Usando duas camadas

Fiz trinta anos quarta-feira passada. Ao contrário de quando fiz vinte, essa virada de década veio com uma leva de questionamentos sobre praticamente todas as minhas escolhas. Pra não ofender quem realmente já passou da metade da expectativa de vida, não vou chamar isso de crise de meia idade, primeiro porque tomara que não seja, segundo porque sempre que algum jovem de 23 anos fala isso eu tenho vontade de quebrar os dentes da pessoa – então deve ser assim que gente de quarenta ou mais se sente.

Eu fui pra uma conferência sobre o bicentário de Frankenstein, da Mary Shelley, na semana anterior, em Edimburgo. Apesar de a conferência ser interessante e a cidade ser linda, não dá pra dizer que foi uma viagem feliz. Eu peregrinei por 40 minutos no frio procurando um restaurante pra comer – todos estavam lotados, todos MESMO. Depois de apresentar meu artigo, feito alguns amigos, com gente chamando minha análise de excelente até, eu estava no ônibus, voltando pro hotel, quando soube que o cachorro da minha mãe, de 16 anos, tinha morrido. Dois dias antes, literalmente minutos depois de escrever pra um amigo que eu estava “de excelente humor”, fiquei sabendo que uma das crianças da rua onde eu cresci tinha morrido de câncer, depois de já ter vivido a dureza de ser gay filho de evangélicos. De cereja no bolo, um dos meus amigos aqui em Limerick tinha dado a entender que iam fazer uma comemoração do aniversário de outro amigo naquela noite. Eu sentei na minha cama no hotel, comendo um sanduíche de supermercado, e assisti uma partida de rugby, Irlanda versus Estados Unidos.

A certa altura, eu comemorei. Parei de mastigar, me olhei no espelho. Eu tinha acabado de comemorar um lance da Irlanda. Não só eu tinha entendido o que tinha acontecido na partida, como eu estava feliz com a vantagem do “meu país”.

Uai. Eu estou aqui tem três meses e meio, só. Estou aqui para pesquisar e escrever, é claro, então a ideia de que eu formei uma vida em Limerick, com rotina, lugares favoritos de ir, programas repetitivos com os mesmos amigos que me dão alegria… Bom, eu não percebi isso acontecendo. Eu não me toquei que a aula de quinta-feira, o Mother Macs no sábado pra depois ir “dançar” no Costello’s (onde o dono nos conhece!), comer kebab bêbado, virar os olhos com os meninos discutindo detalhes absurdos de História, que tudo isso sou eu agora. Geralmente eu fico tão feliz olhando pra vida que eu construí em BH que nunca me passou pela cabeça que eu era capaz de construir outra vida, que também é boa.

Que ideia revolucionária, né? O mundo não acaba quando você precisa sair do país.

Acho que é parcialmente por isso que as lembranças da vida no Brasil parecem ter sido vividas por outra pessoa quando eu lembro delas. Foi agosto que eu enchi o apartamento de amigos. Eu lembro do pessoal chegando, do namorado fazendo comida, de sentar no chão usando só uma camada de roupa (que absurdo, uma camada!), de jogar Dead Cells, de debater se o Monstronauro ia ser eleito ou não (ele foi). Lembro que a gente discutiu memes velhos – certas pessoas nunca tinham assistido o menino do Halo 3 Halo 3 Halo 3 – e de apertar meus gatinhos. Mas não parece que fui eu, essa pessoa aqui embaixo de dois edredons esperando a lasanha congelada ficar pronta, que vivi aquilo. Não parece que eu sou a mesma pessoa; e apesar de poder falar com todo mundo na internet, ainda parece que a distância literal funciona como um véu isolando a Amanda que estuda na UL e dança no sábado à noite da Amanda que estuda na UFMG e que não fica em pé num rolê nem por decreto.

