisas ruins que aconteceram nesse curto período – um ano e meio –, comigo, com todo mundo que eu conheço, com o planeta, com o Brasil.

Eu nunca, nunca mesmo, vou me tornar uma pessoa que fala do Brasil com a amargura de quem enche a boca pra falar que nada aqui funciona, ou que aqui só tem ladrão, gente querendo trapacear, ou que o jeito mesmo é ir para o exterior. Quando você é parte do problema – quando você trapaceia, corrompe e mente –, o problema vai com você independentemente do país para onde você for. Porém, uma coisa que acontece quando se assenta na sua cabeça a informação de que esse mundo, esse momento, é decididamente um dos piores possíveis é: será que se eu tivesse tomado outras escolhas na minha vida, eu poderia ter feito algo ao longo dos anos que evitasse que metade dos meus conterrâneos assumisse abertamente apoiar estruturas de estado fascistas?

Fica difícil não imaginar se eu tivesse, como quase fiz, escolhido estudar Relações Internacionais ao invés de Letras. Sempre imaginei que, continuando em São Paulo, eu teria continuado iludida por mitologias como a meritocracia, como a propriedade privada, como o preto no branco. Hoje, com trinta e um anos, conheço tanta gente em São Paulo – ex-colegas de curso, inclusive – que não se tornou um bosta só porque continuou por lá. Talvez, eu tivesse me tornado tão esquerdopata quanto me tornei vindo pra Minas e fazendo Letras, mas talvez o treinamento de um curso diferente tivesse me aparelhado pra causar alguma mudança mais concreta na esfera política. Vai saber? Talvez eu tivesse me filiado a um partido, participado de congressos, militado por causas que eu acredito, e talvez houvesse menos fascistas declarados hoje.

Fascistas declarados esses que, sinceramente, tiram a vontade de viver de mim, da Amanda que de fato existe, que estudou Letras, inglês, literatura, ficção científica, e saiu disso tudo com uma contratação suspensa, nenhuma força de brigar por política e porra, quase nenhuma vontade de levantar da cama, que dirá fazer algo pra melhorar o país.

Apesar de ter estudado utopias e distopias, e entendido a importância de continuar com esperança, de se esforçar mesmo, quando não há nenhuma indicação de que isso valeria a pena, eu não consigo. Eu não vejo motivo pra olhar pro futuro com alguma nesga de esperança. Há vários meses apenas temos notícias ruins atrás de notícias ruins; qualquer limite da civilidade, do caráter, do senso de justiça já foi descartado.

Parei de escrever isso e fui, sei lá, fazer carinho em um gato enquanto pensava em porquê resisto tanto a participar de discussões online. Evidentemente, não é por um motivo só. Se é um assunto do qual eu entendo, dos dois um: ou eu estou sendo arrogante/academicista, ou eu não li certo alguma obra ligada ao tema. Se eu falo com raiva – e qualquer portador de bom senso que tenha restado hoje tem todo o direito, e quase dever de ter raiva – perco a razão por me expressar de forma emocional demais. Outra coisa que tenho medo é de cometer erros por falta de conhecimentos; a ideia de falar algo em que alguém encontre algum buraco me paraliza ou me dá preguiça de participar da discussão que virá disso. Essa parte pode ser porque eu acabei de terminar um doutorado que foi essencialmente isso, várias e várias vezes. Outro motivo é: não é mais possível começar qualquer conversa partindo do pressuposto que o meu interlocutor estará interessado no bem comum. Falar que um sistema unificado, público, universal de saúde, bem estruturado, é absolutamente necessário para evitar que pessoas morram só por ser pobres não é mais algo óbvio. Agora, talvez o pobre devesse ter se esforçado mais para ter mais dinheiro e, portanto, melhor tratamento. Agora, talvez o pobre consiga mais dinheiro vendendo um órgão (!!!). Agora, o pobre é um escorado que só absorve dinheiro do Estado e não contribui com nada.

Como é possível conversar, quando não se compartilha nenhum preceito de vida, de valor do coletivo? Pra além da conversa: como mudar uma estrutura à revelia do egoísmo das pessoas? A minha vizinha sabe, preto no branco, que ela não pode sair de casa pra passear. Mesmo assim, ela passeia. Ela sabe dos casos de covid, inclusive a dois quarteirões daqui. Ela ativamente escolhe que o conforto dela é mais importante que a vida de todo mundo a um raio de duas ou três pessoas de si. Ao falar que o auxílio emergencial é uma esmola, a plenos pulmões, na frente do prédio, ela ignora as pessoas que moram na favela a um quarteirão daqui, que não têm espaço para se isolar, nem trabalho para pegar. Essa queda tão brusca em relação ao egoísmo me quebra as pernas; eu não vejo nem saída e, pior, não vejo motivo pra procurar uma saída.

