I’m only happy when it rains

Quem lê blog, ultimamente, está sempre atrás dos problemas, dos questionamentos, dos sofrimentos e, principalmente, das injustiças. Eu mesma leio uma quantidade de posts sobre desigualdade de raça, gênero, idade, classe social… Compartilho, discuto e tudo o mais. Num momento como esse, é realmente bom lembrar que eu nunca escrevi esse blog muito pra outra pessoa além de mim mesma, e se é pra falar sozinha, eu não preciso ter medo de público, né?

Vou mandar a real aqui agora: minha vida está bem boa nesse momento.

O ano passado foi bastante ruim, uma dureza. Teve época em que eu trabalhava de oito às dezoito, pegava trânsito pra ir e voltar e depois ainda ia: estudar para a seleção do mestrado / traduzir / ir para a academia / assistir matéria de ouvinte na faculdade, dependendo da época do ano. Vivi num namoro à distância, todo mundo teve mil problemas, eu tive crises nervosas e de stress, me senti inadequada como nunca antes, a família deu trabalho, enfim. Mas eis que 2014 tem sido um ano mágico!

Esse final de semana, o pai do meu namorado me perguntou se eu ia fazer um concurso junto com o namorado em questão, pra um cargo qualquer em Brasília que paga 25 mil por mês (não me peçam o edital porque não vou dar; não quero ninguém concorrendo com ele!). Eu respondi que não, e pra surpresa dele, acrescentei que estava muito feliz com a minha vida atual.

Eu não estou ganhando 25 mil reais por mês. Estou fazendo melhor que isso. Estou ganhando dinheiro suficiente pra viver e pra guardar pro futuro, trabalhando de casa com o que eu gosto. Eu reviso português ou inglês ou traduzo de pijamas, com uma playlist que eu carrego da internet que eu uso como quero, com gato(s) no colo, e posso parar para cochilar/lanchar/youtube e afins quando quiser. Pra mim, isso francamente vale muito mais do que o salário do concurso.

Além do mais, amanhã é minha primeira aula do mestrado. Estava aqui lendo os textos em preparação para o primeiro dia, com a cabeça explodindo com todas as coisas legais que estava lendo, e eu só conseguia pensar: gente, que situação mais legal a minha. Eu posso ler um texto de noite, sem medo de dormir demais, tomando um vinho mais ou menos barato. Eu posso (e fiz) voltar a estudar italiano. Posso fazer uma atividade física que signifique coisas pra mim, me ajude a conhecer gente diferente e nova, o kung fu, posso só ficar feliz. Posso pensar na história que escrevi quando era adolescente e em como eu poderia reescrevê-la e mandar pra uma editora. De repente, eu posso.

Tenho sido muito menos sociável por causa disso: longas horas no quarto, lendo ou trabalhando ou vendo séries idiotas, e menos tempo na sala com meus amigos. Sempre volto primeiro dos butecos porque adoro aquelas duas horas em que volto pra casa com o Mário e ele fala sobre Linguística, e eu falo de Literatura e de Linguística também, e a gente fica bêbado falando de coisas que eu não ouso falar na mesa de bar por medo de acharem idiota ou irreal.

Mas sabe? É arrogante falar: “acho que todo mundo devia fazer como eu”, mas nesse caso específico, acho que deviam, sim. Encontrar o estilo de vida que você quer de verdade. E se fuder e se machucar e machucar os outros também, se for necessário. Com as devidas explicações, eles entenderão a loucura que você viveu. Mas se um emprego de escritório e essas coisas que vêm com ele não são o seu esquema, se você pira em textos sobre indústria cultural e afins, tem mais é que dar a cara a tapa.

As brincadeiras de mau gosto, a ditadura gay e a patrulha do politicamente correto

Queria começar este post dando os parabéns à UFMG, que está nas notícias nacionais desde ontem. Que beleza, hein? Meus parabéns.

Eu acho difícil tratar com qualquer coisa além de ironia e sarcasmo essa história do trote da Escola de Direito. Francamente, é uma decepção difícil de exprimir. Não que não existisse trote quando eu entrei – e olha que eu entrei na Letras. Tinha trote sim. No final de uma quarta-feira, depois da aula de Teoria da Literatura I, uns estranhos chegaram colocando barbante na mão da gente e gritando coisas indistintas. Bem, antes de pensar muito no assunto, eu só tirei o barbante da mão e saí andando.

Muita gente diz que o aluno vai parar no trote não por restrições físicas, mas psicológicas. Eu concordo; ninguém quer virar um pária no seu primeiro semestre em um ambiente estranho onde você deve permanecer por cerca de cinco anos. No meu semestre, um menino apelou e saiu correndo, num momento tragicômico, mas o máximo que aconteceu foi levar o apelido de André Rebelde, em homenagem à novela mexicana da época, e foi só. Eu ainda chamo ele assim mais por hábito (e porque na minha geração tem André até demais, francamente, e eu uso pra diferenciar).

Isso é completamente diferente do que acontece nas faculdades dos cursos mais disputados. Quem diria, você estuda igual um maluco pra entrar em um curso dificílimo e é recebido da forma como a gente lê nos jornais. Então, sim, eu sou contra trotes. Nos meus anos de atuação no Diretório Acadêmico, nós apenas incentivamos a recepção de calouros, com pimentinha barata e vinho mais barato ainda; tinha tinta pros desejosos escreverem na testa, e um grupo separado foi pra Antônio Carlos pedir dinheiro pros motoristas.

Vamos contrastar isso com outra história: eu moro no Bairro Ouro Preto, próximo às entradas de Educação Física e Veterinária da UFMG. Um belo dia, estou eu a caminho do ponto de ônibus pra ir trabalhar e de repente me sobe um cheiro inacreditável de merda. Ergo a cabeça pra perceber a presença de uns 5 ou 10 calouros da Veterinária, e eles estavam – SIM – cobertos em merda.