Quando o avião pousou em Dublin na segunda passada, com o baque típico do piloto da RyanAir que não faz nenhuma questão de ser suave, a porta se abriu e bateu aquele vento terrível, irlandês, constante, quando eu pisei no chão. Aqui não dá pra usar uma camada só; por adaptada que eu esteja, eu sempre preciso de pelo menos uma, mas às vezes duas camadas extras. Quando eu voltei pra Irlanda, eu me senti em casa, de uma maneira que eu não achei que fosse capaz. Voltando pro Brasil, vou ficar triste demais de deixar essa segunda camada pra trás.

Anúncios

O mundo não é uma distopia

Uma das lições que eu aprendi nessa década dos 2010s, já consigo dizer, é admitir os privilégios que possibilitaram meus sucessos. Eu saí de uma família pobre (outro dia minha mãe contou no telefone sobre dormir em colchões de palha com a minha vó e a irmã dela), mas eu também fui educada numa família nuclear, em que pai e mãe trabalhavam porque minha avó, aposentada, podia ficar comigo. Eu sofri bastante bullying na escola. As crianças me chamavam de lésbica (que não é um xingamento, mas sabemos que muita gente usa como se fosse), não tinham interesse em falar comigo porque eu não tinha carteirinha do clube, tevê a cabo, computador – mas eu estudava em uma escola particular, ou seja, não fiquei sem aula de física, de geografia, de português por falta de professor. Não deixei de ter material didático porque o estado não mandou a verba, muito pelo contrário; eu tinha tanto material didático que era uma piada corrente chamar a coleção extra de “intocáveis” porque ninguém fazia os exercícios deles. Maluco imaginar que a gente ria de ter material demais.

Para todos os propósitos, no Brasil eu também sou branca, então essa é outra marimba que eu nunca precisei segurar. Os tratamentos diferentes por cor de pele, ou de olhos, só acontecem comigo quando eu saio daí e, mesmo assim, é raro. Além disso, e apesar das apostas dos meus colegas de escola, até hoje tudo indica que eu sou heterossexual, então todos os livros, todas as séries, novelas, filmes ad infinitum mostravam relacionamentos com os quais eu conseguia me identificar. É claro, eu sou mulher, e essa diferença, se fosse pra escolher uma, é que mais me marcou como outro na minha experiência até hoje. Nesses meses na Irlanda, eu também me enxergo melhor como latina. Os meus privilégios, todavia, só se acumularam. Hoje eu estou na segunda metade de um doutorado que está indo surpreendentemente bem – quantas pessoas respondem felizes quando alguém pergunta pra elas “como vai a pós?”?

Agora que eu estou no caminho de me consolidar como pesquisadora dos Estudos Utópicos, tenho aprendido bastante coisa que desloca algumas certezas. Estudar utopias é muito associado a ser idealista, ou a buscar cenários impossíveis; eu já li dois capítulos da Lucy Sargisson, que soa meio de saco cheio dessa história no texto dela, falando que “perfeição” nunca fez parte de ideia de Utopia como gênero. Ela fala que até mesmo o texto fundador, do Morus, traz defeitos propositais e trechos auto-conscientes e irônicos. Nos anos 1990, outro pesquisador da minha área, o Lyman Tower Sargent, chamou os utopismos de “sonho social”, enquanto a Ruth Levitas chama de “expressão do desejo por uma forma melhor de viver”, mas ela acrescenta que esse sonho social, esse desejo por melhorar a vida das pessoas de forma coletiva, como espécie, precisa vir junto de uma chamada pra ação, ou a utopia acaba se transformando em nada mais que um “modo de viver em meio à alienação”. Outro cara, o Fredric Jameson, cantou essa pedra várias vezes, falando que é impossível imaginar um mundo totalmente fora desse em que a gente habita, sem mencionar a máxima dele, de que hoje em dia “é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo”.

Ninguém nega que é impossível chegar a um modelo universal e estático, que faça todos felizes ao mesmo tempo da mesma forma sem ser totalitário. Os utópicos não divergem dos anti-utópicos porque querem bater a cabeça na parede e imaginar mundos melhores, mas porque pensadores anti-utópicos acreditam que a natureza humana é o que nos impede. O Karl Popper, por exemplo, acredita que, como espécie, nós queremos paz, mas adoramos uma porradaria; nós queremos felicidade, mas não queremos o tédio que ela traz; pra ele, nós temos o conflito dentro de si, a desigualdade dentro de si, e por isso a utopia não é só uma perda de tempo, mas também perigosa. Os utópicos divergem nesse valor básico dos anti-utópicos: mesmo sabendo que a utopia sempre vai estar no horizonte, logo ali, fora do alcance, isso não quer dizer que o trajeto para buscar melhorias utópicas não seja benéfico.