Aí eu continuo sobrevivendo, empurrando com a barriga os dias, sem sair para nada, sem me exercitar, sem ver meus amigos, sem trabalhar, sem seguir com a minha vida, praticando o bom senso que de repente é altruísmo autodestrutivo; minha saúde física e mental pioram, enquanto eu espero alguma coisa mudar, sem acreditar que algo possa mudar. O presidente é um avatar do pior do que a humanidade pode ser, pior do que eu tinha imaginado que a gente poderia ser. A gente não merece melhorias.

Felizmente, não existe meritocracia. Então eu espero.

Usando duas camadas

Fiz trinta anos quarta-feira passada. Ao contrário de quando fiz vinte, essa virada de década veio com uma leva de questionamentos sobre praticamente todas as minhas escolhas. Pra não ofender quem realmente já passou da metade da expectativa de vida, não vou chamar isso de crise de meia idade, primeiro porque tomara que não seja, segundo porque sempre que algum jovem de 23 anos fala isso eu tenho vontade de quebrar os dentes da pessoa – então deve ser assim que gente de quarenta ou mais se sente.

Eu fui pra uma conferência sobre o bicentário de Frankenstein, da Mary Shelley, na semana anterior, em Edimburgo. Apesar de a conferência ser interessante e a cidade ser linda, não dá pra dizer que foi uma viagem feliz. Eu peregrinei por 40 minutos no frio procurando um restaurante pra comer – todos estavam lotados, todos MESMO. Depois de apresentar meu artigo, feito alguns amigos, com gente chamando minha análise de excelente até, eu estava no ônibus, voltando pro hotel, quando soube que o cachorro da minha mãe, de 16 anos, tinha morrido. Dois dias antes, literalmente minutos depois de escrever pra um amigo que eu estava “de excelente humor”, fiquei sabendo que uma das crianças da rua onde eu cresci tinha morrido de câncer, depois de já ter vivido a dureza de ser gay filho de evangélicos. De cereja no bolo, um dos meus amigos aqui em Limerick tinha dado a entender que iam fazer uma comemoração do aniversário de outro amigo naquela noite. Eu sentei na minha cama no hotel, comendo um sanduíche de supermercado, e assisti uma partida de rugby, Irlanda versus Estados Unidos.

A certa altura, eu comemorei. Parei de mastigar, me olhei no espelho. Eu tinha acabado de comemorar um lance da Irlanda. Não só eu tinha entendido o que tinha acontecido na partida, como eu estava feliz com a vantagem do “meu país”.

Uai. Eu estou aqui tem três meses e meio, só. Estou aqui para pesquisar e escrever, é claro, então a ideia de que eu formei uma vida em Limerick, com rotina, lugares favoritos de ir, programas repetitivos com os mesmos amigos que me dão alegria… Bom, eu não percebi isso acontecendo. Eu não me toquei que a aula de quinta-feira, o Mother Macs no sábado pra depois ir “dançar” no Costello’s (onde o dono nos conhece!), comer kebab bêbado, virar os olhos com os meninos discutindo detalhes absurdos de História, que tudo isso sou eu agora. Geralmente eu fico tão feliz olhando pra vida que eu construí em BH que nunca me passou pela cabeça que eu era capaz de construir outra vida, que também é boa.

Que ideia revolucionária, né? O mundo não acaba quando você precisa sair do país.

Acho que é parcialmente por isso que as lembranças da vida no Brasil parecem ter sido vividas por outra pessoa quando eu lembro delas. Foi agosto que eu enchi o apartamento de amigos. Eu lembro do pessoal chegando, do namorado fazendo comida, de sentar no chão usando só uma camada de roupa (que absurdo, uma camada!), de jogar Dead Cells, de debater se o Monstronauro ia ser eleito ou não (ele foi). Lembro que a gente discutiu memes velhos – certas pessoas nunca tinham assistido o menino do Halo 3 Halo 3 Halo 3 – e de apertar meus gatinhos. Mas não parece que fui eu, essa pessoa aqui embaixo de dois edredons esperando a lasanha congelada ficar pronta, que vivi aquilo. Não parece que eu sou a mesma pessoa; e apesar de poder falar com todo mundo na internet, ainda parece que a distância literal funciona como um véu isolando a Amanda que estuda na UL e dança no sábado à noite da Amanda que estuda na UFMG e que não fica em pé num rolê nem por decreto.

Quando o avião pousou em Dublin na segunda passada, com o baque típico do piloto da RyanAir que não faz nenhuma questão de ser suave, a porta se abriu e bateu aquele vento terrível, irlandês, constante, quando eu pisei no chão. Aqui não dá pra usar uma camada só; por adaptada que eu esteja, eu sempre preciso de pelo menos uma, mas às vezes duas camadas extras. Quando eu voltei pra Irlanda, eu me senti em casa, de uma maneira que eu não achei que fosse capaz. Voltando pro Brasil, vou ficar triste demais de deixar essa segunda camada pra trás.