Por princípio, eu já não dou dinheiro pra calouro, talvez por causa da minha mãe, que, quando eu passei, deu rapidamente os parabéns, mas logo acrescentou que eu não fiz “mais do que a obrigação”, já que ela tinha investido no meu ensino durante mais de uma década, além dela e do meu pai terem trabalhado loucamente pra que eu própria não precisasse sacrificar tempo de estudo trabalhando. Ainda menos quando trata-se de um calouro alto, forte, bonito, branquelo e bem alimentado, com corte de cabelo da moda, me dizendo que passou em Medicina.

A UFMG não está sozinha nas práticas medievais de recepção de calouros. Contudo, saber que isso está acontecendo na instituição onde eu me formei é particularmente doloroso; é como se, como ex-aluna, eu tivesse algum tipo de dever de zelar pela “imagem” da universidade. Isso influencia todos os dias o modo como eu exerço minhas profissões; quando dava aula, e agora quando reviso e traduzo, penso sempre em como o nome da UFMG influenciou minha contratação de forma positiva, e tento atuar de modo a atender a essas expectativas e não decepcionar os professores que investiram tempo me preparando e corrigindo meus trabalhos.

Infelizmente, tenho a impressão que essa noção muito simples falta aos alunos, veteranos ou calouros, de muitos cursos da UFMG. Para eles, ser aceito na UFMG é um mérito por si só, que, no imaginário deles, deve corresponder a algum tipo de escalada num sistema de castas antigo, um escravo alforriado que sai comprando escravos.

Uso essa metáfora e não é por acaso: essa visão de entitlement e superioridade não vem separada de um preconceito enraizado de forma tão profunda que nem é reconhecida. A meritocracia instituída pelo vestibular é apenas parcialmente responsável por isso; existe também essa supervalorização do bom desempenho nos estudos, como se notas e nomes fossem as únicas coisas importantes na sociedade e o único caminho para a felicidade.

Por causa de tudo isso, o que aconteceu na Escola de Direto não tem nada a ver com “uma brincadeira de mau gosto”. Tem a ver, sim, com ignorância, com falta de respeito e empatia.

Contrariamente do que circula nos comentários asquerosos e abissais das matérias que li em jornais online, nós não estamos passando por uma “ditadura gay” ou por uma “patrulha do politicamente correto”. Isso não existe. O que existe são pessoas que finalmente se unem para mostrar o seu desconforto com atitudes desrespeitosas, ou, no máximo, que tratam pessoas preconceituosas do modo como são tratadas por elas. É natural que o esforço pela igualdade de voz cause atrito. E, ainda que este atrito me force a ver o pior que existe na cabeça deturpada de gente acostumada a ter a voz e a vez, eu me vejo forçada a achar isso uma coisa boa, porque eu estou aqui argumentando em contrário, pessoas argumentam em contrário nos ônibus, nas ruas, na internet, na mesa do buteco.

Uma ditadura gay significaria que todo mundo seria obrigado a trocar a norma culta pelo bichês; que héteros não poderiam se beijar em público, assumir relações em público, e caso o fizessem, seriam presos e torturados. Uma patrulha do politicamente correto bateria na sua porta tarde da noite para perguntar por que você contou uma piada machista na empresa, na hora do almoço, ao invés de te olhar feio e sair andando. Uma dose amargurada de revanchismo dentro de mim é forçada a desejar apenas um dia de ditadura gay e patrulha do politicamente correto, apenas para que os termos imbecis parassem de ser usados.

Comentário: The Perks of Being a Wallflower

Aviso: como todos os meus comentários, temos spoilers aqui.

 

“Why do I and the people I love always pick people who make us feel like we’re nothing?”

A pergunta de Sam, personagem da Emma Watson foi o que mais ressoou na minha cabeça. Não dá pra negar: por quê? Eu conheço e convivo com tantas pessoas cuja inteligência é imensurável, cujo talento é indiscutível, além da boa companhia de copo e de badtrips. E ainda assim, por que eu as vejo, todos os dias, andando com pessoas que as deixam pra baixo?

A resposta que o filme oferece é: “nós aceitamos o amor que acreditamos merecer”. Apesar de ter certa significação, eu acredito que a resposta seja sim muito simplista. O primeiro questionamento de The Perks of Being a Wallflower (2012) é esse: por que procuramos companhias que nos diminuem? Estamos apenas espelhando o pouco de pensamos de nós próprios? Estamos nivelando por baixo? Mas onde fica esse limite? Como saber se estou com alguém que me deixa pra baixo ou se realmente eu não conseguiria coisa melhor? É claro que no enredo adolescente e cheio de reviravoltas instigantes do filme fica bem claro como Sam namora um babaca. Quero dizer, que tipo de pessoa responde “Você escreve poesia?” com um floreio e “A poesia é que me escreve”? Não dá pra não virar os olhos nessa cena.

Outra coisa: pra quem é fã de John Green, é impossível ignorar como a história do filme (que é uma adaptação de um romance) é parecida demais com Looking for Alaska. Os ingredientes básicos estão todos lá: um personagem principal calado, sem habilidades sociais, com apego incomum por leitura, que são inseridos numa escola nova, com pouca ou nenhuma interferência da família. É claro que os problemas mentais de Charlie nem se comparam à falta de jeito de Miles, mas os dois se comportam de formas surpreendentemente semelhantes. Mas é claro que eu não vou cometer o erro clichê de acusar uma das duas histórias de plágio. Primeiro, porque nenhum deles inventou a idéia de um menino tímido e deslocado numa escola nova, especialmente nos últimos, digamos, vinte anos, em que filmes e livros vem retratando muito as vítimas de bullying, às vezes até romantizando tudo.