Acreditar que todo mundo, independentemente de raça, idade, classe social ou gênero, merece acesso a hospitais e tratamentos de saúde é um dos motivos que a minha mãe, diagnosticada com câncer de mama em 2016, recebe tratamento de graça do governo. Acreditar que todo mundo merece acesso à educação em todos os níveis é um dos motivos que eu fui a primeira da minha família a chegar a uma universidade pública, um dos motivos pra eu ter concluído mestrado e estar no doutorado. Acreditar que todas as pessoas, depois de anos de serviço, devem receber um valor do governo para viverem a velhice com tranquilidade, é um dos motivos pro meu pai estar se aposentando em breve.

O impulso utópico começa no impossível, é claro. As faces da utopia, muitas vezes, trazem os projetos terminados; a gente vê o Estado funcionando, a gente vê a pobreza erradicada, a gente vê as violências de gênero erradicadas, e isso dificulta imaginar como que teria sido o processo de construção de um mundo assim. Mas, como meu orientador fala exaustativamente, a utopia não é uma planta pra ser seguida, mas um método pra imaginar caminhos, pra sonhar socialmente.

Parece que a gente vive em uma distopia hoje em dia, parece demais. Essa ideia está errada não só porque não entra na definição do Lyman Tower Sargent (“uma sociedade não existente descrita em detalhe considerável e normalmente localizada em tempo e espaço que autor desejou que fosse vista por um leitor contemporâneo como consideravelmente pior do que a sociedade na qual o leitor viveu”), mas porque o presente, por difícil e por assustador, não define o futuro e não define as nossas ações. Além do mais, para uma observadora que existisse duzentos anos atrás, esse mundo nosso ainda poderia ser maravilhoso – a realidade não é sonho social, nem pesadelo social. A realidade é um conjunto de ferramentas que nós temos.

Agora, isso são comentários de alguém se descobrindo utópica, talvez. Nós temos impulsos horríveis dentro de nós, mas por algum motivo, nós tendemos a chamar só os impulsos horríveis de naturais. Por que é natural causar violência, mas não é natural sonhar socialmente? Por que argumentar que a desigualdade é natural, quando grupos buscaram e conquistaram enormes feitos a favor da igualdade? A gente, francamente, perde muito tempo se preocupando com o que é e com o que não é natural e isso nos distrai de pegar todas as nossas ferramentas, os nossos privilégios e os nossos traumas e opressões, pra imaginar mundos melhores – pra construir mundos melhores.

 

(alguns dos autores que eu mencionei aqui eu tenho PDFs, mas todos em inglês. Se quiser, é só me pedir e passar seu email, porque outro valor utópico meu é que todo mundo merece livre acesso ao conhecimento.)

Como Nossos Pais

Tem uma lista de músicas no meu celular que eu batizei de “viagem emocional”. Desde que cheguei na Irlanda, em agosto, eu evito escutar. Conforme o segundo turno das eleições no Brasil se aproxima, evitei ainda mais. Finalmente, depois de comprar água pra semana e um sanduíche no supermercado aqui do lado, deixei tocar “O bêbado e o equilibrista” e, mais importante aqui, “Como nossos pais”, na voz da Elis Regina.

A geração dos meus pais, nascida nos anos 60, foi alfabetizada e escolarizada durante a ditadura militar no Brasil. Quando eu tinha uns doze anos, eu descobri um livro antigo da minha mãe, da disciplina absurda de “Educação Moral e Cívica”, e fiquei mais chocada ainda com o capítulo que falava da “Revolução” de 64, e não do golpe militar, como hoje é conhecido (de forma certa).