O mundo não é uma distopia

Uma das lições que eu aprendi nessa década dos 2010s, já consigo dizer, é admitir os privilégios que possibilitaram meus sucessos. Eu saí de uma família pobre (outro dia minha mãe contou no telefone sobre dormir em colchões de palha com a minha vó e a irmã dela), mas eu também fui educada numa família nuclear, em que pai e mãe trabalhavam porque minha avó, aposentada, podia ficar comigo. Eu sofri bastante bullying na escola. As crianças me chamavam de lésbica (que não é um xingamento, mas sabemos que muita gente usa como se fosse), não tinham interesse em falar comigo porque eu não tinha carteirinha do clube, tevê a cabo, computador – mas eu estudava em uma escola particular, ou seja, não fiquei sem aula de física, de geografia, de português por falta de professor. Não deixei de ter material didático porque o estado não mandou a verba, muito pelo contrário; eu tinha tanto material didático que era uma piada corrente chamar a coleção extra de “intocáveis” porque ninguém fazia os exercícios deles. Maluco imaginar que a gente ria de ter material demais.

Para todos os propósitos, no Brasil eu também sou branca, então essa é outra marimba que eu nunca precisei segurar. Os tratamentos diferentes por cor de pele, ou de olhos, só acontecem comigo quando eu saio daí e, mesmo assim, é raro. Além disso, e apesar das apostas dos meus colegas de escola, até hoje tudo indica que eu sou heterossexual, então todos os livros, todas as séries, novelas, filmes ad infinitum mostravam relacionamentos com os quais eu conseguia me identificar. É claro, eu sou mulher, e essa diferença, se fosse pra escolher uma, é que mais me marcou como outro na minha experiência até hoje. Nesses meses na Irlanda, eu também me enxergo melhor como latina. Os meus privilégios, todavia, só se acumularam. Hoje eu estou na segunda metade de um doutorado que está indo surpreendentemente bem – quantas pessoas respondem felizes quando alguém pergunta pra elas “como vai a pós?”?

Agora que eu estou no caminho de me consolidar como pesquisadora dos Estudos Utópicos, tenho aprendido bastante coisa que desloca algumas certezas. Estudar utopias é muito associado a ser idealista, ou a buscar cenários impossíveis; eu já li dois capítulos da Lucy Sargisson, que soa meio de saco cheio dessa história no texto dela, falando que “perfeição” nunca fez parte de ideia de Utopia como gênero. Ela fala que até mesmo o texto fundador, do Morus, traz defeitos propositais e trechos auto-conscientes e irônicos. Nos anos 1990, outro pesquisador da minha área, o Lyman Tower Sargent, chamou os utopismos de “sonho social”, enquanto a Ruth Levitas chama de “expressão do desejo por uma forma melhor de viver”, mas ela acrescenta que esse sonho social, esse desejo por melhorar a vida das pessoas de forma coletiva, como espécie, precisa vir junto de uma chamada pra ação, ou a utopia acaba se transformando em nada mais que um “modo de viver em meio à alienação”. Outro cara, o Fredric Jameson, cantou essa pedra várias vezes, falando que é impossível imaginar um mundo totalmente fora desse em que a gente habita, sem mencionar a máxima dele, de que hoje em dia “é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo”.

Ninguém nega que é impossível chegar a um modelo universal e estático, que faça todos felizes ao mesmo tempo da mesma forma sem ser totalitário. Os utópicos não divergem dos anti-utópicos porque querem bater a cabeça na parede e imaginar mundos melhores, mas porque pensadores anti-utópicos acreditam que a natureza humana é o que nos impede. O Karl Popper, por exemplo, acredita que, como espécie, nós queremos paz, mas adoramos uma porradaria; nós queremos felicidade, mas não queremos o tédio que ela traz; pra ele, nós temos o conflito dentro de si, a desigualdade dentro de si, e por isso a utopia não é só uma perda de tempo, mas também perigosa. Os utópicos divergem nesse valor básico dos anti-utópicos: mesmo sabendo que a utopia sempre vai estar no horizonte, logo ali, fora do alcance, isso não quer dizer que o trajeto para buscar melhorias utópicas não seja benéfico.

Acreditar que todo mundo, independentemente de raça, idade, classe social ou gênero, merece acesso a hospitais e tratamentos de saúde é um dos motivos que a minha mãe, diagnosticada com câncer de mama em 2016, recebe tratamento de graça do governo. Acreditar que todo mundo merece acesso à educação em todos os níveis é um dos motivos que eu fui a primeira da minha família a chegar a uma universidade pública, um dos motivos pra eu ter concluído mestrado e estar no doutorado. Acreditar que todas as pessoas, depois de anos de serviço, devem receber um valor do governo para viverem a velhice com tranquilidade, é um dos motivos pro meu pai estar se aposentando em breve.