Além disso, a personagem de Emma Watson, com seu sotaque americano bem fingido, é uma Alaska mais rasa. Os traumas que Charlie tem no filme, Alaska tem no livro, até certo nível. Ela é o que alguns estudiosos chamam de estereótipo da “pixie girl”. O que é a Pixie girl? Bem, são personagens como Alaska, Sam, Kate Winslet em Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças, etc. Mulheres estranhas, quase mágicas, muito bonitas, muito traumatizadas, que iluminam a vida do personagem principal, mas que muitas vezes foram traumatizadas além do nível em que se pode ajudá-las. Como eu disse, Sam é uma pixie girl bem rasa, considerando suas colegas; ela apenas teve um passado de má reputação e pegação com o chefe do pai, e só precisa dar uma estudadinha pra outro SAT’s. É claro que ela é adorável, e simpática, e não tem como não torcer por ela. Como é o primeiro filme em que eu a vejo depois da série Harry Potter, eu diria que, do trio, ela é a única que tem chances de fazer uma carreira duradoura além de Hermione Granger. Desculpem, Dan e Rupert, mas é a verdade.

E finalmente, o meio irmão de Sam, Patrick, o equivalente ao Colonel no meu paralelo com Looking for Alaska. Aquele personagem masculino, amigo da pixie girl, que é o guia do personagem principal. Alguém imprevisível e divertido, com suas próprias dificuldades, mas com muito potencial. Patrick e Colonel precisam existir, porque senão nem o Perks nem Looking for Alaska iriam para frente – ambos provavelmente seriam histórias sobre meninos estudiosos tomando refrigerante na cara e se masturbando pra pixie girl no dormitório.

Previsivelmente, Charlie tem um começo difícil na escola, e sabemos desde o princípio que ele tem algum problema estranho, e que fica se lembrando de uma tal tia Helen que morreu em um acidente. Mas eis que encontramos aqui a grande reviravolta do filme – eu não imaginava nem em um milhão de anos. Nos últimos minutos de filme, Charlie tem um ataque muito tenso, em que ele quase se mata; as memórias que lhe passam pela cabeça revelam ao expectador que a tal tia não era apenas próxima do menino: ela abusava sexualmente dele. E quando ela morre em um acidente, ele tem crises de culpa, porque o acidente teria ocorrido quando ela ia buscar um presente para ele – e não só isso, ele confessa não saber se teria desejado a morte dela.

Em aspectos de cinema, não há nada de muito especial com a fotografia, ou com a música – além da boa escolha de Heroes para ambientar as cenas no túnel.

O filme é do tipo que faz você se sentir bem ao final, que te faz pensar e refletir sobre os anos de adolescência e sobre como eles são mesmo uma merda pra (quase) todo mundo. Eu com certeza recomendo. E também aconselho a tentar desligar o botão de comparações com Looking for Alaska, porque há de fato muitas semelhanças e isso pode diminuir a sua diversão.

Comentário: The Hunger Games

Disclaimer: como na maioria dos meus comentários, este post terá vários spoilers. Então saiba que vou falar da história do primeiro livro e filme sem restrições.

É difícil achar algo que eu não goste em Hunger Games. Gosto do título, da protagonista, do estilo, do ritmo, da história, da adaptação para filme, das emoções, e as críticas mais comuns à série.

Em primeiro lugar, eu queria mencionar um dos principais argumentos dos anti-Hunger Games, que dizem que a série é apenas uma cópia de Battle Royale, um filme japonês de 2000 adaptado de um livro publicado em 1999.  Antes de mais nada, eu não sou ninguém pra descartar essa hipótese completamente, porém, honestamente, eu acho que dois autores tiveram duas idéias semelhantes que foram bem sucedidas. Pelo que o namorado (que precisou assistir Hunger Games quase amarrado) disse, Battle Royale tem muito mais porradaria – os jogos são mostrados com muito mais detalhes, ao passo que Hunger Games gasta mais da metade do seu tempo no cinema para mostrar a preparação de Katniss para a arena, além de todas as alegorias inconfundíveis com a história dos Estados Unidos.

Ah, Katniss. Ela é uma excelente personagem. Francamente, ela é um modelo de humanidade. Pra mim é até difícil falar dela, porque eu atingi um grau de identificação muito alto com a personagem: ela sustenta a família desde a morte precoce do pai, um trabalhor das minas do Distrito 12, o mais pobre de todos que servem à Capitol. Esta é o centro do governo e a grande responsável pela criação e manutenção dos Hunger Games por 73 anos.

Na 74a edição, Katniss enfrenta a possibilidade – ínfima – de que Primrose, sua irmãzinha, torna-se uma possível candidata a tributo do distrito 12, no jogo em que crianças e adolescentes devem lutar até a morte. Em entrevista, a autora alega que teve a idéia central da série enquanto mudava de canal entre um reality show e um documentário desses de animais caçando na selva.

Ainda me lembro de que quando comecei a ler, subestimei a minha impressão da história só por causa da narração em primeira pessoa. Lembro de pensar: “ai, mais uma narração derivada de Crepúsculo, com essa coisa adocicada e pseudo sofrida”… Mas bem, eu não poderia estar mais errada.

Tudo começa com o dia da colheita, em que se sorteiam as crianças a serem doadas por cada distrito para os Hunger Games. Pra mim é difícil não prender a respiração com a Katniss enquanto ela observa o nome de Prim ser retirado no sorteio. Por impulso, ela faz a única coisa ao seu alcance para proteger a irmã: ela se voluntaria para ir no lugar dela. Effie, a responsável pela cerimônia até mesmo comenta que Katniss era a primeira voluntária da história do distrito.

Ela é imersa num ambiente absurdo, de opulência e espetáculo, em que seu corpo é polido, esfregado e preparado pela exibições, entrevistas, medidas… Enfim, ela é explorada ao extremo, bem como Peeta (o tributo menino que é sorteado com ela), antes de ser enviada para os jogos.