Pra minha geração, criada com disciplinas como História, Geografia, estudos sociais, até mesmo literatura, a inércia das pessoas de 45 anos ou mais parece inaceitável, e muita gente compra brigas e discussões sobre política com os parentes. O que a gente não lembra é que nós de 20 e 30 anos tivemos uma educação muito mais variada do que eles, independentemente da qualidade. Enquanto eu tive professores tanto que defendiam o capitalismo como o socialismo, a geração antes da nossa nem votar pra presidente podia aos 18 anos.

Mas tem uma coisa que essa geração dos nossos pais entende, que é a música.

Os shows de calouros, os programas de rádios; algo que floresceu mesmo naquela época, mesmo com a censura, foi a música. Eu mesma fui criada ouvindo competição de calouros no Raul Gil, com a minha vó e a minha mãe na sala. Indiscutivelmente, a música que se escolhia para demonstrar capacidade vocal era, claro, “Como nossos pais”.

Não quero lhe falar, meu grande amor / Das coisas que aprendi nos livros
Quero lhe contar como eu vivi / E tudo que aconteceu comigo

Outra coisa que a minha geração faz é usar dos anos de escola, desse privilégio que a gente teve, pra tentar convencer a geração anterior de que a gente sabe do que está falando. Então, aos meus pais, aos amigos dos meus pais, a todo mundo que pensa que o Bolsonaro pode significar mudança, não me escuta porque eu estudei História, Geografia, o cacete: me escuta quando eu te falo da minha vida e da dos meus amigos.

Este ano, encontrei um amigo no centro porque estava vendendo um livro pra ele. Despedimos. Eu já estava em casa quando, horas depois, fiquei sabendo que ele tinha sido perseguido na rua por um grupo de homens que queriam matá-lo. Por quê? Porque ele é um homem gay.

Este ano, uma professora universitária recebeu inúmeras ameaças de morte, porque ela tem opiniões políticas de esquerda, assim como eu, assim como meus amigos mais próximos, assim como meu namorado. Este ano, uma amiga minha, adulta, honesta, tem medo de combinar de encontrar o pessoal nos bares, porque tem medo de acontecer com eles o que aconteceu com esse amigo do parágrafo anterior.

O que isso tem a ver com o Bolsonaro, você pode me perguntar. Desde 2012, quando ele começou a ficar mais famoso, ele já falou que pessoas negras não servem nem pra procriar. Já falou para uma colega deputada que ela não merece ser estuprada. Já falou que é a favor de tortura e que não se importa com a morte de alguns inocentes no caminho. Quando um líder fala essas coisas, a população entende, com razão, que ela pode cometer as mesmas agressões. Se é pra falar de mim, vamos lá: você, lendo esse texto, acha que eu, o meu namorado, os meus amigos, os meus colegas de curso, de trabalho, merecemos ser expulsos do país ou mortos? Eu duvido, porque, no dia a dia, nós não temos problemas. Eu pago contas, eu cumpro compromissos, eu voto.

Por isso, cuidado meu bem, / Há perigo na esquina
Eles venceram, e o sinal está fechado pra nós / Que somos jovens

Quando a Elis (ou o Belchior) falam aqui do perigo na esquina, eles não estão falando do perigo de assalto, e sim do perigo do militar vigiando qualquer atividade suspeita. Esse é um assunto sobre o qual eu queria estar errada – se eu estiver errada, NOSSA, que alegria que vai ser! –, mas esse perigo na esquina não é o rapaz que te rouba um celular; é o oficial, pago e mantido pelo Estado, que pode te prender ou te torturar se resolver que o bandido é você. Quando a gente entrega o poder assim, todo mundo é bandido. O sinal fechado pra jovens é pra gente, como eu, que protesta na rua (e vai continuar protestando), que já tomou gás lacrimogênio, que tentou ocupar o espaço público. Quando você vota no Bolsonaro ou quando você acredita que militares são bons governantes, sou eu, a geração que vocês criaram, que vocês estão jogando na fogueira.

Para abraçar seu irmão e beijar sua menina na rua
É que se fez o seu braço, o seu lábio, e a sua voz

Lembra quando beijo entre gays e lésbicas era um absurdo? Lembra quando um monte de coisa era absurda e depois a gente tirou cinco minutos pra pensar e percebeu que não tinha nada demais? Nem todo mundo acha isso, e muitos desses são violentos.