O impulso utópico começa no impossível, é claro. As faces da utopia, muitas vezes, trazem os projetos terminados; a gente vê o Estado funcionando, a gente vê a pobreza erradicada, a gente vê as violências de gênero erradicadas, e isso dificulta imaginar como que teria sido o processo de construção de um mundo assim. Mas, como meu orientador fala exaustativamente, a utopia não é uma planta pra ser seguida, mas um método pra imaginar caminhos, pra sonhar socialmente.

Parece que a gente vive em uma distopia hoje em dia, parece demais. Essa ideia está errada não só porque não entra na definição do Lyman Tower Sargent (“uma sociedade não existente descrita em detalhe considerável e normalmente localizada em tempo e espaço que autor desejou que fosse vista por um leitor contemporâneo como consideravelmente pior do que a sociedade na qual o leitor viveu”), mas porque o presente, por difícil e por assustador, não define o futuro e não define as nossas ações. Além do mais, para uma observadora que existisse duzentos anos atrás, esse mundo nosso ainda poderia ser maravilhoso – a realidade não é sonho social, nem pesadelo social. A realidade é um conjunto de ferramentas que nós temos.

Agora, isso são comentários de alguém se descobrindo utópica, talvez. Nós temos impulsos horríveis dentro de nós, mas por algum motivo, nós tendemos a chamar só os impulsos horríveis de naturais. Por que é natural causar violência, mas não é natural sonhar socialmente? Por que argumentar que a desigualdade é natural, quando grupos buscaram e conquistaram enormes feitos a favor da igualdade? A gente, francamente, perde muito tempo se preocupando com o que é e com o que não é natural e isso nos distrai de pegar todas as nossas ferramentas, os nossos privilégios e os nossos traumas e opressões, pra imaginar mundos melhores – pra construir mundos melhores.

 

(alguns dos autores que eu mencionei aqui eu tenho PDFs, mas todos em inglês. Se quiser, é só me pedir e passar seu email, porque outro valor utópico meu é que todo mundo merece livre acesso ao conhecimento.)

Como Nossos Pais

Tem uma lista de músicas no meu celular que eu batizei de “viagem emocional”. Desde que cheguei na Irlanda, em agosto, eu evito escutar. Conforme o segundo turno das eleições no Brasil se aproxima, evitei ainda mais. Finalmente, depois de comprar água pra semana e um sanduíche no supermercado aqui do lado, deixei tocar “O bêbado e o equilibrista” e, mais importante aqui, “Como nossos pais”, na voz da Elis Regina.

A geração dos meus pais, nascida nos anos 60, foi alfabetizada e escolarizada durante a ditadura militar no Brasil. Quando eu tinha uns doze anos, eu descobri um livro antigo da minha mãe, da disciplina absurda de “Educação Moral e Cívica”, e fiquei mais chocada ainda com o capítulo que falava da “Revolução” de 64, e não do golpe militar, como hoje é conhecido (de forma certa).

Pra minha geração, criada com disciplinas como História, Geografia, estudos sociais, até mesmo literatura, a inércia das pessoas de 45 anos ou mais parece inaceitável, e muita gente compra brigas e discussões sobre política com os parentes. O que a gente não lembra é que nós de 20 e 30 anos tivemos uma educação muito mais variada do que eles, independentemente da qualidade. Enquanto eu tive professores tanto que defendiam o capitalismo como o socialismo, a geração antes da nossa nem votar pra presidente podia aos 18 anos.

Mas tem uma coisa que essa geração dos nossos pais entende, que é a música.

Os shows de calouros, os programas de rádios; algo que floresceu mesmo naquela época, mesmo com a censura, foi a música. Eu mesma fui criada ouvindo competição de calouros no Raul Gil, com a minha vó e a minha mãe na sala. Indiscutivelmente, a música que se escolhia para demonstrar capacidade vocal era, claro, “Como nossos pais”.

Não quero lhe falar, meu grande amor / Das coisas que aprendi nos livros
Quero lhe contar como eu vivi / E tudo que aconteceu comigo

Outra coisa que a minha geração faz é usar dos anos de escola, desse privilégio que a gente teve, pra tentar convencer a geração anterior de que a gente sabe do que está falando. Então, aos meus pais, aos amigos dos meus pais, a todo mundo que pensa que o Bolsonaro pode significar mudança, não me escuta porque eu estudei História, Geografia, o cacete: me escuta quando eu te falo da minha vida e da dos meus amigos.