Outra crítica comum à serie é que ela seria levemente homofóbica na sua caracterização da capital, porque as pessoas são descritas por usarem roupas coloridas, cabelos extravagantes, além de maquiagens e interferências corporais que lembram muito os conceitos tipicamente associados a gays; dessa forma, os “vilões”, por assim dizer, seriam associados de maneira subsconciente a gays.

Acho que essa crítica não é completamente errada, mas acho que o exagero físico da moda da capital não é apenas gay; acho pessoalmente que ela tem muito a ver com a norma hetero para mulheres; cabelos, pinturas e afins, além das imagens da adaptação fílmica que envolvem pai e mãe dando de presente ao filho uma espada, que começa a correr atrás da filha  que segura uma boneca.

Finalmente, outra crítica, a melhor fundamentada na minha opinião, é sobre como a moralidade, ou mesmo o senso de culpa de Katniss é flutuante. Antes dos jogos, ela demonstra desejo nulo de matar crianças inocentes, mas isso se faz necessário, não há hesitação. Vale a pena lembrar que seu primeiro assassinato é indireto – ela corta o galho de um ninho de jabberjays nos inimigos, que matam com o veneno – porém logo ela mata frente a frente, especialmente ao encontrar o corpo de sua aliada, Rue, na cena mais tocante do filme. Ela dispara a flecha contra o tributo do Distrito 1 que a matara e não pensa nele mais do que duas ou três vezes por todo o resto da série.

Sim, as lágrimas de desespero dela por Rue e por outros são verdadeiras e de partir o coração, mas ela não pensa nunca mais em Cato, ou em outros tributos que ela mata ou que observa morrer. A narrativa sugere que os traumas incomparáveis derivados da experiência a levariam a tentar bloquear ao máximo as memórias, mas é difícil negar que Katniss, por mais sensacional que seja, não sofre igualmente pelos personagens que mata.

Sou grande fã do filme lançado em março do ano passado; contudo, fico profundamente incomodada com os posteres que divulgaram o filme: quase todos mostram uma Katniss centralizada, com Peeta e Gale, seu melhor amigo, de cada lado, num eco evidente do primeiro poster de Crepúsculo, com aquela sombra de ego-personagem e seus pretendentes. Além disso dar a impressão errônea de que o filme é um romance e não uma aventura distópica, dá uma dor de cabeça ficar explicando que não existe uma tensão “ui, com quem ela vai ficar”, porque o tempo todo tem algo bem mais interessante acontecendo do que qualquer romance.

Esta série me surpreendeu demais. Fazia anos que eu não virava a noite inteira lendo um livro. Fazia anos que uma história não me tocava em níveis tão básicos e tão essenciais. A narradora de Susanne Collins me fez chorar desesperadamente, e em determinados momentos até me fez largar o livro de pura raiva com alguma reviravolta que eu não imaginava nem nos meus piores pesadelos. Ah, os pesadelos… Foram pelo menos duas semanas de pesados agitados em que eu estava nos Hunger Games tentando salvar a minha pele.

Não dá pra não recomendar.

Diário de Férias #3

Hoje eu estava vendo um programa da National Geographic sobre alterações corporais. Todo tipo de loucura: mulheres que injetam azeite no rosto pra ter uma pele mais bonita, mulheres que quebram as duas pernas pra tentar ganhar 3 centímetros de altura, anoréxicas, brasileiras com síndrome de dismorfia corporal que buscam aumentar os peitos desesperadamente.

Bem, pra mim esse assunto sempre foi um pouco coisa de outro planeta. Crescendo mulher, não é que ninguém me tenha exposto a maquiagem, dietas, cirurgias e etc, ou os ideais de beleza feminina que eu devo seguir. Contudo, até hoje eu tenho certa dificuldade em me maquiar sem imaginar um voice over de documentário na minha cabeça: “As fêmeas da tribo ocidental do início do séc. XXI costumavam pintar o rosto em um ritual de preparação para o acasalamento”. Nos momentos em que me sinto menos crítica, ao invés de comparar as nossas práticas com as de pavões ou macacos, penso em rituais sagrados indígenas, nos quais, pelo pouquíssimo que admito saber, as pessoas pintam o rosto para rituais sagrados, ou pra qualquer coisa mais significativa do que auto intoxicação via álcool.

Enfim, dá pra entender a idéia por trás da metáfora estereotípica. O ritual de beleza que nós seguimos poderia perfeitamente ser narrado com voice over. Um daqueles bem graves, com aquele peso de verdade absoluta.

E por causa dessa consciência, eu tento cotidianamente ignorar esses padrões que nos apresentam: essa magreza misturada com anos na academia; esse cabelo liso a proporções ridículas, que ninguém tem naturalmente; essas roupas desconfortáveis, essa constante observação, esse esforço diário que eu vejo em muitas colegas de gênero para se tornar algo agradável aos olhos.

Normalmente eu sinto pena. Não porque a natureza tenha me dado dons de beleza caralhística que fazem homens caírem aos meus pés por todos os lados. Eu tenho um zilhão de problemas com a minha aparência, um padrão feminino do qual não consigo escapar; porém, uma consciência me resta: se eu deixasse de comer tudo o que gosto, se alisasse meu cabelo, de o pintasse de loiro ou ruivo, se comprasse silicone ou se consertasse meu nariz, sei lá, eu não acho que me sentiria mais bonita. Acho que a sensação seria parecida com a de comprar um vestido novo.

Tem vezes que eu compro um vestido, e por milagre da vida, na primeira vez em que o visto, eu me sinto perfeita. O vestido pega nos lugares certos, me emagrece, ah, finalmente estão fazendo roupas pra gente de corpo esquisito que nem eu!, mas aí acordo, de ressaca, e na próxima saída em que ponho o vestido eu já começo a perceber como ele expõe as pelancas dos meus braços ou como ele me faz parecer um colchão amarrado.

Pra resumir: eu vou acabar achando outros defeitos que me deixarão igualmente chateada comigo.