Nossos ídolos ainda são os mesmos / E as aparências não enganam, não

Agora, eu entendo ter medo do crime. Eu entendo sentir que você não tem controle das coisas. O jeito como o Bolsonaro fala dá a impressão de que a gente precisa retornar a um passado mais firme, em que as coisas mudavam mais devagar. O apelo dele é pras memórias bonitas daquele passado – só que aquele passado matou gente, tirou poder de decisão das suas mãos; os cantores que você gosta tinham que dar quinze voltas pra publicar uma música. Música e arte em geral podem falar de coisas diferentes do que parece. “Como nossos pais” parece que é sobre a gente virar adulto e cometer os mesmos erros dos pais que nos criaram, mas não é bem assim.

Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo que fizemos
Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais

Por que, afinal de contas, a gente repete erros do passado? Porque a gente não é honesto consigo mesmo quando olha pra trás. De novo, falam que gente de esquerda é monstro, inventam que a gente quer destruir o país. De novo, perseguem, batem, até matam quem não vive de acordo com uma moral inventada. Se a gente ignora os crimes da ditadura militar no Brasil, a gente não aprende. Se não aprende, não faz melhor no futuro. Eu cometo os erros que você cometeu que seus pais cometeram que seus avós cometeram. A gente fica pra sempre preso nesse ciclo de negação, só sobrevivendo e eternamente batendo a cabeça na parede. Mas

O novo sempre vem.

Pasta de dente

Eu trouxe na mala a pasta de dente que eu tinha começado a usar no Brasil. Economizei dois euros trazendo pra cá o tubo, meio usado. Eu nunca fui dessas pessoas que espreme o tubo de pasta de dente até o talo; a minha impaciência me faz simplesmente abrir um novo quando arrancar o produto começa a dar trabalho. Bem, o caso é que eu fui usando, usando, e, por uma boa semana, eu escovei os dentes só com algumas raspinhas daquela pasta de dente.

Assim como eu enrolei pra jogar o tubo fora e comprar outra, eu também enrolei pra me perguntar porque tinha mudado de comportamento com relação aos meus gastos com higiene dental. Eu tenho um orçamento confortável pra viver aqui na Irlanda, sem esbanjar nem passar fome, então por que diabos eu demorei tanto tempo pra comprar uma pasta nova? Acordando de ressaca num domingo, me dei conta que eu não queria jogar ela fora porque a embalagem tinha o rótulo todo em português.

Xampu, condicionador, sabonete, papel higiênico, desinfetante, todas as outras coisas, todinhas todinhas, eu comprei novas logo que eu cheguei. A pasta de dente, não; estava ali, firme e forte, “creme dental”, “dentes limpos e saudáveis”, espremida de uma forma quase humilhante e rodeada de shampoos, conditioners e razor blades. Depois de perceber que eu estava com medo de jogar aquilo fora porque estava com medo de metaforicamente me desfazer do meu laço com o Brasil, aí eu já não podia mais enrolar, porque afinal de contas eu sou um personagem pós-moderno ou uma pessoa? Eu, hein.

 

Dito isso, eu sinto saudade de conversar em português.

Caí numa pegadinha da sociedade de consumo, né? Joguei minha identificação nacional num produto que se compra e vende, ou seja, já posso rasgar minha dissertação e dançar em volta da fogueira, já que o isolamento térmico do meu quarto é uma merda.

Mesmo assim, eu sinto saudade do Brasil, todos os dias.

Quatro anos depois

Eu redescobri o meu próprio blog graças à página da Pat Cadigan. Ela é uma das escritoras que eu estudo no meu projeto de doutorado, e ontem eu a conheci numa convenção de ficção científica irlandesa.

Toda vez que encontro pessoalmente alguém que é um ídolo pessoal ou uma celebridade, eu perco toda a minha capacidade de elaborar linguagem, de formar pensamentos complexos – de forma geral, eu fico bastante idiota. Não ia ser diferente com essa escritora. Ela ganhou prêmios de ficção científica, ela trabalhou e conheceu pessoas incríveis, sendo ela própria uma pessoa incrível, e ela estava bem na minha frente.