Este ano, encontrei um amigo no centro porque estava vendendo um livro pra ele. Despedimos. Eu já estava em casa quando, horas depois, fiquei sabendo que ele tinha sido perseguido na rua por um grupo de homens que queriam matá-lo. Por quê? Porque ele é um homem gay.

Este ano, uma professora universitária recebeu inúmeras ameaças de morte, porque ela tem opiniões políticas de esquerda, assim como eu, assim como meus amigos mais próximos, assim como meu namorado. Este ano, uma amiga minha, adulta, honesta, tem medo de combinar de encontrar o pessoal nos bares, porque tem medo de acontecer com eles o que aconteceu com esse amigo do parágrafo anterior.

O que isso tem a ver com o Bolsonaro, você pode me perguntar. Desde 2012, quando ele começou a ficar mais famoso, ele já falou que pessoas negras não servem nem pra procriar. Já falou para uma colega deputada que ela não merece ser estuprada. Já falou que é a favor de tortura e que não se importa com a morte de alguns inocentes no caminho. Quando um líder fala essas coisas, a população entende, com razão, que ela pode cometer as mesmas agressões. Se é pra falar de mim, vamos lá: você, lendo esse texto, acha que eu, o meu namorado, os meus amigos, os meus colegas de curso, de trabalho, merecemos ser expulsos do país ou mortos? Eu duvido, porque, no dia a dia, nós não temos problemas. Eu pago contas, eu cumpro compromissos, eu voto.

Por isso, cuidado meu bem, / Há perigo na esquina
Eles venceram, e o sinal está fechado pra nós / Que somos jovens

Quando a Elis (ou o Belchior) falam aqui do perigo na esquina, eles não estão falando do perigo de assalto, e sim do perigo do militar vigiando qualquer atividade suspeita. Esse é um assunto sobre o qual eu queria estar errada – se eu estiver errada, NOSSA, que alegria que vai ser! –, mas esse perigo na esquina não é o rapaz que te rouba um celular; é o oficial, pago e mantido pelo Estado, que pode te prender ou te torturar se resolver que o bandido é você. Quando a gente entrega o poder assim, todo mundo é bandido. O sinal fechado pra jovens é pra gente, como eu, que protesta na rua (e vai continuar protestando), que já tomou gás lacrimogênio, que tentou ocupar o espaço público. Quando você vota no Bolsonaro ou quando você acredita que militares são bons governantes, sou eu, a geração que vocês criaram, que vocês estão jogando na fogueira.

Para abraçar seu irmão e beijar sua menina na rua
É que se fez o seu braço, o seu lábio, e a sua voz

Lembra quando beijo entre gays e lésbicas era um absurdo? Lembra quando um monte de coisa era absurda e depois a gente tirou cinco minutos pra pensar e percebeu que não tinha nada demais? Nem todo mundo acha isso, e muitos desses são violentos.

Nossos ídolos ainda são os mesmos / E as aparências não enganam, não

Agora, eu entendo ter medo do crime. Eu entendo sentir que você não tem controle das coisas. O jeito como o Bolsonaro fala dá a impressão de que a gente precisa retornar a um passado mais firme, em que as coisas mudavam mais devagar. O apelo dele é pras memórias bonitas daquele passado – só que aquele passado matou gente, tirou poder de decisão das suas mãos; os cantores que você gosta tinham que dar quinze voltas pra publicar uma música. Música e arte em geral podem falar de coisas diferentes do que parece. “Como nossos pais” parece que é sobre a gente virar adulto e cometer os mesmos erros dos pais que nos criaram, mas não é bem assim.

Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo que fizemos
Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais

Por que, afinal de contas, a gente repete erros do passado? Porque a gente não é honesto consigo mesmo quando olha pra trás. De novo, falam que gente de esquerda é monstro, inventam que a gente quer destruir o país. De novo, perseguem, batem, até matam quem não vive de acordo com uma moral inventada. Se a gente ignora os crimes da ditadura militar no Brasil, a gente não aprende. Se não aprende, não faz melhor no futuro. Eu cometo os erros que você cometeu que seus pais cometeram que seus avós cometeram. A gente fica pra sempre preso nesse ciclo de negação, só sobrevivendo e eternamente batendo a cabeça na parede. Mas

O novo sempre vem.

Pasta de dente

Eu trouxe na mala a pasta de dente que eu tinha começado a usar no Brasil. Economizei dois euros trazendo pra cá o tubo, meio usado. Eu nunca fui dessas pessoas que espreme o tubo de pasta de dente até o talo; a minha impaciência me faz simplesmente abrir um novo quando arrancar o produto começa a dar trabalho. Bem, o caso é que eu fui usando, usando, e, por uma boa semana, eu escovei os dentes só com algumas raspinhas daquela pasta de dente.