Por causa disso tudo, eu sempre sinto como se essas meninas que dedicam tanto tempo à aparência fossem um pouco aliens. Quer dizer, toda aquela produção leva tempo, dinheiro e disposição. Será que vale o retorno que ele traz?, e pergunto isso na maior das inocências, porque sinceramente não sei. No final das contas, acaba que eu nunca alisei meu cabelo, e ele já cresceu todo de novo depois da última vez em que o colori, sigo comendo igual uma louca e tudo o mais, mas constantemente me pergunto se vale o esforço que vejo nas moças à minha volta. Quero dizer. Imagino que seja legal entrar numa loja de roupas e qualquer coisa ficar bem em você. Mas será que isso é mais legal que contra filé com fritas, queijo e bacon, regado a cerveja?

 

Diário de Férias #2

Estou sofrendo com a tentação de criar um diário de náufraga, porque não consigo passar tempo demais no interior. A verdade é que eu quase nunca venho pra cá, e sendo professora acabo podendo passar boa parte dos feriados de fim de ano aqui. Uma confissão: com mais de duas semanas vai ficando bem difícil.

Acordar, tomar café, ver friends, almoçar, ler, jogar minecraft, brincar com o Lucky, brincar com os gatos, alimentar todos eles, depois mais internet, depois mais friends, mais comida… Enfim.  É bem bom, mas tem uma hora que você se pega planejando aula mentalmente com cenas de seriados.

Pelo menos uma coisa boa aconteceu: a Rádio Rock voltou! Ela é grande responsável pela minha educação em rock da adolescência, e até hoje reconheço de leve muita coisa por causa das longas horas que eu passava com o rádio ligado.

Rádio foi uma parte bem grande da minha pré adolescência e adolescência propriamente dita, apesar de já estar consideravelmente obsoleta. Num tempo de clipes na band, na mtv e com o nascimento do kazaa, o pessoal começou a ter acesso à sua própria música, o que acabou afastando muita gente das rádios pra se livrar dos anúncios, vinhetas, comentários e afins.

Mas pra falar a verdade, eu gosto muito da presença humana do rádio. É legal porque te permite fazer várias coisas ao mesmo tempo, diferente da tv. É besta dizer isso, né, mas as pessoas esquecem. Assistir coisas exige tempo demais. O rádio te entretém, mas deixa espaço o suficiente pra você pensar no ex namorado chorando, pra lembrar que não pagou a fatura do cartão e que precisa comprar as passagens pra capital. Você pode ouvir música boa e ler um livro ao mesmo tempo, o que considero excelente aproveitamento de tempo: o regime principal da minha vida extra escolar desde os onze anos.

Mas eu não conseguia ouvir Jovem Pam, a mais popular entre meus coleguinhas, porque tinha muita música eletrônica lá e desde nova eu tenho um duradouro preconceito e desconforto com música eletrônica, sem falar do pop. Mas antes da Rádio Rock houve a Band FM, acreditem se quiser, onde eu até aceitava ouvir Marlon e Maicon (sim!), pagode, Ivete Sangalo, entre outros, só pela companhia dos radialistas, de quem eu gostava muito. Particularmente o radialista da madrugada, um tal Marcelo Baptista – uma notícia que tive foi dele num programa de manhã numa tal Rádio Metropolitana.

Rádio é muito confortável e ajuda na solidão. Quem aí continua no regime da foreveralonice, fikdik.

Diário de Férias #1

Eu me transformo em outra pessoa quando estou desconfortável. Desconfio que isso aconteça com todo mundo, mas comigo acontece de tal forma que eu não me reconheço, mas também me vejo incapaz de fazer qualquer coisa a respeito.

Por exemplo, toda vez que vou a um salão de beleza cortar o cabelo é a mesma coisa. Falo previamente com a minha mãe. Ela liga para o cabelereiro onde vou desde os treze, catorze anos, e quando eu chego lá, mal consigo mandar um ‘oi, tudo bem’, pras pessoas. E sei lá, normalmente eu sou descrita como uma pessoa difícil ou de opiniões fortes – o que é diferente de curtir um conflito, que eu detesto; mas no salão de beleza eu desapareço. Não sei o que é. Talvez o excesso ridículo de espelhos sob a pior iluminação possível, talvez a aparência das pessoas em volta de mim, porque apesar de ver na tv e até na vida real, mulheres com unha feita, cabelo alisado e tingido, sobrancelhas, maquiagem, salto alto… bem, é suficiente dizer que a coisa toda me assusta.

A moça vai lavar meu cabelo, pergunta se estou confortável no assento de lavagem, e apesar de estar horrível eu sempre digo que sim. Daí eu sou posta na cadeira do cara lá, que usa um reflexo loiro e espetado ridículo. Toda vez que olho praquilo penso se quero mesmo colocar meu cabelo na mão dele… Daí ele penteia o cabelo pingando com o pente fino e me pergunta o que eu quero e eu nunca consigo responder de primeira. Ele sempre franze a testa enquanto explico e acaba fazendo uma coisa que tem a ver só vagamente com minha idéia original.

Ou quando conheci os pais do meu namorado. Aí já é mais do que suficiente dizer que de puro nervosismo, pra mim é difícil me sentir confortável em qualquer lugar da casa; tudo que eles falam de brincadeira eu acho que é verdade, tudo me deixa na defensiva, mas eu fico lá parada, só matutando, super consciente dos pelos de gato na minha roupa e de como eu devia, sei lá, ter retocado o desodorante antes de sair de casa. Eu não consigo dar opiniões, e fico desesperadamente buscando reações nos rostos deles, ainda que pequenas, qualquer coisa que acuse a profunda reprovação que eles devem ter de mim. Eu sou paranóica sem ter motivo, estou plenamente ciente disso – mas sabe de uma coisa? Saber que se tem um problema não o resolve. Eu não sei quem inventou isso, mas é mentira.