É difícil de elaborar a estranheza que é enxergar aquela autora como uma pessoa complexa: engraçada, meio doida, desgraçada da cabeça (hoje em dia, quem não é pelo menos um pouco desgraçado da cabeça?). Ver a Cadigan fazendo piada sobre o câncer terminal dela, sobre trabalhar escrevendo cartões para a Hallmark, ou sobre quando encontrou o ídolo dela trabalhando numa WorldCon nos anos 70… Os personagens dela ficavam flutuando atrás dessa criatura de carne e osso, que tem a mesma doença da minha mãe, falando sobre como já estava na segunda piña colada às duas da tarde.

De qualquer forma, foi uma coisa que aconteceu, mas agora que a euforia passou, eu encontrei esse blog, quis comentar algo que esqueci de falar pessoalmente, e o wordpress me fez logar na minha conta antiga. O curioso é que eu meio que não queria, justamente por saber que essa página estaria aqui e porque eu tenho horror de ler coisas velhas escritas por mim. Eu sei que isso é uma ironia, ou uma subversão, depende de qual termo chato dos estudos literários você quiser usar, já que eu escrevi diário dos 9 aos 19 anos de idade e, afinal, se isso me incomodasse tanto, eu teria excluído a página, não é? Eu não gosto de apagar textos, mas também estava um pouco ansiosa de rever isso aqui.

O último texto, de 2014, cantava a alegria de ter entrado no mestrado e construir a minha própria rotina em casa. Eu fiquei repassando essa voz da Amanda de 2014, de alguém cheia de esperança no futuro e satisfeita com a vida que tinha construído pra si mesma, e percebi que isso de fato não mudou. Eu acabei o mestrado, entrei no doutorado, estou no terceiro ano dele, agora na Irlanda, porque consegui uma bolsa de doutorado-sanduíche da CNPq. Fico aqui até janeiro. Ontem completei dois meses no país.

Eu sinto saudade da minha vida no Brasil todos os dias, e às vezes me sinto meio presa aqui. Argumento que minha vida em BH é feita de escolhas minhas, dos amigos que eu cultivei ao longo dos anos, que as conquistas acadêmicas (velho, teve muita conquista acadêmica nos últimos dois anos, mais do que eu imaginei) eram frutos de escolhas e tal. Uai, e por acaso vir pra cá não foi uma escolha também? Eu, hein.

Com o Brasil sambando na beira do abismo da ignorância política como está, eu sinceramente não sei o que fazer. Essa, sim, me é uma sensação familiar e que eu aprendi a usar na vida acadêmica: eu estou perdida e desorientada a maior parte do tempo.

Segue o baile, então.

(voltei pra cá, pelo visto.)

I’m only happy when it rains

Quem lê blog, ultimamente, está sempre atrás dos problemas, dos questionamentos, dos sofrimentos e, principalmente, das injustiças. Eu mesma leio uma quantidade de posts sobre desigualdade de raça, gênero, idade, classe social… Compartilho, discuto e tudo o mais. Num momento como esse, é realmente bom lembrar que eu nunca escrevi esse blog muito pra outra pessoa além de mim mesma, e se é pra falar sozinha, eu não preciso ter medo de público, né?

Vou mandar a real aqui agora: minha vida está bem boa nesse momento.

O ano passado foi bastante ruim, uma dureza. Teve época em que eu trabalhava de oito às dezoito, pegava trânsito pra ir e voltar e depois ainda ia: estudar para a seleção do mestrado / traduzir / ir para a academia / assistir matéria de ouvinte na faculdade, dependendo da época do ano. Vivi num namoro à distância, todo mundo teve mil problemas, eu tive crises nervosas e de stress, me senti inadequada como nunca antes, a família deu trabalho, enfim. Mas eis que 2014 tem sido um ano mágico!