Assim como eu enrolei pra jogar o tubo fora e comprar outra, eu também enrolei pra me perguntar porque tinha mudado de comportamento com relação aos meus gastos com higiene dental. Eu tenho um orçamento confortável pra viver aqui na Irlanda, sem esbanjar nem passar fome, então por que diabos eu demorei tanto tempo pra comprar uma pasta nova? Acordando de ressaca num domingo, me dei conta que eu não queria jogar ela fora porque a embalagem tinha o rótulo todo em português.

Xampu, condicionador, sabonete, papel higiênico, desinfetante, todas as outras coisas, todinhas todinhas, eu comprei novas logo que eu cheguei. A pasta de dente, não; estava ali, firme e forte, “creme dental”, “dentes limpos e saudáveis”, espremida de uma forma quase humilhante e rodeada de shampoos, conditioners e razor blades. Depois de perceber que eu estava com medo de jogar aquilo fora porque estava com medo de metaforicamente me desfazer do meu laço com o Brasil, aí eu já não podia mais enrolar, porque afinal de contas eu sou um personagem pós-moderno ou uma pessoa? Eu, hein.

 

Dito isso, eu sinto saudade de conversar em português.

Caí numa pegadinha da sociedade de consumo, né? Joguei minha identificação nacional num produto que se compra e vende, ou seja, já posso rasgar minha dissertação e dançar em volta da fogueira, já que o isolamento térmico do meu quarto é uma merda.

Mesmo assim, eu sinto saudade do Brasil, todos os dias.

Quatro anos depois

Eu redescobri o meu próprio blog graças à página da Pat Cadigan. Ela é uma das escritoras que eu estudo no meu projeto de doutorado, e ontem eu a conheci numa convenção de ficção científica irlandesa.

Toda vez que encontro pessoalmente alguém que é um ídolo pessoal ou uma celebridade, eu perco toda a minha capacidade de elaborar linguagem, de formar pensamentos complexos – de forma geral, eu fico bastante idiota. Não ia ser diferente com essa escritora. Ela ganhou prêmios de ficção científica, ela trabalhou e conheceu pessoas incríveis, sendo ela própria uma pessoa incrível, e ela estava bem na minha frente.

É difícil de elaborar a estranheza que é enxergar aquela autora como uma pessoa complexa: engraçada, meio doida, desgraçada da cabeça (hoje em dia, quem não é pelo menos um pouco desgraçado da cabeça?). Ver a Cadigan fazendo piada sobre o câncer terminal dela, sobre trabalhar escrevendo cartões para a Hallmark, ou sobre quando encontrou o ídolo dela trabalhando numa WorldCon nos anos 70… Os personagens dela ficavam flutuando atrás dessa criatura de carne e osso, que tem a mesma doença da minha mãe, falando sobre como já estava na segunda piña colada às duas da tarde.

De qualquer forma, foi uma coisa que aconteceu, mas agora que a euforia passou, eu encontrei esse blog, quis comentar algo que esqueci de falar pessoalmente, e o wordpress me fez logar na minha conta antiga. O curioso é que eu meio que não queria, justamente por saber que essa página estaria aqui e porque eu tenho horror de ler coisas velhas escritas por mim. Eu sei que isso é uma ironia, ou uma subversão, depende de qual termo chato dos estudos literários você quiser usar, já que eu escrevi diário dos 9 aos 19 anos de idade e, afinal, se isso me incomodasse tanto, eu teria excluído a página, não é? Eu não gosto de apagar textos, mas também estava um pouco ansiosa de rever isso aqui.

O último texto, de 2014, cantava a alegria de ter entrado no mestrado e construir a minha própria rotina em casa. Eu fiquei repassando essa voz da Amanda de 2014, de alguém cheia de esperança no futuro e satisfeita com a vida que tinha construído pra si mesma, e percebi que isso de fato não mudou. Eu acabei o mestrado, entrei no doutorado, estou no terceiro ano dele, agora na Irlanda, porque consegui uma bolsa de doutorado-sanduíche da CNPq. Fico aqui até janeiro. Ontem completei dois meses no país.

Eu sinto saudade da minha vida no Brasil todos os dias, e às vezes me sinto meio presa aqui. Argumento que minha vida em BH é feita de escolhas minhas, dos amigos que eu cultivei ao longo dos anos, que as conquistas acadêmicas (velho, teve muita conquista acadêmica nos últimos dois anos, mais do que eu imaginei) eram frutos de escolhas e tal. Uai, e por acaso vir pra cá não foi uma escolha também? Eu, hein.

Com o Brasil sambando na beira do abismo da ignorância política como está, eu sinceramente não sei o que fazer. Essa, sim, me é uma sensação familiar e que eu aprendi a usar na vida acadêmica: eu estou perdida e desorientada a maior parte do tempo.