Hoje eu fui andar pela cidade com a minha mãe e ela me levou a uma joalheria. A moça pedia minha opinião e, antes que eu pudesse me controlar, falei: “não sei, eu não me importo com jóias”. Não agressivamente, não em voz alta, bem baixinho e tentando ser educada, mas saiu. Depois me peguei comentando com minha mãe sobre como gosto de fazer compras online. E corrigi, acrescentando: mas roupas!, sendo que atrás de mim havia uma arara cheia de vestidos e várias prateleiras com esses sapatos ridículos que chamam de meia pata e só me fazem pensar em mulheres que por algum motivo pensam em vacas como símbolo de elegância. Minha falta de jeito não tem limites.

Comentário: The Casual Vacancy

The Casual Vacancy, publicado no Brasil como A Morte Súbita, é a primeira tentativa de J.K. Rowling de escrever um romance para adultos, sem nenhuma referência ou conexão com o mundo mágico da série Harry Potter.

Terminei de lê-lo ontem, e finalmente pude ler spoilers: a maioria dos comentários apontava coisas previsíveis no livro e mesmo que ele seria pouco criativo. Particularmente, eu achei as críticas um tanto quanto cruéis demais; afinal de contas, desde que ela própria era criança, J.K. escrevia literatura infantil ou infanto-juvenil. Eu não diria que é o livro mais sensacional publicado em 2012 – até porque neste ano foi publicado o The Fault in Our Stars, do John Green – possivelmente o melhor dele até agora, na minha opinião.

De qualquer maneira, o enredo geral de Casual Vacancy é numa cidadezinha pequena, Pagford, que não é um cidade em si, mas é como um distrito da cidade maior, Yarvil. No começo do livro, Barry Fairbrother morre subitamente enquanto levava a mulher para jantar no clube de golfe. Outro casal que estava lá, Miles e Samantha Mollison, os ajudam chamando a ambulância e indo até o hospital, mas não adianta.

Barry era um conselheiro distrital, o que seria, creio eu, o equivalente a um vereador; a morte de um conselheiro é chamada de, não por acaso, casual vacancy, e muito do livro é construído sobre quem seria a melhor pessoa para preencher o seu lugar. Barry é constantemente construído como quase um santo: ele tinha projetos bons, lutava para resgatar jovens e adolescentes de situações de risco… Enfim, ele se doava inteiramente. Aí está uma expectativa minha que não se concretizou: fiquei o livro todo esperando alguém desmitificar Barry, o que não aconteceu. O tempo todo você vê gente falando dele, e os que falam mal são personagens profundamente desagradáveis e conservadores. Não sei, esperei ver, sei lá, que no final ele teria feito algo bastante ruim. E nada. O cara permanece santo até o final.

Há uma variedade de personagens no livro, e isso é um ponto forte constante de J.K.: as imersões dentro dos personagens, e o modo como ela descreve seus sentimentos e o mecanismo de seus pensamentos. Eu daria destaque à familia de Sikh, os Jawandas, especialmente a mãe, Parminder, e a filha Sukhvinder (espero ter escrito certo o nome da menina). A mãe, por ser apaixonada por Barry e por seu marcado descontrole – se ela não pirasse tanto na batatinha, ela seria perfeita demais – e a filha por ser vítima clássica de bullying, inclusive com o que creio ser Síndrome de Borderline. Mas também, é claro que eu, sendo eu, simpatizaria com a Sooks (como ela é apelidada pela amiga Gaia).

Eu francamente queria ter a disposição de falar de todos os personagens.

Howard Mollison, que dá pra chamar de vilão do livro, não mostra uma característica positiva: ele é a personificação do conservadorismo, preconceituoso, elitista e cego às necessidades dos outros, além de adúltero, mal educado e convencido de si próprio – o que chega ao ápice quando o filho é eleito para o lugar de Barry no Conselho. Ele foi outra decepção; porque, ao contrário de Barry, eu acho que esperei uma humanização dele. Nós temos imersões na cabeça da mulher dele, Shirley, da nora, Samantha, e ainda que a narrativa justifique o comportamento dele – descrevendo o começo das questões políticas – , ele não tem profundidade. Quer dizer, por que ele se casou com Shirley, por exemplo, que é filha de uma prostituta? Por que eles chegaram ao acordo mencionado pela mulher de que “eles não precisavam de sexo”? Eu acho coerente que eles escolham Miles como favorito, e que praticamente tenham expulsado de casa a outra filha, Patrícia – uma mulher muito mais bem sucedida, que mora em Londres e tem um relacionamento estáve com uma mulher. Porém, a maldade dele e o descaso com sua própria saúde não estão bem fundamentados, na minha opinião.

Eu também queria falar um pouco da Samantha, esposa de Miles. A narrativa chega muito perto de fazer slut-shaming com ela, o que acho um pouco preocupante. Ela tem um casamento frustrado; achou que estava se casando com um homem independente, mas ao longo dos anos ela observa enquanto Miles progride para ficar exatamente igual ao pai; ela começa a fantasiar loucamente com um menino de boyband, e chega a comprar ingressos com a desculpa de dar um presente à filha, mas acaba não indo, ficando muito bêbada e pegando um menino de dezesseis anos no aniversário do sogro. Eu honestamente não a condeno. Ela se sente presa em um ambiente hostil – porque Pagford é extremamente hostil -, vive frustrada sexualmente, presa em uma existência que não quis pra si. Mas com duas filhas e o marido eleito para o Conselho, ela sabe que jamais conseguirá escapar – e não conseguirá mesmo porque, tragicamente, ainda ama o marido.