Esse final de semana, o pai do meu namorado me perguntou se eu ia fazer um concurso junto com o namorado em questão, pra um cargo qualquer em Brasília que paga 25 mil por mês (não me peçam o edital porque não vou dar; não quero ninguém concorrendo com ele!). Eu respondi que não, e pra surpresa dele, acrescentei que estava muito feliz com a minha vida atual.

Eu não estou ganhando 25 mil reais por mês. Estou fazendo melhor que isso. Estou ganhando dinheiro suficiente pra viver e pra guardar pro futuro, trabalhando de casa com o que eu gosto. Eu reviso português ou inglês ou traduzo de pijamas, com uma playlist que eu carrego da internet que eu uso como quero, com gato(s) no colo, e posso parar para cochilar/lanchar/youtube e afins quando quiser. Pra mim, isso francamente vale muito mais do que o salário do concurso.

Além do mais, amanhã é minha primeira aula do mestrado. Estava aqui lendo os textos em preparação para o primeiro dia, com a cabeça explodindo com todas as coisas legais que estava lendo, e eu só conseguia pensar: gente, que situação mais legal a minha. Eu posso ler um texto de noite, sem medo de dormir demais, tomando um vinho mais ou menos barato. Eu posso (e fiz) voltar a estudar italiano. Posso fazer uma atividade física que signifique coisas pra mim, me ajude a conhecer gente diferente e nova, o kung fu, posso só ficar feliz. Posso pensar na história que escrevi quando era adolescente e em como eu poderia reescrevê-la e mandar pra uma editora. De repente, eu posso.

Tenho sido muito menos sociável por causa disso: longas horas no quarto, lendo ou trabalhando ou vendo séries idiotas, e menos tempo na sala com meus amigos. Sempre volto primeiro dos butecos porque adoro aquelas duas horas em que volto pra casa com o Mário e ele fala sobre Linguística, e eu falo de Literatura e de Linguística também, e a gente fica bêbado falando de coisas que eu não ouso falar na mesa de bar por medo de acharem idiota ou irreal.

Mas sabe? É arrogante falar: “acho que todo mundo devia fazer como eu”, mas nesse caso específico, acho que deviam, sim. Encontrar o estilo de vida que você quer de verdade. E se fuder e se machucar e machucar os outros também, se for necessário. Com as devidas explicações, eles entenderão a loucura que você viveu. Mas se um emprego de escritório e essas coisas que vêm com ele não são o seu esquema, se você pira em textos sobre indústria cultural e afins, tem mais é que dar a cara a tapa.

As brincadeiras de mau gosto, a ditadura gay e a patrulha do politicamente correto

Queria começar este post dando os parabéns à UFMG, que está nas notícias nacionais desde ontem. Que beleza, hein? Meus parabéns.

Eu acho difícil tratar com qualquer coisa além de ironia e sarcasmo essa história do trote da Escola de Direito. Francamente, é uma decepção difícil de exprimir. Não que não existisse trote quando eu entrei – e olha que eu entrei na Letras. Tinha trote sim. No final de uma quarta-feira, depois da aula de Teoria da Literatura I, uns estranhos chegaram colocando barbante na mão da gente e gritando coisas indistintas. Bem, antes de pensar muito no assunto, eu só tirei o barbante da mão e saí andando.

Muita gente diz que o aluno vai parar no trote não por restrições físicas, mas psicológicas. Eu concordo; ninguém quer virar um pária no seu primeiro semestre em um ambiente estranho onde você deve permanecer por cerca de cinco anos. No meu semestre, um menino apelou e saiu correndo, num momento tragicômico, mas o máximo que aconteceu foi levar o apelido de André Rebelde, em homenagem à novela mexicana da época, e foi só. Eu ainda chamo ele assim mais por hábito (e porque na minha geração tem André até demais, francamente, e eu uso pra diferenciar).

Isso é completamente diferente do que acontece nas faculdades dos cursos mais disputados. Quem diria, você estuda igual um maluco pra entrar em um curso dificílimo e é recebido da forma como a gente lê nos jornais. Então, sim, eu sou contra trotes. Nos meus anos de atuação no Diretório Acadêmico, nós apenas incentivamos a recepção de calouros, com pimentinha barata e vinho mais barato ainda; tinha tinta pros desejosos escreverem na testa, e um grupo separado foi pra Antônio Carlos pedir dinheiro pros motoristas.