Segue o baile, então.

(voltei pra cá, pelo visto.)

I’m only happy when it rains

Quem lê blog, ultimamente, está sempre atrás dos problemas, dos questionamentos, dos sofrimentos e, principalmente, das injustiças. Eu mesma leio uma quantidade de posts sobre desigualdade de raça, gênero, idade, classe social… Compartilho, discuto e tudo o mais. Num momento como esse, é realmente bom lembrar que eu nunca escrevi esse blog muito pra outra pessoa além de mim mesma, e se é pra falar sozinha, eu não preciso ter medo de público, né?

Vou mandar a real aqui agora: minha vida está bem boa nesse momento.

O ano passado foi bastante ruim, uma dureza. Teve época em que eu trabalhava de oito às dezoito, pegava trânsito pra ir e voltar e depois ainda ia: estudar para a seleção do mestrado / traduzir / ir para a academia / assistir matéria de ouvinte na faculdade, dependendo da época do ano. Vivi num namoro à distância, todo mundo teve mil problemas, eu tive crises nervosas e de stress, me senti inadequada como nunca antes, a família deu trabalho, enfim. Mas eis que 2014 tem sido um ano mágico!

Esse final de semana, o pai do meu namorado me perguntou se eu ia fazer um concurso junto com o namorado em questão, pra um cargo qualquer em Brasília que paga 25 mil por mês (não me peçam o edital porque não vou dar; não quero ninguém concorrendo com ele!). Eu respondi que não, e pra surpresa dele, acrescentei que estava muito feliz com a minha vida atual.

Eu não estou ganhando 25 mil reais por mês. Estou fazendo melhor que isso. Estou ganhando dinheiro suficiente pra viver e pra guardar pro futuro, trabalhando de casa com o que eu gosto. Eu reviso português ou inglês ou traduzo de pijamas, com uma playlist que eu carrego da internet que eu uso como quero, com gato(s) no colo, e posso parar para cochilar/lanchar/youtube e afins quando quiser. Pra mim, isso francamente vale muito mais do que o salário do concurso.

Além do mais, amanhã é minha primeira aula do mestrado. Estava aqui lendo os textos em preparação para o primeiro dia, com a cabeça explodindo com todas as coisas legais que estava lendo, e eu só conseguia pensar: gente, que situação mais legal a minha. Eu posso ler um texto de noite, sem medo de dormir demais, tomando um vinho mais ou menos barato. Eu posso (e fiz) voltar a estudar italiano. Posso fazer uma atividade física que signifique coisas pra mim, me ajude a conhecer gente diferente e nova, o kung fu, posso só ficar feliz. Posso pensar na história que escrevi quando era adolescente e em como eu poderia reescrevê-la e mandar pra uma editora. De repente, eu posso.

Tenho sido muito menos sociável por causa disso: longas horas no quarto, lendo ou trabalhando ou vendo séries idiotas, e menos tempo na sala com meus amigos. Sempre volto primeiro dos butecos porque adoro aquelas duas horas em que volto pra casa com o Mário e ele fala sobre Linguística, e eu falo de Literatura e de Linguística também, e a gente fica bêbado falando de coisas que eu não ouso falar na mesa de bar por medo de acharem idiota ou irreal.

Mas sabe? É arrogante falar: “acho que todo mundo devia fazer como eu”, mas nesse caso específico, acho que deviam, sim. Encontrar o estilo de vida que você quer de verdade. E se fuder e se machucar e machucar os outros também, se for necessário. Com as devidas explicações, eles entenderão a loucura que você viveu. Mas se um emprego de escritório e essas coisas que vêm com ele não são o seu esquema, se você pira em textos sobre indústria cultural e afins, tem mais é que dar a cara a tapa.

As brincadeiras de mau gosto, a ditadura gay e a patrulha do politicamente correto

Queria começar este post dando os parabéns à UFMG, que está nas notícias nacionais desde ontem. Que beleza, hein? Meus parabéns.

Eu acho difícil tratar com qualquer coisa além de ironia e sarcasmo essa história do trote da Escola de Direito. Francamente, é uma decepção difícil de exprimir. Não que não existisse trote quando eu entrei – e olha que eu entrei na Letras. Tinha trote sim. No final de uma quarta-feira, depois da aula de Teoria da Literatura I, uns estranhos chegaram colocando barbante na mão da gente e gritando coisas indistintas. Bem, antes de pensar muito no assunto, eu só tirei o barbante da mão e saí andando.