Vou ter que ficar devendo um comentário sobre Fats e os Wall de forma geral, mas vale lembrar que Fats é o único que acaba de fato se responsabilizando pelas coisas que fez – e por mais algumas. Ele desenvolve esse conceito, na minha opinião ridículo, de autenticidade, em oposição à prática de todos que vivem sob a moral e bons costumes, fazendo o que se deve, e etc. Filho do vice diretor da escola, ele é francamente insuportável e desafia o pai em toda oportunidade possível.

Contudo, na minha opinião a personagem principal é, sem dúvida, Krystal Weedon. Ela é uma adolescente problemática, sua mãe vive entrando e saindo do tratamento para se livrar do vício em heroína, tem um irmão pequeno chamado Robbie que vive mal alimentado, ou sujo ou mesmo esquecido ao lado da mãe enquanto ela faz sexo por drogas. Krystal é vista como uma vadia por toda a cidade, porque, de fato, ela faz sexo com quem quer – Fats, principalmente -, e apenas a assistente social, Kay Bawden, a vê como alguém responsável e apegada ao irmão. Krystal se encarrega de levar o menino à escolinha, briga com traficantes e faz o máximo para proibir a mãe de cair no vício de novo. Krystal não gosta de Kay – ela gostava de verdade é de Barry Fairbrother, que vira algo de especial nela ao criar o time de remo. Antes da morte dele, esse time de remo era a melhor coisa na vida de Krystal, onde ela até fez amigas – Sukhvinder entre elas  – e aqui temos até o elemento cômico do hino do time de remo: Umbrella, de Rihanna!

No clímax do livro, Krystal decide tentar engravidar de Fats; aquilo seria sua fuga definitiva dos Fields, um condomínio de apartamentos numa área afastada, cheio de criminosos e viciados, para uma casa em Pagford, criando seu bebê e seu irmão, longe da influência da mãe e do traficante que chega a estuprá-la em uma cena horripilante.

Dessa forma, Krystal foge de casa com o irmão, determinada a encontrar Fats e tentar engravidar mais uma vez. Ela deixa o irmão sentado num banco com um pacote de chocolate e vai para o mato trepar com Fats. Numa sequência trágica, a criança fica com sede e sai andando pelos arredores. Para resumir a tragédia, ele  cai no rio e se afoga, não sem antes Sukhvinder aparecer, ver o menino no rio e pular para tentar salvá-lo.  Krystal, enlouquecida ao ser encontrada pela polícia com a notícia da morte do irmão, corre para a casa da mãe, arruma a colher, o isqueiro e a heróina e trata de se dar uma overdose fatal.

O suicídio de Krystal é uma atitude desesperada. É um elemento trágico. Nos faz pensar sobre como ela tinha uma humanidade que ninguém via, que ninguém queria ver. Krystal era uma personagem bem construída, e pelo menos eu, como leitora, me percebi torcendo para que sim, ela conseguisse dar o golpe da barriga em Fats, e sim, ela saísse daquela vida. Mas tentando sair daquela vida é que ela acaba pulando de cabeça na cadeira de eventos que a levaria a se matar. A única pessoa que acreditava nela está morta, os aliados de Barry não tem força nem poder de continuar lutando pela manutenção da clínica de reabilitação ou pelos Fields. O desespero e a desistência de Krystal pra mim são o resultado final de uma história em que todo mundo perde. Os conservadores elegem Miles Mollison, Krystal não consegue provar seu valor, e a cidade não pensa por um momento em quem ela foi – apenas comentam com estranheza o esforço do falecido Barry em tentar provar o valor das pessoas dos Fields.

The Casual Vacancy não é um livro que faz você se sentir bem. Não é mesmo. Talvez por isso eu não saiba dizer tanto qual é a minha impressão final. Eu tenho que mencionar o fato de que no começo eu enxergava J.K. por trás da narrativa; mas conforme a história prossegue, eu me esqueci completamente dela, e me percebi lendo grandes porções da tora de papel em um dia só, então eu diria que o livro tem a mágica da narrativa da tia J.K..

Tenho que mencionar o trabalho editorial lindo do capa dura que comprei. Papel de qualidade, fonte e tamanho perfeitos, e a capa, que quando vi na internet tinha detestado, é muito aprazível não só aos olhos, como ao toque. Um livro que vale o dinheiro.

Vale lembrar que eu foquei o meu comentário nos personagens, mas eu poderia ter escolhido falar da trama impulsionada pelo Fantasma de Barry Fairbrother, mas eu preferi não focar na cena já prometida na orelha do livro sobre como todos teriam segredos e tralalala. Ao ler J.K., sempre tenho a impressão que são os personagens que fazem a trama, e não o contrário.

2013

Não vou escrever sobre as coisas que fiz esse ano.

Digo porquê: conquistei coisa pra caralho, mas não acho que nenhuma delas veio com o esforço que fiz neste ano mesmo. Acho que fui muito mais útil pro mundo nos anos anteriores, e esse ano só fiquei colhendo os resultados. Seja com trabalho, com formatura, com sair da forever alonice, seja com meu apartamento maravilhoso e meu gatinho. Pra ser bastante honesta, não acho que me esforcei. Acho que esse ano só fiquei aproveitando os louros dos anos anteriores.

E por isso, estou com certa vergonha, e sinto que as 24 anos não sou o que eu planejei ser quando entrei na faculdade. E acho que tenho todos os meios pra ser melhor – e quero, finalmente, me colocar no caminho.

Em primeiro lugar, chega de tentar me esforçar pra ficar me equiparando aos meus amigos. Eu me sinto constantemente menor e pior do que eles e acho que a minha tentativa pífia de mestrado em linguística nesse ano tem a ver com isso. 

Então, em 2013 vou recuperar minha paixão. Vou voltar aos livros e não vou ter vergonha de falar de livros só porque todos os meus amigos entendem mais de literatura do que eu. Não vou me deixar intimidar.

Mas vamos começar por coisas mais simples:

-Vou sair de vez da comunidade da Letras do facebook, que é só sujeira e briga de gente imbecil. Até do circo a gente cansa uma hora.