Vamos contrastar isso com outra história: eu moro no Bairro Ouro Preto, próximo às entradas de Educação Física e Veterinária da UFMG. Um belo dia, estou eu a caminho do ponto de ônibus pra ir trabalhar e de repente me sobe um cheiro inacreditável de merda. Ergo a cabeça pra perceber a presença de uns 5 ou 10 calouros da Veterinária, e eles estavam – SIM – cobertos em merda.

Por princípio, eu já não dou dinheiro pra calouro, talvez por causa da minha mãe, que, quando eu passei, deu rapidamente os parabéns, mas logo acrescentou que eu não fiz “mais do que a obrigação”, já que ela tinha investido no meu ensino durante mais de uma década, além dela e do meu pai terem trabalhado loucamente pra que eu própria não precisasse sacrificar tempo de estudo trabalhando. Ainda menos quando trata-se de um calouro alto, forte, bonito, branquelo e bem alimentado, com corte de cabelo da moda, me dizendo que passou em Medicina.

A UFMG não está sozinha nas práticas medievais de recepção de calouros. Contudo, saber que isso está acontecendo na instituição onde eu me formei é particularmente doloroso; é como se, como ex-aluna, eu tivesse algum tipo de dever de zelar pela “imagem” da universidade. Isso influencia todos os dias o modo como eu exerço minhas profissões; quando dava aula, e agora quando reviso e traduzo, penso sempre em como o nome da UFMG influenciou minha contratação de forma positiva, e tento atuar de modo a atender a essas expectativas e não decepcionar os professores que investiram tempo me preparando e corrigindo meus trabalhos.

Infelizmente, tenho a impressão que essa noção muito simples falta aos alunos, veteranos ou calouros, de muitos cursos da UFMG. Para eles, ser aceito na UFMG é um mérito por si só, que, no imaginário deles, deve corresponder a algum tipo de escalada num sistema de castas antigo, um escravo alforriado que sai comprando escravos.

Uso essa metáfora e não é por acaso: essa visão de entitlement e superioridade não vem separada de um preconceito enraizado de forma tão profunda que nem é reconhecida. A meritocracia instituída pelo vestibular é apenas parcialmente responsável por isso; existe também essa supervalorização do bom desempenho nos estudos, como se notas e nomes fossem as únicas coisas importantes na sociedade e o único caminho para a felicidade.

Por causa de tudo isso, o que aconteceu na Escola de Direto não tem nada a ver com “uma brincadeira de mau gosto”. Tem a ver, sim, com ignorância, com falta de respeito e empatia.

Contrariamente do que circula nos comentários asquerosos e abissais das matérias que li em jornais online, nós não estamos passando por uma “ditadura gay” ou por uma “patrulha do politicamente correto”. Isso não existe. O que existe são pessoas que finalmente se unem para mostrar o seu desconforto com atitudes desrespeitosas, ou, no máximo, que tratam pessoas preconceituosas do modo como são tratadas por elas. É natural que o esforço pela igualdade de voz cause atrito. E, ainda que este atrito me force a ver o pior que existe na cabeça deturpada de gente acostumada a ter a voz e a vez, eu me vejo forçada a achar isso uma coisa boa, porque eu estou aqui argumentando em contrário, pessoas argumentam em contrário nos ônibus, nas ruas, na internet, na mesa do buteco.

Uma ditadura gay significaria que todo mundo seria obrigado a trocar a norma culta pelo bichês; que héteros não poderiam se beijar em público, assumir relações em público, e caso o fizessem, seriam presos e torturados. Uma patrulha do politicamente correto bateria na sua porta tarde da noite para perguntar por que você contou uma piada machista na empresa, na hora do almoço, ao invés de te olhar feio e sair andando. Uma dose amargurada de revanchismo dentro de mim é forçada a desejar apenas um dia de ditadura gay e patrulha do politicamente correto, apenas para que os termos imbecis parassem de ser usados.