Muita gente diz que o aluno vai parar no trote não por restrições físicas, mas psicológicas. Eu concordo; ninguém quer virar um pária no seu primeiro semestre em um ambiente estranho onde você deve permanecer por cerca de cinco anos. No meu semestre, um menino apelou e saiu correndo, num momento tragicômico, mas o máximo que aconteceu foi levar o apelido de André Rebelde, em homenagem à novela mexicana da época, e foi só. Eu ainda chamo ele assim mais por hábito (e porque na minha geração tem André até demais, francamente, e eu uso pra diferenciar).

Isso é completamente diferente do que acontece nas faculdades dos cursos mais disputados. Quem diria, você estuda igual um maluco pra entrar em um curso dificílimo e é recebido da forma como a gente lê nos jornais. Então, sim, eu sou contra trotes. Nos meus anos de atuação no Diretório Acadêmico, nós apenas incentivamos a recepção de calouros, com pimentinha barata e vinho mais barato ainda; tinha tinta pros desejosos escreverem na testa, e um grupo separado foi pra Antônio Carlos pedir dinheiro pros motoristas.

Vamos contrastar isso com outra história: eu moro no Bairro Ouro Preto, próximo às entradas de Educação Física e Veterinária da UFMG. Um belo dia, estou eu a caminho do ponto de ônibus pra ir trabalhar e de repente me sobe um cheiro inacreditável de merda. Ergo a cabeça pra perceber a presença de uns 5 ou 10 calouros da Veterinária, e eles estavam – SIM – cobertos em merda.

Por princípio, eu já não dou dinheiro pra calouro, talvez por causa da minha mãe, que, quando eu passei, deu rapidamente os parabéns, mas logo acrescentou que eu não fiz “mais do que a obrigação”, já que ela tinha investido no meu ensino durante mais de uma década, além dela e do meu pai terem trabalhado loucamente pra que eu própria não precisasse sacrificar tempo de estudo trabalhando. Ainda menos quando trata-se de um calouro alto, forte, bonito, branquelo e bem alimentado, com corte de cabelo da moda, me dizendo que passou em Medicina.

A UFMG não está sozinha nas práticas medievais de recepção de calouros. Contudo, saber que isso está acontecendo na instituição onde eu me formei é particularmente doloroso; é como se, como ex-aluna, eu tivesse algum tipo de dever de zelar pela “imagem” da universidade. Isso influencia todos os dias o modo como eu exerço minhas profissões; quando dava aula, e agora quando reviso e traduzo, penso sempre em como o nome da UFMG influenciou minha contratação de forma positiva, e tento atuar de modo a atender a essas expectativas e não decepcionar os professores que investiram tempo me preparando e corrigindo meus trabalhos.

Infelizmente, tenho a impressão que essa noção muito simples falta aos alunos, veteranos ou calouros, de muitos cursos da UFMG. Para eles, ser aceito na UFMG é um mérito por si só, que, no imaginário deles, deve corresponder a algum tipo de escalada num sistema de castas antigo, um escravo alforriado que sai comprando escravos.

Uso essa metáfora e não é por acaso: essa visão de entitlement e superioridade não vem separada de um preconceito enraizado de forma tão profunda que nem é reconhecida. A meritocracia instituída pelo vestibular é apenas parcialmente responsável por isso; existe também essa supervalorização do bom desempenho nos estudos, como se notas e nomes fossem as únicas coisas importantes na sociedade e o único caminho para a felicidade.

Por causa de tudo isso, o que aconteceu na Escola de Direto não tem nada a ver com “uma brincadeira de mau gosto”. Tem a ver, sim, com ignorância, com falta de respeito e empatia.

Contrariamente do que circula nos comentários asquerosos e abissais das matérias que li em jornais online, nós não estamos passando por uma “ditadura gay” ou por uma “patrulha do politicamente correto”. Isso não existe. O que existe são pessoas que finalmente se unem para mostrar o seu desconforto com atitudes desrespeitosas, ou, no máximo, que tratam pessoas preconceituosas do modo como são tratadas por elas. É natural que o esforço pela igualdade de voz cause atrito. E, ainda que este atrito me force a ver o pior que existe na cabeça deturpada de gente acostumada a ter a voz e a vez, eu me vejo forçada a achar isso uma coisa boa, porque eu estou aqui argumentando em contrário, pessoas argumentam em contrário nos ônibus, nas ruas, na internet, na mesa do buteco.

Uma ditadura gay significaria que todo mundo seria obrigado a trocar a norma culta pelo bichês; que héteros não poderiam se beijar em público, assumir relações em público, e caso o fizessem, seriam presos e torturados. Uma patrulha do politicamente correto bateria na sua porta tarde da noite para perguntar por que você contou uma piada machista na empresa, na hora do almoço, ao invés de te olhar feio e sair andando. Uma dose amargurada de revanchismo dentro de mim é forçada a desejar apenas um dia de ditadura gay e patrulha do politicamente correto, apenas para que os termos imbecis parassem de ser usados.