-Vou escrever mais no blog, sobre qualquer coisa.

-Vou ler os livros que trouxe pras férias (um total de 10), até começar a dar aula de novo em fevereiro. Sim, só dou aula em fevereiro, MORRÃO de inveja.

-Vou perder 5 quilos, o que não é tão ambicioso; mas não quero deixar de comer. Meu metabolismo é meu amigo, então fazer exercícios vai ser a ordem do dia. 

-Vou arrumar meu guarda roupa, que no momento consiste de pilhas e pilhas de panos jogados uns em cima dos outros.

-Não vou parar de beber, não, porque a ideia é que as resoluções sejam factíveis.

-Vou aprender a pesquisar literatura, voltar a estudar e ahazar na seleção do final do ano que vem. Já comecei um diário de ideias sobre literatura, acreditem se quiserem.

-Vou me conformar e parar de escrever idéia com acento.

Só isso mesmo. É nóis.

Cada um na sua ilha

Já faz um ano que eu não hesito quando me perguntam se os gringos são frios, e se os brasileiros são pessoas mais calorosas quando o assunto é interação social. Veja bem, eu não mudei de opinião; continuo achando que, a julgar pela minha experiência pessoal, o que vi dos gringos é que era muito, muito difícil, fazer com que alguém se abrisse.

E quando eu falo de uma pessoa se abrir estou sendo subjetiva de propósito, porque isso pode abranger muitos conceitos. Quando eu penso nisso, as primeiras coisas que me ocorrem são simples, até: você se abre quando conta alguma coisa significativa. Pode começar pequeno, como quando, em sala de aula, eu pergunto pros meus alunos qual o melhor ano da vida deles (sutilmente ensinando superlativos, HÁ!) e eles me respondem com coisas bem pessoais, como nascimento de um filho, decisão de se mudar pra algum lugar, etc etc. Isso já é algo que, por exemplo, eu não sei das pessoas com quem eu convivia.

Porém, abrir-se de verdade abrange muitas outras coisas. Quando as pessoas sentem-se confortáveis para contar sobre experiências ruins, por exemplo. Quando falam sobre como a infância ou a adolescência foram ruins, mas não como elas sofreram bullying, porque isso hoje já virou relato de guerra pra quem quer receber atenção. Não, hoje todo mundo é o primeiro a dizer que era super perseguido nos anos de escola. Agora isso é cool. Não… Estou falando de coisas chatas mesmo. Quando eu tinha catorze anos, eu tinha uma paixonite, platônica como todas as minhas até os 18, por um cara que era um ano mais velho. Ele não tinha nenhum interesse em mim. Nenhum. Não estou exagerando. A minha impopularidade e o mito generalisado de que eu era lésbica (lá venho eu com meus contos de sofrimento da escola! Não leve essa parte a sério.) não me ajudavam, mas nada disso é a chave da história. A chave da história é que eu um dia fiz o absurdo de calcular a que horas ele passaria por determinada esquina voltando da escola (sempre tive um talento stalker nato), e falei com ele que gostava dele. Claro que ele ficou quieto, querendo rir por dentro, enquanto eu dizia pra ele não se preocupar que eu sabia que ele não gostava de mim, mas que eu só queria dizer, ok, obrigada, beleza, a gente se vê.

Claro que no dia seguinte a sala dele estava rindo de mim às gargalhadas, mas além de você saber que eu era muito juninho, agora sabe que eu pratico suicídio emocional desde muito jovem.

Eu tenho um padrão de não esconder quando tenho interesse nas pessoas; tem muita gente que se diverte jogando joguinhos de ciúme e calculando o que é aceitável fazer; essas pessoas são mais bem sucedidas em suas relações pessoais, ouso dizer. Quando percebi que eu não tinha aprendido essa técnica muito útil, resolvi me assumir como uma pessoa interessada! E quem se assustar com meu interesse que se assuste.

Aí é que entra o assunto do qual eu estava falando antes: eu sempre falo sobre como é difícil fazer amizade de verdade com algum gringo, mas conhecer pessoas aqui em Belo Horizonte não tem sido exatamente fácil. Acho meio cansativo como qualquer movimentação sua é interpretada como interesse romântico ou sexual – o romântico, óbvio, assusta mais os outros – e como também eu de repente me percebi um tanto quanto impermeabilizada no meu círculo de amigos da recém-finita graduação. É muito confortável sair sempre com as mesmas pessoas, ou nem mesmo sair – cerveja no supermercado é mais barato! – dizendo a mim mesma que as únicas pessoas que eu preciso e quero conhecer, eu já conheço.

Bem, já faz um tempo que eu percebi que isso não é verdade. Nem um pouco! Mas eu poderia encher um outro post com os nomes dos caras com quem eu puxei assunto desde o começo desse ano – estamos em julho ainda, lembremo-nos – e que se assustaram pelo meu excesso de mensagens, conectividade, interesse, papo furado. Eu admito que mando mensagens demais. Adoro me comunicar! Isso não tenho nem argumento pra negar. O problema é que o meu interesse – nem sempre romântico, às vezes nem sexual – assusta muito os outros. Imagino que a minha impulsividade em me comunicar incomode e gere conclusões que nem sempre são verdadeiras. 

Pessoas aí do mundo, será que a gente já se machucou tanto assim? Será que a gente tem argumento pra sentir tanto medo? Claro que não descarto a grande possibilidade de que eu só seja desinteressante, e nesse caso, desconsidere toda essa reclamação num blog que ninguém acessa, mas será que a gente não está meio jovem pra achar que tudo sempre vai dar errado? Provavelmente vai dar errado sim. Mas será que já fomos tão pisados assim pra achar que não tem outro jeito de ser? Quero crer que estamos (porque eu também ajo, às vezes, com esse reflexo de me afastar de quem se mostra interessado em mim) jovens demais pra estarmos tão velhos por dentro.